rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 15 abr 01:00

Regresso ao passado

Regresso ao passado

Nos Estados Unidos, alguns multimilionários mostram preocupação com as crescentes desigualdades de riqueza. Revelam lucidez.

Na semana passada, o “Financial Times” destacou, em editorial, a preocupação com as crescentes desigualdades de riqueza manifestada por dois multimilionários americanos. Não é a primeira vez que, nos EUA, alguns super-ricos tomam posição pública contra uma situação que os beneficia financeiramente. Vários milionários enviaram ao presidente George W. Bush uma carta aberta solicitando pagarem mais impostos. O conhecido investidor em títulos Warren Buffett afirmou não querer pagar menos impostos do que a sua secretária.

Ora, atualmente, nos EUA os rendimentos dos mais ricos são muito menos taxados fiscalmente do que eram nos anos 50 e 60 do século passado. A reforma fiscal de Trump acentuou essa tendência.

É estranho que tal aconteça quando se acelera a concentração de riqueza num cada vez mais restrito grupo de pessoas. Talvez a influência política dos “lobbies”, refletindo a posição da maioria dos milionários, que terá escassa consciência social, contribua para essa tendência perversa.

Mas como se compreende que uma minoria de super-ricos se mostre incomodada com as crescentes desigualdades? Alguns, porventura, receiam que o capitalismo não sobreviva às injustiças na repartição de rendimentos. Esse medo existiu até ao colapso do comunismo soviético. E foi um fator de alguma humanização da economia capitalista. O fim do “socialismo real”, pelo contrário, levou a uma certa euforia no mundo capitalista e, até, à ideia – e à prática - de que vale tudo para ganhar muito dinheiro.

Acredito, porém, em que vários dos super-ricos preocupados com as desigualdades tomam posição por motivações éticas e também por lucidez. Uma sociedade decente não suporta durante muito tempo uma tal concentração de riqueza, que começa a parecer um regresso às sociedades pré-industriais. Nessa altura, uma pequena minoria vivia no luxo – corte, aristocracia, alguns burgueses ricos – e a miséria predominava na grande massa do povo.

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