www.publico.ptteresa.de.sousa@publico.pt - 17 mar 06:45

Não perguntem à Alemanha o que pode fazer pela Europa...

Não perguntem à Alemanha o que pode fazer pela Europa...

A Alemanha, depois da unificação, continua às volta com o seu lugar no mundo e na Europa.

1. Finda a leitura do artigo de Annegret Kramp-Karrenbauer (AKK), publicado a 10 de Março no Die Welt, com a sua resposta à Carta de Emmanuel Macron aos europeus, uma célebre frase de JFK no seu discurso inaugural vem-nos imediatamente ao espírito. Basta trocar a palavra América pela palavra Alemanha e temos um bom resumo do que exprime a sucessora de Angela Merkel na CDU e, provavelmente, na chancelaria de Berlim. “Não perguntem à Alemanha o que pode fazer pela Europa, perguntem à Europa o que pode fazer pela Alemanha.” O Presidente francês propôs um Renascimento Europeu. AKK apenas “Getting Europe right”. O que, bem vistas as coisas, não quer dizer absolutamente nada.

Macron apresenta uma ambiciosa visão para um continente ameaçado interna e externamente, que já tem pouco tempo para encontrar a forma de não se transformar num joguete das grandes potências mundiais, novas e velhas, e para esconjurar o fantasma do nacionalismo que volta a assombrá-lo. Não é preciso concordar com todas as suas ideias para perceber a diferença em relação a um texto sem qualquer particular ambição a não ser a de destacar todas as áreas da integração europeia que dão jeito à Alemanha para afirmar a sua economia e o seu estatuto, afastar todas aquelas que podem alterar o status quo europeu ou reforçar o sentido de solidariedade e de partilha entre os cidadãos europeus e acrescentar duas provocações directas ao seu principal aliado europeu, mais uma ou outra ideia tão estapafúrdia como construir um porta-aviões europeu.

2. Comecemos pela lista que justifica o nome desta crónica. AKK, que será provavelmente a próxima chanceler da Alemanha, quer mais investimento em I&D, mais cooperação na defesa e segurança, políticas comuns para as migrações. O que se compreende, para um país que, sendo embora a maior economia europeia, anda às voltas com um modelo de desenvolvimento muito pouco inovador e que começa a perceber que esse modelo pode estar em causa, num mundo em que quem marca o ritmo da inovação marca também o ritmo da economia. Quer mais defesa e segurança (embora em termos bastante vagos) porque quem lhe garantiu a sua própria segurança no pós-guerra, permitindo-lhe um desenvolvimento económico sem precedentes, parece agora estar menos disposto a continuar a fazê-lo ou, pelo menos, a exigir-lhe que pague muito mais por ele. Com um exército a romper pelas costuras e ainda uma grande incapacidade para assumir responsabilidades militares, dá-lhe jeito distribuir o fardo. Quer mais políticas europeias de imigração, porque não quer ver-se de novo na situação de 2015, que custou a Merkel e à CDU alguns votos e abriu espaço a um partido de extrema-direita.

O que não quer? Aprofundar a coesão da zona euro, de forma a torná-la menos vulnerável a qualquer nova recessão ou choque externo. AKK elenca a lista de “nãos” que já sabemos de cor. Não a qualquer forma de mutualização da dívida, não a qualquer forma de orçamento da zona erro que implique “transferências” financeiras, não ao terceiro pilar da União Bancária (garantia comum de depósitos). Mas vai mais longe, respondendo às propostas de Macron sobre a dimensão social da integração europeia, hoje fundamental para reconquistar a confiança dos europeus numa Europa que se preocupe com eles, que não os jogue uns contra os outros e que lhes garanta que não serão sempre os mesmos a pagar a factura. Isso, diz AKK, é centralismo e estatismo. Que não permitiria à Alemanha competir por via dos salários ou estabelecer um salário mínimo, que não existe a não ser a nível sectorial e porque o SPD o impôs como condição para firmar o acordo de coligação com a CDU/CSU.

Aliás, o modelo alemão continua a assentar na contenção do consumo interno e na geração de superavits orçamentais enormes, para manter a sua máquina exportadora a funcionar a todo o vapor, independentemente dos danos que possa causar a terceiros – dentro e fora da União Europeia. Sem o menor sinal de que poderá esforçar-se por corrigir um desequilíbrio macroeconómico europeu que o próprio Tratado Orçamentar obriga a corrigir. Até a China consegue ser mais compreensiva (com uma pequena “ajuda” dos EUA) quanto à necessidade de fazer a transição de um modelo que assenta nas exportações para outro que conte também com o aumento do consumo interno.

A novíssima preocupação alemã é com a dimensão das suas empresas para competirem com os gigantes americanos e chineses, ao ponto de parecer disposta a abandonar o seu precioso “ordoliberalismo” e aceitar menos concorrência e mais “campeões europeus”. Como escrevia o Berlim Policy Journal, o problema não é o número de empresas europeias nas 100 maiores do mundo, é a falta de qualquer empresa europeia nas 20 maiores, repartidas entre os gigantes tecnológicos americanos e os seus concorrentes chineses. Criar um gigante para fabricar comboios não é propriamente uma grande inovação.

3. Quais são as provocações com destino a Paris? Uma é absolutamente inútil: fechar a sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo. Até poderia fazer sentido. Apresentá-la agora sabendo que não vale de nada é apenas para dizer a Paris: “Não aborreçam.” A outra tem um significado que vai além do provocatório: a pretensão de substituir os dois lugares ou, em breve, o lugar da França (o outro é do Reino Unido) no Conselho de Segurança da ONU por um lugar da União Europeia. Para os mais ingénuos até pareceria uma ideia cheia de europeísmo. Não é, e nem sequer apenas pela razão mais óbvia: não há, como vemos todos os dias, uma Política Externa e de Segurança Comum. O que Berlim quer é um lugar permanente para a Alemanha, o que até poderia vir a acontecer no quadro de uma reforma profunda que abrisse as portas a outras potências “emergentes” que querem ter também a sua representação. Estão na lista a Índia, o Brasil ou o Japão. Mas o problema nem sequer é esse.

A França e o Reino Unido desempenham o seu papel de potências ocidentais e democráticas, ao lado dos EUA, para fazer valer a ordem internacional criada depois da Guerra. Nem sempre votam com os EUA, mas votam no essencial. Não votam certamente com a Rússia ou com a China. A Alemanha, depois da unificação, continua às volta com o seu lugar no mundo e na Europa, comportando-se mais vezes como uma potência geoeconómica do que como uma potência geopolítica, o que a leva a cair na tentação de alinhar com as “potências emergentes”. Não era certamente este o passo a dar para consolidar a política externa europeia. Como refere o Berlim Policy Journal, “nem sequer é suficientemente claro que tenhamos consciência do imenso que beneficiámos com os EUA e a União Europeia, ou que o queiramos reconhecer para tirar as devidas conclusões”. E continua: “E recusamo-nos a reconhecer que as nossas decisões – no Nord Stream II, na zona euro ou na crise dos refugiados – têm consequências (e custos) muito para além das nossas fronteiras.” Na própria Alemanha, a carta de AKK não merece grandes elogios. Falta de ambição –​ é a crítica mais comum. “Macron voltou a falar para um muro”, reconhece muita gente.

4. A Alemanha continua a manter-se fiel à opção estratégica que fez depois da unificação: “manter-se rodeada de Ocidente por todos os lados”, como dizia na altura Timothy Garton Ash ou, como se pode dizer agora, rodeada de democracias a Ocidente e a Leste, incluídas na União Europeia. O euro nasceu desta promessa. As crises democráticas nos países da Europa Central são preocupantes e Berlim procura reagir-lhes com cuidado, como se viu também na carta de AKK, que não menciona esse desafio existencial que a União enfrenta.

A crise que hoje vive o projecto de integração europeia – que já não é sobre maior ou menor integração, mas sobre como evitar a desagregação – torna indispensável e urgente debater sem complexos o que quer a Alemanha da Europa. Não nos termos, profundamente errados, do regresso ao passado, mas nos termos do presente e com as evidências do presente. Os títulos mais simpáticos falam de “hegemonia relutante”. Os mais directos dizem que a “Alemanha finge que dorme” ou “faz-se de surda”. O debate tem de ser feito, a bem da Europa e a bem da Alemanha.

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