expresso.ptDiogo Agostinho - 15 abr 09:35

Os custos da não decisão

Os custos da não decisão

Opinião de Diogo Agostinho

Na vida somos confrontados, permanentemente, com a necessidade de tomar decisões. Desde a vida de cada um, às decisões laborais e das organizações. Aceitar determinado emprego. Contratar determinada pessoa. Comprar casa própria ou comprar um carro. Apostar num novo produto para colocar no mercado. Arriscar num novo mercado, com novo produto ou tentar exportar para um novo destino. Adjudicar uma obra. Contratar serviços. Decidir investimentos. Do cidadão à empresa. Do Estado às diferentes organizações. Decidir é algo inerente à vida pessoal, empresarial e organizacional.

O mundo hoje vive a uma velocidade vertiginosa. Demorar, mais do que o necessário, no processo de decisão é ser ultrapassado. É por isso que cada vez faz mais sentido tomar decisões em vez de andar a estudar, pedir pareceres ou meditar muito sobre o assunto. Devemos deixar de ter fundamento e estudo na decisão? Claro que não. Mas o imobilismo, o receio de decidir, mascarado de prudência com multiplicação de grupos de trabalho, é um dos maiores cancros das organizações.

O zeitgeist, porém não está em maré de quem decide. Infelizmente. Hoje, num organismo público, quem decide é logo apontado como tendo um interesse material obscuro. Vai fazer uma obra? Está feito com o empreiteiro. Adjudicou a uma empresa? Deve ter um familiar por lá. Basta ler os jornais. Basta ver as muitas queixas anónimas.

Nas empresas, a decisão nos diferentes patamares de gestão é um processo que leva a muitas contas e alguns receios. Será que perco o emprego com uma má aposta do meu Departamento? Será que vou ao encontro de quem decide acima de mim? E quando nos podem reestruturações, sobretudo nas equipas? Bem, contratamos os melhores consultores externos para indicarem as pessoas que fazem ou não falta, pois, às vezes, a chancela de fora ajuda a justificar o que, há muito, se sabe na organização, mas sem efeitos práticos.

São receios naturais. Receios de gestão. Receios de pessoas que têm vidas, para sustentar, que têm mais proximidade com determinadas pessoas, que têm as suas próprias convicções e que têm medos e defeitos como qualquer um de nós humanos.

Todavia, existe um problema claro. A indecisão, a não decisão ou a hesitação é um empecilho ao crescimento económico. Atenção, não estou a apelar a decisões precipitadas, sem os estudos, a transparência e a ponderação dos impactos das escolhas a fazer. Não. Gosto e acredito no planeamento e na prudência. Mas para decidir é preciso coragem. E quem decide, sobretudo nos cargos de chefia, e por isso mesmo com remunerações mais elevadas para o acréscimo de responsabilidade, tem que ter como competência a capacidade de decisão. Não vale a pena ser Director ou Administrador se for apenas para funcionar como arquivista. Para isso existem muitas pessoas disponíveis e até programas informáticos de vária ordem. Os robots chegariam. Já há estudos que até os decisores políticos e empresariais podem ser substituídos até 80% das suas funções. Sobra o quê? A decisão com ponderação e sensibilidade humana.

Olhamos à volta e vemos projectos que demoram anos a fio a serem finalizados. Muitas vezes por questões judiciais, mas também por falta de capacidade de decisão de os levar por diante.

Olhemos até para o interminável e emaranhado Brexit. Um imbróglio que nem anda, nem desanda. Um sinónimo de imobilismo ou de falta de capacidade de entendimento. Apesar de existirem muitas causas justificativas da crise que existe.

Até na simples tomada de posição, existe o receio de decidir. Quantas vezes não ouvimos a expressão: “é mesmo político”, quando alguém não diz preto no branco o que pensa? Pois. É que dar a própria opinião obriga a expor-se, a tomar decisões. E leva ao confronto de ideias. E o confronto político o debate claro de ideias e desígnios é algo a que muitos experientes políticos fogem.

Cada vez gosto mais de quem decide. Mesmo com a possibilidade de errar. De quem decide e não perde tempo em conversas e rodriguinhos dilatórios. Chama-se eficiência. E a falta de eficiência é um défice brutal, nomeadamente em Portugal.

Obviamente que, quem decide, fica com o ónus dessa decisão. Da insatisfação que a medida traz. Mas liderar é decidir. E decidir é avançar. Parados, à espera de braços cruzados, não chegamos a bom porto.

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