www.publico.ptpublico@publico.pt - 15 abr 14:12

Quem segura a mão de Ratzinger?

Quem segura a mão de Ratzinger?

Pena é que um homem de altíssima craveira se tenha permitido ser uma espécie de porta-voz de cardeais que, negando a evidência, podem conduzir o catolicismo a uma quase total irrelevância.

As recentes reflexões de Bento XVI, destinadas inicialmente a uma publicação católica da Baviera, mas que acabaram por ser publicadas num jornal norte-americano, devem ser inicialmente analisadas de um prisma formal e institucional.

Não deveria um Papa emérito envolver-se, de modo directo, no mais grave problema da Igreja católica das últimas décadas, pelo dever de discrição que o mesmo se impôs a si mesmo, aquando da inexorável abdicação. Nessa altura, logo houve dúvidas quanto à coexistência física de dois Romanos Pontífices no Vaticano. Provavelmente, estes anos transcorridos, Ratzinger dever-se-ia ter retirado para a sua terra natal.

Simplesmente, há muito se sabia que Bergoglio representava uma diversa concepção de Igreja, ou melhor, uma forma mais democrática e aberta de a apresentar, sem descurar os seus princípios basilares, o que de todo pode ou deve. Mas chegou a existir a esperança de saber o que seriam esses “princípios basilares” e até que ponto a Igreja lidaria de modo diverso com a sexualidade humana.

O recente livro No armário do Vaticano, de Frédéric Martel, mostra à saciedade que, porventura, não haveria motivos para tanta esperança. Escrito com recurso a numerosas provas factuais, aqui e além com dificuldade de distinguir factos de juízos de valor, o livro é um auxiliar de relevo para entender os abusos sexuais na Igreja.

Tem-se falado somente na católica, mas ninguém duvida que, tal como os crimes contra a autodeterminação social de menores ocorrem em todos os sectores, não se trata esta de uma praga privativa dos católicos. Não se tem é procurado saber o que se passa em outras confissões religiosas e, em geral, nas ditas “instituições totais”, para usar o termo de Goffman.

Bento XVI decidiu, nas suas palavras, partilhar o seu contributo sobre o tema, advertindo ter informado o secretário de Estado e Francisco. Não precisava, claro está, das suas autorizações, que também não consta tê-las pedido e/ou obtido, mas é ingénuo achar que Ratzinger escreveu apenas pela sua cabeça. Sabe-se há muito que ele serve de agregador simbólico dos anti-Francisco, em especial de influentes cardeais do mundo germânico e dos EUA.

O momento escolhido não podia ter sido mais apropriado: após a reunião convocada em Fevereiro com os presidentes das conferências episcopais para encontrar soluções para um problema que já se não pode esconder. Penso que Bento XVI e a sua entourage falharam o alvo. A culpa dos abusos não remonta à revolução sexual do Maio de 68, à exposição dos seminaristas de então à existência de cinemas que só passavam filmes pornográficos ou ao epifenómeno de Ratzinger ter chegado à sua cidade natal, numa bela Sexta-Feira Santa, e ter-se deparado com um cartaz alusivo a um filme com duas pessoas nuas.

Mais interessante é a sua verificação que daí se seguiu a instalação, nos seminários, de uma cultura gay, motivada por gente influente e com o profundo objectivo deliberado de destruir a Igreja que existe.

É incompreensível que uma das soluções apontadas pelo Papa Emérito seja a de um maior fechamento do catolicismo, alegando que se deve regressar aos tempos catecumenais. Eles existiram perante perseguições terríveis, em que o culto tinha de ser em segredo e em que as primitivas comunidades católicas viviam isoladas do mundo por autopreservação. Mas que pediu sempre Cristo aos seus seguidores? Coragem e audácia, pelo que a Igreja só transmitiu a sua boa-nova quando se abriu ao mundo.

Não deixa de surpreender que, décadas depois, de modo mais ou menos subliminar, Ratzinger ainda aponte algumas “modernices” do Vaticano II como responsáveis por um ambiente favorável à pedofilia. Tiro na água, se jogássemos batalha naval. É evidente que os abusos sexuais são pecado, no sentido que lhe queiramos atribuir. Também é seguro – e Bento XVI lembra-o – que a Igreja fez algo, ao nível legislativo, desde logo ao colocar estes casos na dependência da Congregação para a Doutrina da Fé, de modo a permitir aplicar a pena de expulsão, a mais grave do prisma canónico, sendo ainda exacto que as garantias de defesa do arguido devem ser sempre asseguradas. Mas onde a reflexão de Bento falha é ao ficar-se pelo lugar-comum que estes crimes são também um atentado à Fé, pelo que devemos estar vigilantes quanto à forma de o mal actuar.

E, na prática, para além de a Igreja pedir perdão a Deus e de se encontrar um suposto bode-expiatório externo (a revolução sexual que conspurcou seminaristas e padres), que mais oferece o Papa Emérito para atacar o problema de frente? Nada, na minha modesta opinião. E nada por não querer acertar no alvo: o modo como a Igreja sempre encarou as questões sexuais, diabolizando-as, fazendo obrigação do celibato, assim reprimindo o que humanamente o não pode ser.

Deus dotou-nos de sexualidade e, por certo com regras que passando por não cometer crimes, é natural que as religiões sobre ela se pronunciem, como o fazem sobre outros vectores da personalidade humana. O que já é “contra-natura”, para usar uma expressão cara à Igreja, é querer que a repressão de homens e mulheres vá ao ponto do que não é possível nem desejável para uma saudável vida física e psicológica. Quem serve a Igreja e acredita em Cristo não tem de ser sempre santo ou mártir, embora o apelo à santidade deva constituir um objectivo que nos guia. E não o sendo, não significa que se torne diabo.

Ratzinger e a sua clique continuam a conceber um mundo maniqueísta, sem tons de cinza. Por muito que o Papa Emérito seja – e é – uma autoridade teológica, não há teologia sem compreensão do ser humano. E isto, porventura fruto do tempo em que se formou, Ratzinger parece não ter.

Também não é com comissões de duvidosa legalidade como a instituída pela Igreja Católica portuguesa, que vai “filtrar” as denúncias de abusos sexuais, que a comunidade sente que se quer mesmo descobrir tudo e punir os criminosos, com as garantias legais. Se a Igreja é – como deve ser – um farol no mundo, como compreender que não abra o que lhe chegou por vias que não afectem o segredo religioso – e mesmo é discutível se não existirão casos de estados de necessidade – ao escrutínio da justiça? Ela própria, em sede de inquérito, tem mecanismos para saber se houve ou não crime. Existir um inquérito nada significa quanto a saber se alguém cometeu ou não um delito. Trata-se de uma investigação que pode e deve terminar em arquivamento se e na medida em que se não reunirem indícios criminais suficientes.

Devemos isso às vítimas e à importância que, para mim, desempenham todas as religiões em sociedades cada vez mais desesperadas por faróis morais e éticos. E devemo-lo todos nós: Igreja e comunidade em geral. Pena é que o farol de Bento XVI vá definhando ao mesmo ritmo da sua idade e que um homem de altíssima craveira se tenha permitido ser uma espécie de porta-voz de cardeais que, negando a evidência, podem conduzir o catolicismo a uma quase total irrelevância.

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