sol.sapo.ptsol.sapo.pt - 17 mar 10:54

Zidane e um passo atrás para seguir em frente

Zidane e um passo atrás para seguir em frente

O francês é o caso mais recente de treinadores que regressam ao ex-clube num curto espaço de tempo. Antes do técnico do Real Madrid, esta época já tinha visto outros dois exemplos – com um protagonista português. Mas a tática de dar um passo atrás para seguir em frente não é uma jogada nova por parte dos clubes...

Atrás de mim virá quem de mim bom fará. O provérbio português encaixa que nem uma luva no tema que vai ser abordado pelas linhas seguintes. É certo, e também já o diz Jorge Jesus, que, para cada ditado popular, existe outro para provar o contrário – mas isso agora pouco importa.

Até porque se por acaso Zidane conhecer esta expressão, o mais certo é que não a use – desde logo porque, publicamente, não ficaria bem visto –, mas o mais provável é que já tenha pensado nela várias vezes desde a passada segunda-feira. Ou até mesmo durante os últimos nove meses.

Depois de ter renunciado ao cargo de treinador do Real Madrid, em maio de 2018, o francês foi no início da semana confirmado como o novo treinador dos merengues. O ex-jogador foi chamado para render o argentino_Santiago Solari, que acabou por defraudar as expectativas depois de um arranque promissor como técnico interino.

Mas o melhor mesmo é começar pelo princípio desta história, que começa e acaba com o mesmo protagonista: Zidane, claro. Depois de dois anos e meio como treinador dos blancos, o francês despediu-se do cargo com o estatuto de treinador mais laureado da história do Real Madrid. No total foram nove os troféus conquistados durante aquele período – três Champions, duas Supertaça Europeia, dois Mundial de Clubes, uma Liga espanhola e uma Supertaça espanhola.

A verdade é que a saída de Zidane apanhou tudo e todos de surpresa mas a direção do emblema espanhol, presidida por Florentino Pérez, apressou-se em mostrar trabalho para mitigar esta ausência. É então que entra em campo Julen Lopetegui. O espanhol, à data selecionador da Roja, acabou por ter de abdicar do Mundial 2018, depois de ter visto a federação espanhola rejeitar a ideia de o treinador seguir em funções com novos desafios em vista. E, assim, o ex-treinador do FC Porto é apresentado como novo treinador dos blancos.

Os problemas, porém, começaram muito cedo. A derrota na Supertaça da UEFA, logo no arranque da época 2018/19, no dérbi com o Atlético, fez soar os alarmes. Seguiam-se apenas mais 13 jogos até o espanhol ser oficialmente colocado na porta de saída – depois de uma série de cinco jogos sem vencer, a gota de água foi a derrota humilhante (5-1) em Camp Nou, diante do Barcelona, a contar para a jornada 10 da Liga espanhola. Contas feitas, dois meses e meio depois de começar a presente época, o Real Madrid despedia o sucessor de Zidane.

Surgia, desta forma, um novo quebra-cabeças para a direção blanca, que tinha de mostrar capacidade em arranjar um novo treinador, que fizesse acreditar os adeptos que o plantel merengue continuava firme nas várias competições. Com a época em andamento, Florentino Pérez – à semelhança do que havia sido feito com Zidane – apostou na prata da casa e faz aparecer Solari.

À data treinador do Real Madrid Castilla (equipa B dos merengues), o argentino surge, ainda assim, como novo técnico interino. Mas também aqui se dá um volte-face: Solari corresponde ao esperado e vence nas primeiras quatro partidas, tempo limite que o órgão que rege o futebol espanhol permite para um técnico estar temporariamente à frente de um clube. É nesta sequência que o argentino é anunciado como técnico definitivo dos merengues.

É neste novo começo, porém, que o sonho começa a desabar. No primeiro encontro com o estatuto de treinador efetivo do Real Madrid, Solari regista a primeira derrota (3-0), no reduto do Eibar, em encontro do campeonato.

A fragilidade e a imprevisibilidade que a equipa espanhola apresentava desde o início da época voltava, assim, a estar à vista de todos.
E o pior acabaria mesmo por chegar à capital espanhola durante as últimas semanas – com a espiral negativa a coincidir com a dupla jornada com o Barcelona.

No fim de fevereiro, o Real Madrid é afastado da Taça do Rei, ao perder, por 3-0, no Santiago Bernabéu, na segunda mão da meia-final da prova, depois de ter saído com um empate a uma bola em Camp Nou. Como uma tragédia nunca vem só, apenas quatro dias depois (a 3 de março), os comandados de Solari voltaram a perder em casa diante da formação blaugrana, desta feita em jogo da Liga espanhola (1-0).

Atualmente a 12 pontos do líder Barcelona, o Real Madrid fecha o pódio do campeonato do país vizinho e o título é já uma miragem.

Com a situação a agravar-se de dia para dia, a Champions, prova em que o Real defendia o estatuto de tricampeão europeu, era cada vez mais olhada como o troféu obrigatório para salvar a época.

Mas nem por ali a bonança havia de chegar a Madrid, já que o Real acabaria mesmo por cair de forma precoce na prova milionária. Depois de ter vencido o Ajax, na Holanda, por 2-1, o plantel merengue caiu com estrondo na capital espanhola ao ser atropelado pelos visitantes, que carimbaram a passagem para os quartos-de-final da prova após um triunfo por 4-1 no Bernabéu – a pior derrota caseira da história dos blancos na prova mais importante da UEFA.

A era Solari chegava, desta forma, ao fim. E com ela esgotavam-se as possibilidade de o Real Madrid lutar por qualquer título esta época, em que o balanço trágico já pode ser feito. É neste contexto, em que o clube está arredado da luta por um troféu, que Zidane entra novamente em cena.

O técnico francês assinou até junho de 2022 e tem na tarde de hoje o primeiro desafio desde o seu regresso: a receção ao Celta de Vigo na jornada 28 da La Liga. Esta reta final já servirá de resto para começar a limar o plantel - no qual Zidane tem total abertura para mexer (dispensas e contratações), de acordo com a imprensa desportiva espanhola. A promessa, de resto, está feita: «voltar a colocar o Real Madrid onde ele merece estar».

Os ‘retornados’

Zidane está, contudo, longe de ser caso único. Exemplos não faltam, protagonistas portugueses também não, e, por isso, a grande questão prende-se com o tempo que os clubes podem demorar a dar a mão à palmatória. Além do técnico francês, esta época já havia visto dois casos de ‘retornados’: Leonardo Jardim e Javier Calleja. O treinador português abandonou o comando técnico do Mónaco em outubro de 2018 e foi chamado de novo para o lugar menos de quatro meses depois.

Jardim, que conduziu os monegascos ao título de campeão francês em 2016/17, assinou, em janeiro passado, um novo contrato, até junho de 2021. Já Javier Calleja também foi dispensado e readmitido esta época: o espanhol, despedido do comando técnico do Villarreal em dezembro de 2018 devido aos maus resultados, voltou a assumir a equipa no final de... janeiro de 2019 (no dia 29). O submarino amarelo foi, entretanto, o clube responsável pela eliminação do Sporting nos 16 avos de final da Liga Europa.

Tal como o espanhol, o caso do italiano Giuseppe Iachini também é gritante devido ao curto espaço de tempo que passou entre o seu despedimento e o seu regresso. Em 2010/11, Iachini conseguiu promover o Brescia ao principal escalão do futebol italiano, mas o início de época não foi o melhor e acabou por ser ceder o lugar durante um mês e meio (de dezembro de 2010 a janeiro de 2011).

Mais recentemente, em 2016/17, o Génova, havia despedido Ivan Juric do cargo de treinador. Andrea Mandorlini rendeu o croata ainda que por pouco tempo já que dois meses depois Ivan Juric estava a ser novamente contratado. Ainda na época anterior àquela (2015/16), havia sido registado um episódio semelhante: o Palermo despediu Beppe Iachini para o contratar novamente três meses depois. A facilidade com que a direção do clube italiano despedia e contratava treinadores naquela altura revelou-se uma tática infrutífera, com os italianos a descer para a 2.ª divisão daquela liga em 2016/17, em que, aliás, ainda militam.

Além destes exemplos, pode ainda verificar-se um segundo tipo de retornados, que são os treinadores que voltam a um clube que já orientaram mas não num tão curto espaço de tempo.

Neste campo, José Mourinho é um dos exemplos principais. O português assinou pelo Chelsea em 2004 e acabou por ser despedido (pela primeira vez na carreira) pelos blues, em 2007. O Special One, alcunha pelo qual ficou conhecido, voltou a ser contratado pelo clube inglês seis anos mais tarde, em 2013, e acabou novamente despedido, em 2015. Mais recentemente há o exemplo de José Peseiro, que foi escolhido por Sousa Cintra, presidente interino do Sporting, que assumiu funções, recorde-se, na sequência do ataque à Academia de Alcochete.

Porém, Peseiro não havia de manter-se no cargo por muito tempo: depois da entrada da nova direção, presidida por Frederico Varandas, o treinador acabou despedido do clube, à semelhança do que já lhe havia acontecido em 2005.

Ainda antes, houve outro caso peculiar: o de Petit. O português conseguiu manter o Moreirense na primeira divisão na época 2016/17, mas o feito não foi suficiente para o clube segurá-lo nos comandos do emblema de Moreira de Cónegos, que voltaria a contratar o técnico na época 2017/18 – repetindo-se o mesmo cenário. Ou seja, depois de ter evitado mais uma vez a descida do Moreirense para a II Liga de futebol português, Petit deixou de novo o cargo de treinador do clube.

Para fechar, talvez o caso mais dramático. O de Manuel Machado. O português foi o primeiro treinador a ser despedido por dois clubes da primeira divisão na mesma época – em 2016/17, quando foi dispensado de Nacional e Arouca. O técnico conta ainda com duplas passagens pelo Nacional, Vitória de Guimarães e Moreirense.

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