expresso.ptexpresso.pt - 16 abr 23:50

Pete Buttigieg. Quem é o candidato à Casa Branca que reergueu uma cidade e quer restaurar a democracia norte-americana

Pete Buttigieg. Quem é o candidato à Casa Branca que reergueu uma cidade e quer restaurar a democracia norte-americana

Dele tem sido destacado o facto de ser jovem e homossexual, algo que na corrida às presidenciais norte-americanos até o torna único, mas há mais a dizer. Enquanto candidato ao cargo, tem a ambiciosa intenção de “restaurar a democracia” norte-americana e acabar com o Colégio Eleitoral, preocupando-o, ainda, questões relacionadas com as alterações climáticas, os cuidados de saúde e a imigração

Pete Buttigieg, o presidente da Câmara de South Bend, no Estado do Indiana, que anunciou a candidatura às presidenciais de 2020 nesta segunda-feira, justifica a sua ascensão nas sondagens sobre as primárias democratas, assim como a atenção generosa que os media lhe têm dado e o dinheiro que tem entrado na conta bancária da sua campanha, com a necessidade que os norte-americanos sentem hoje em dia de ter algo “novo”. E até pode ser isso (e pelo menos literalmente é-o certamente, ele que tem apenas 37 anos), mas haverá outras razões.

Enquanto ‘mayor’ de South Bend, cidade com pouco mais de 100 mil pessoas localizada na antiga cintura industrial (“Rust Belt”), descrita pela revista “Newsweek” em 2011, precisamente no ano em que ele tomou posse para o primeiro mandato, como uma das dez cidades norte-americanas em estado mais avançado de degradação e desolação — “dying american cities” foi a expressão usada —, Pete Buttigieg conseguiu atrair para a cidade pessoas e negócios, e diminuir a taxa de desemprego para cerca de metade.

Este é um feito que o próprio não obscurece: “Sei que sou a pessoa mais nova nesta conversa, mas creio que a experiência de ter liderado uma cidade durante um processo profundo de transformação é algo bastante relevante”, afirmou numa entrevista divulgada há cerca de dois meses ao programa “CBS This Morning”, transmitido pela CBS, quando confrontado com aquela pergunta clichê, as mais das vezes desnecessária, mas também tramada: “O que o qualifica para ser Presidente dos EUA?” E foi daquela forma que respondeu.

Veterano, homossexual

Falar sobre Pete Buttigieg tem implicado quase necessariamente falar sobre a sua idade (se for eleito presidente será o mais jovem de sempre a ocupar o cargo) e a sua homossexualidade, mas a sua biografia é mais extensa do que isto. Nasceu em South Bend, em 1982, e os seus pais foram professores na Universidade de Notre Dame, instituição privada e católica localizada naquela cidade norte-americana. O pai traduziu a obra do filósofo italiano e marxista Antonio Gramsci, e investigou a fundo a obra de James Joyce, e a mãe é formada em linguística.

O candidato democrata frequentou Harvard e o seu igualmente conceituado Institute of Politics (IOP), e estudou filosofia, política e economia em Oxford. Esteve na Marinha norte-americana, durante mais tempo do que qualquer outro presidente desde George H. W. Bush, como gosta de referir, e no Afeganistão, durante sete meses. Toca piano e tocou ao vivo com o músico Ben Folds e a Orquestra Sinfónica de South Bend em 2015. Foi eleito “mayor” quando tinha apenas 29 anos e reeleito para o cargo aos 33. O seu casamento com Chasten Glezman, professor do ensino secundário, foi transmitido em direto.

Enquanto candidato à presidência, tem a ambiciosa intenção de “restaurar a democracia” norte-americana, o que na prática significa acabar com o Colégio Eleitoral, que “torna a sociedade norte-americana cada vez menos democrática”, referiu recentemente, citado pela revista “New Yorker”. Acredita num “capitalismo democrático”, embora ainda não se tenha percebido o que isso significa exatamente, e pretende pôr o foco sobre assuntos como as alterações climáticas, os cuidados de saúde, a migração e os direitos LGBT — recentemente, acusou o vice-presidente Mike Pence de “hipocrisia religiosa” por se manter leal a Trump de cada vez que este põe em causa estes direitos.

Já usou várias vezes a expressão “justiça intergeracional” para descrever o que pretende; as gerações mais novas estão a ser penalizadas pelas opções e decisões dos mais velhos e é preciso cuidar delas, assim tem defendido Pete Buttigieg. “Este é um desses raros momentos de transição na vida da nossa nação. O momento em que vivemos obriga-nos a agir”, afirmou também há pouco tempo, segundo o “New York Times”.

Buttigieg foi incluído numa lista de Obama de democratas em ascensão

Em 2015, o candidato democrata deu um discurso em Harvard de algum modo marcante. David Axelrod, antigo conselheiro de Barack Obama, esteve presente e usou as palavras “comovente” e “ponderado” para se referir ao discurso e “talentoso” e “reservado” para descrever Pete Buttigieg. “Ele tem uma história incrível, mas mais incrível do que a história é o próprio Buttigieg. Numa época em que as pessoas estão sedentas de esperança e anseiam ter um caminho conjunto a percorrer, ele mostra-se como alguém implacavelmente positivo.” No ano seguinte, o conhecido jornalista e cronista do “New York Times” Frank Bruni escreveu um artigo de opinião a propô-lo como o “primeiro presidente homossexual” e, numa entrevista com David Remnick, editor da “New Yorker”, Obama incluiu Buttigieg numa curta lista de “democratas em ascensão”.

Foi só há cerca de dois meses, no entanto, e depois de uma série de entrevistas televisivas, que o candidato democrata começou a ter uma atenção mais ampla. Só no primeiro trimestre deste ano, conseguiu um financiamento de cerca de 7 milhões de dólares (ou seis milhões de euros) para a sua campanha. Na semana passada, várias sondagens realizadas no estado de Iowa e New Hampshire colocaram-no em terceiro na corrida às primárias democratas, atrás do senador Bernie Sanders e do antigo vice-presidente Joseph R. Biden Jr., e à frente, embora com pouca margem, de candidatos bastante mais conhecidos como a senadora Elizabeth Warren e Beto O’Rourke. Se Pete Buttigieg conseguirá manter esta posição ou saltar umas quantas para a frente, não se sabe, mas a verdade é conseguiu chegar até ali e isso, por si só, obriga a não ignorar e a tentar perceber quem ele é e o que quer de facto.

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