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As cores que nos desfazem

As cores que nos desfazem

Esquecemo-nos que nada há de mais volátil ou fictício que as cores. Precisamos de referências como as crianças necessitam de embalo, mas elas traem-nos. É discutível que as cores tenham uma existência real objectiva: são subprodutos da luz - Opinião , Sábado.

Tomamos as cores como verdades absolutas - vemo-las, logo existem -, mas também como disposições do Universo sobre o nosso confortável mapa emocional. O branco é pureza e quietude. O preto, a dor e o Mal. O vermelho, violência e paixão. O azul, repouso, a tranquilidade. Esquecemonos de que nada há de mais volátil ou fictício que as cores. Precisamos de referências como as crianças necessitam de embalo, mas elas traem-nos.

É discutível que as cores tenham uma existência real objectiva: são subprodutos da luz, e dependem tanto do comprimento de onda em que as observamos como das espécies que fazem a observação; o amarelo transforma-se e desaparece, como os leões de Siegfried & Roy das jaulas doiradas dos anos 80, na teimosia electromagnética da luz ultravioleta e no voyeurismo cósmico dos infravermelhos.

As cores talvez sejam a forma de Deus brincar connosco a Van Gogh, já que vivem na mente desequilibrada de cada receptor e adquirem valores diversos ao longo do tempo. Tomemos o azul. Nem sempre foi sinónimo de maresia, um fio sereno no horizonte. Como explica Jesse Russell a propósito de Blue: The History of a Color, o livro do historiador francês Michel Pastoureau lançado em Março, o azul quase não existia na paleta da Antiguidade clássica. O mar de Homero era cor de vinho, denso e escuro, e os romanos associavam o azul a povos bárbaros como os germanos.

O azul era o tom difuso das criaturas do submundo - Monet e Debussy estavam a séculos aquáticos de distância. Já o preto é o que vemos quando fechamos os olhos. Cor-ausência, selo de morte, buraco negro que tudo consome, até a luz. Os buracos negros do Universo (é onde tudo começa, é para onde tudo regressa) foram assim apelidados por causa do Buraco Negro de Calcutá, indescritível cela de 4 por 5 metros onde 64 prisioneiros britânicos foram enfiados pelo nababo de Bengala a 20 de Junho de 1756 - por sede ou asfixia, morreram 21 na primeira noite. Em The Millions, Ed Simon relembra-nos que o preto é a cortante omissão de cor dos uniformes das SS.

Mas é também o tom da dignidade de Johnny Cash, do absoluto divino, do oceano estelar, do último LP de Bowie, dos olhos de Joanne Whalley, de Rembrandt, da nossa solidão sublime. As cores, mentirosas, nunca são o que vemos. São o que desejamos.

Santos e ...
Quem trabalhou n'O Independente (ali passei 12 dos mais estimulantes anos da minha vida), depressa ficava a saber duas coisas: o jornal fora construído como um expositor dos esqueletos no armário das maiorias cavaquistas; esses esqueletos eram em número suficiente para ocupar todos os cemitérios do País. Cavaco viria a confirmar no novo século o que sugerira nos anos 90: há uma ausência quase psicanalítica de auto-análise e uma projecção fictícia, inflacionada, da imagem própria. Para Cavaco, Cavaco será sempre a figura messiânica de uma longa-metragem prenhe de heroísmo. Para nós, espectadores da sua saga, ele não passa de um cavaleiro da triste figura, demasiado incapaz de compreender os moinhos que erige e vai combatendo.

... Pecadores
Os números estão aí e são uma violentíssima machadada para as salas de cinema e a televisão convencional: de acordo com o relatório 2018 da Motion Picture Association of America, os serviços streaming e os conteúdos OTT (over the top, directamente da Internet para o consumidor) geram já o dobro das receitas do cinema visto em sala nos EUA; ainda mais significativo é o facto de, pela primeira vez, o streaming ter superado o cabo como fonte principal de acesso a conteúdos audiovisuais. Em Portugal ainda estamos longe deste cenário: segundos dados da Marktest, 82% dos lares portugueses continuam a subscrever serviços de TV por cabo, e menos de 1/4 da população costuma ver filmes ou séries online. Mas os exibidores de cinema e os operadores de cabo que não se ponham a pau.

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico

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