www.publico.ptpublico@publico.pt - 17 mar 06:34

Depois do “Brexit”, o “Democrexit”?

Depois do “Brexit”, o “Democrexit”?

Pelo caos imprevisível que suscitou, o “Brexit” é um aviso para o perigo fatal do “Democrexit” – ou seja, da democracia que se dissolve, esquece e foge de si mesma.

A mais antiga democracia do mundo perdeu-se num labirinto sem fim e vem exibindo, sem parar, cenas típicas do teatro do absurdo. Mas já não se trata apenas de um problema britânico e cuja solução se encontra nas mãos dos súbditos de Sua Majestade: o “Brexit” está também a conduzir a Europa a uma situação de quase paralisia e tornou-se uma obsessão que domina todas as agendas. Para além dos inenarráveis episódios que se têm sucedido na Câmara dos Comuns (convertida em verdadeira câmara dos incomuns e virtual manicómio político), põe-se a questão de saber se o “Brexit” não se tornou um veneno fatal para a União Europeia (UE).

De qualquer modo, é já evidente que o “Brexit” poluiu de forma quase irreparável a campanha para as eleições europeias de Maio, ultrapassando (ou potenciando) os temores de uma vaga de fundo populista e eurocéptica. Além disso, caso se confirme nas votações da próxima semana em Westminster a recusa simultânea do acordo do “Brexit” e do “Brexit” sem acordo – o que implicaria a sua extensão indeterminada no tempo até um eventual acordo futuro ou um novo referendo que poderá não resolver o problema –, os eleitores britânicos serão provavelmente chamados a votar nessas eleições europeias, apesar de já se terem pronunciado a favor do “Brexit”, uma vez que o Reino Unido continuará entretanto a estar ligado à UE e não deve/pode prescindir de fazer ouvir a sua voz dentro do espaço europeu... Um cenário que ninguém anteviu e parece totalmente surreal e absurdo, mas não pode ser descartado, suscitando a incredulidade pública e o descrédito das instituições de além e aquém Mancha.

É nesta situação-limite (ou seja, entre “eu ou o caos”) que Theresa May aposta para sobreviver politicamente e ultrapassar os sucessivos e humilhantes desafios à sua autoridade, inclusivamente por membros do seu Governo. Em resumo: para evitar o prolongamento indeterminado da permanência do Reino Unido na UE, os deputados recalcitrantes poderão ver-se obrigados a aceitar o mal menor – ou seja, o “Brexit” já negociado com Bruxelas, como alternativa ao mal maior (que seria o “Brexit” sem acordo, com todas as suas consequências imprevisíveis e assustadoras, nomeadamente para a unidade da Grã-Bretanha e a paz entre as duas Irlandas). É certo que um punhado de “hard-brexiters” continua militantemente activo, mas parece duvidoso que o seu aventureirismo a la Trump – esse Trump que não se cansa de incentivá-los – acabe por impor-se ao que ainda resta de racionalidade em Westminster.

Entretanto, há males que vieram para ficar – ou para funcionar como sintoma do desconcerto da vida política britânica e europeia. De facto, nunca imaginámos que se chegaria a este ponto tão dramático (que se diria cómico se não fosse trágico), desde os tempos em que o Reino Unido se ufanava do seu estatuto (mais exactamente, nostalgia) imperial para recusar a integração no espaço comunitário europeu, passando pelos vetos do general De Gaulle a essa integração e, finalmente, até à sua sempre muito reticente e distanciada adesão à Europa – que foi, afinal, a antecâmara do “Brexit”. Mas a lição aí está: apesar de tudo é muito mais fácil entrar do que sair. E o “Brexit” veio trazer à superfície os riscos da dissolução democrática a que assistimos não só no teatro do absurdo de Westminster mas também, mais subterraneamente, através das instituições comunitárias (ou seja, de uma Europa construída como uma abstracção face à vida concreta dos seus cidadãos e estimulando as derivas eurocépticas).

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