observador.ptMaria João Avillez - 17 abr 00:20

Amêndoas da Páscoa

Amêndoas da Páscoa

Daqui a uns dias Notre Dame terá algumas linhas nos jornais e quando muito falar-se-á nos milhões doados pelos “ricos”, não no valor do ex-libris da civilização que nos foi berço e nos é raiz e matriz

1. O Presidente legisla. Uma estreia absoluta. Não podia e não devia mas ele não se importa. Sempre fiel aos seus (devastadores?) impulsos – isto é, a ele próprio — não se importa nada, mesmo sendo caso nunca visto de confusão de poderes constitucionais. Ei-lo agora a travestir-se num improvável Presidente-Legislador. Mas eu percebo: porque haveria de se importar se colaborou ao mais alto nível para fazer do país uma plateia apatetada de selfizados e, como tal, pouco apta organicamente para reagir ou se indignar? Já espanta mais que quem, acima da plateia, age ou intervém com responsabilidade na vida do país também não se importe. Ou nem sequer sinalize algum embaraço.

2. António Costa, numa exaltação que inquieta qualquer ser normalmente constituído, insiste em contar-nos que o PSD se activa num “assalto ao poder”. Deve haver gente que se engasgou a rir. Para quem assaltou o poder no seu próprio partido, arredando, com um mau pretexto, um líder eleito e em funções, depois perdeu as eleições governando hoje graças a terceiros, a frase intriga. Vai ser interessante aliás ver quanto medirá o “poucochinho” de António Costa e do seu desgraçado candidato europeu. (Não hei-de desistir até que alguém me traduza para “político” uma escolha eleitoral sem fundamentação nem defesa possíveis)

3. É por estas e por outras que me surpreende continuar a ouvir, a toda a hora e desde há muito, uma monótona ladainha, entoada também pela direita e centro direita, sobre a certeza do PS ir ganhar as próximas eleições. Todas as eleições. É obra, a ladainha. Mas saberão os que a rezam, que a ouvimos com alguma vergonha e sem lhe encontrar fundamentação nem verosimilhança? Além, claro está, de que a sua permanente recitação exibe o maior baixar de braços e a mais confrangedora rendição de que há memória recente na vida política nacional. O país esta em polvorosa social, esburacado de greves e reivindicações? Está. Somos os últimos dos últimos a crescer na Europa a que tão galhardamente pertencemos? Somos. O ministro das Finanças é um malabarista com uma voz em Bruxelas e um rosto em Portugal? É. O emprego criado que tanto inebria o governo é sustentável, garante futuro aos jovens e irá alavancar o desenvolvimento do país? Irá, sorriem eles que tanto sorriem, não irá, sabemos nós. A Educação está nas ruas da amargura tomada de assalto por estranhos propósitos e descabidos currículos? Está. A autoridade do professor — ou melhor, a autoridade “tout court” — foi trocada pela pancada que professores e professoras apanham sem que se ouça uma só voz dos do costume? Foi. Há uma censura velada e vigilantemente activa, continuamente disparada sobre quem ousa discordar do pensamento vigente? Há. Os de fora do perímetro da geringonça não têm direito de cidade? Não. Estorvam. Nunca houve tanta gente da mesma família a viver do PS, do Governo e do Estado como agora? Nunca.

Custa a crer que a conjugação destes maus sinais — nenhum inventado – leve alguém num andor como se apregoa. À esquerda e à direita.

4. E de súbito lembrei-me mas sem me lembrar: quando teria sido? Anos oitenta, talvez, ou seria ainda final de setenta? As imagens eram fugidias e esparsas, eu a entrar numa espécie de cacilheiro em Estocolmo que, deslizando com aquática doçura, me pôs a caminho de uma entrevista muito desejada e depois (quanto tempo depois, que não recordo?) me deixaria numa casa sobre um lago, onde havia um jardim e uma senhora loura. Bibi Andersson era um raio de sol — igualmente capaz da cinza e da sombra – que inspirava Bergman que muito a amou e incansavelmente, apaixonadamente, luminosamente a enquadrou com a sua câmara de filmar em dezenas de filmes que nunca esqueceremos.

“Sou finalmente livre e já ninguém me mete ideias na cabeças” disse-me ela na sua serena morada e foi das poucas coisas de que me lembrei hoje por ter sido uma frase intrigante – intrigara-me tanto que a escolhi para título do nosso diálogo.

Era uma belíssima tarde de verão, ela bebia um campari, acabara de cortar um pepino, tinha um olhar azul sombrio e estava muito cansada — “levei o dia em ensaios”. Sou incapaz de me lembrar porque razão o Expresso me enviou a Estocolmo, talvez tenha sido aquando de uma visita à Suécia onde fui a convite do seu governo sueco, talvez não. Irei ver. A memória fragmentada e imprecisa que guardo deste encontro com uma mulher que tudo sublimava no écran, merece que eu mergulhe em gavetas e arquivos até que essa memória se torne definitivamente lisa e límpida como o lago onde conversei uma tarde com Bibi Andersson.

5. Há dias perguntaram a um grande homem de teatro espanhol o que o inquietava mais no mundo de hoje. A “imediatez”, disse ele. Tem razão: tudo pousa instantaneamente nos nossos radares mediáticos para imediatamente se sumir deles, e logo poder arrancar novo episódio, seja do que for. O critério, as prioridades, as proporções, a própria racionalidade editorial, caíram em tal desuso que “o que for” pode ser tudo, e o roubo de uma galinha pode até assumir as porporções de um acidente com mortos e feridos. Mas, já repararam, nunca se fica a saber o “resto”. Esse “e depois? Que aconteceu?”. A vertigem do desbobinar da informação e o seu excesso privam-nos desse resto, vetando-nos qualquer mera curiosidade sobre ele. Virginia Woolf — estou sempre a citá-la – dizia que “nada acontece até ser contado”. A imediatez dá-nos ribombantemente o início e o “meio” de alguma coisa. O fim, nunca ou quase nunca. Daqui a uns dias a Catedral de Notre Dame terá algumas linhas nos jornais e quando muito falar-se-á mais nos milhões doados pelos “ricos” do que no valor simbólico de um dos maiores ex-libris da civilização que nos foi berço e nos é raiz e matriz.

E de Jean Marc Fournier, padre francês e capelão dos Bombeiros de Paris que decidiu solitariamente salvar das chamas duas da mais expressivas relíquias que sabia existirem na Catedral, ainda porventura menos se falará. Mas devia. Quanto mais não seja porque, como qualquer pessoa decente, ele justamente pediu que não lhe chamassem “herói”, fizera o que tinha de ser feito, independentemente das circunstâncias.

Do que não duvido é que o seu gesto ficará inscrito nesta Semana Maior da litúrgia cristã, que culminará no próximo domingo. Domingo da Páscoa que celebra a ressureição de Cristo.

Boas festas!

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