blitz.ptblitz.pt - 17 mar 10:00

Branko voltou a casa e trouxe mundos com ele. Uma conversa sobre o novo álbum, o legado dos Buraka Som Sistema e o futuro da música lusófona

Branko voltou a casa e trouxe mundos com ele. Uma conversa sobre o novo álbum, o legado dos Buraka Som Sistema e o futuro da música lusófona

O segundo álbum em nome próprio de Branko, “Nosso”, serviu de mote para uma conversa que passou pelos tempos intensos que viveu com os Buraka, a vontade que tem de levar a música cantada em português a um público mais vasto e o homem do momento, Conan Osiris

Ao longo de dez anos, Branko foi uma das forças motrizes dos Buraka Som Sistema. Hoje, continua a fortalecer um percurso a solo que chegou recentemente ao seu segundo capítulo, "Nosso", um álbum em que junta artistas das mais variadas proveniências, canções interpretadas em quatro línguas diferentes e ambientes que trouxe das suas viagens pelo mundo e traduziu para uma linguagem muito própria. Nesta nova caixa de preciosidades, que sucede a "Atlas" (de 2015), explora um lado mais intimista que diz estar ligado à nova forma como olha para a música de dança e eletrónica.

Numa conversa que partiu das canções de "Nosso" e das colaborações que encetou com nomes como Mallu Magalhães ou Dino D'Santiago, o músico não se escusa também a falar da sua eterna musa, a cidade de Lisboa, a recuar aos tempos, vividos com intensidade, dos Buraka para falar do seu legado, a dar as boas-vindas a Conan Osiris e a verbalizar a vontade que alimenta de integrar um contingente de música de Portugal e todo o espaço lusófono que parta à conquista de novos territórios.

Aquando da edição de “Atlas”, disse-nos que um dos grandes desafios era “agarrar o meu espaço no meio musical” enquanto artista a solo. Chegado a este segundo álbum, já conseguiu perceber as delimitações desse espaço?
O meu espaço enquanto artista foi-se criando e escrevendo. Sinto que foi um processo. O “Atlas” foi criado enquanto os Buraka Som Sistema ainda estavam em atividade, com muitos concertos e um disco lançado um ano antes. Ainda estava tudo muito fresco e com uma ação bastante intensa. Para este disco, agora, pude demorar o tempo que queria e fazer as coisas como queria. E há uma grande diferença, porque o “Atlas” tinha um conceito mais fechado: cinco cidades, colaborações nestas cinco cidades e o resultado, no fundo, centra-se nessas cinco coordenadas geográficas. Para o “Nosso” não houve limite. Sabia que começava em Lisboa – vai sempre começar em Lisboa, faz parte da minha identidade enquanto artista – e depois foi para todo o lado, sem limites linguísticos, de coordenadas geográficas ou musicais. E regressa a Lisboa para terminar. Acho que esse é o meu espaço: brincar com os padrões da música que se vive e se faz em Lisboa e adaptá-los a uma série de vozes, línguas, conceitos, destinos, etc.

Neste “Nosso”, parece querer saltar do que ouvimos nas pistas de dança para o que escutamos no conforto do nosso quarto. É assim que sente este disco? É um disco mais íntimo?
Sim, acho que é um disco que vem mais de dentro. Como consegui ter um espaço de respiração maior, os meus gostos mudaram, também. O dia-a-dia muda, os gostos mudam. Como o espaço temporal é ocupado por outras coisas, isso traz-te outras influências e perspetivas. E a forma como se ouve música hoje também acaba por ser uma influência muito direta na forma como a crio. Não acho, necessariamente, que isto seja uma coisa boa, não estou propriamente orgulhoso disto, de que o formato influencie a criação, mas, a meu ver, é inevitável. Se estivesse a fazer música para 12 polegadas, de dança, fazia temas de seis, sete minutos, com uma evolução muito mais prolongada e tudo e mais alguma coisa, mas não estou. E como hoje em dia a música é ouvida e consumida nos motores de streaming, Spotify, Apple Music, etc, isso também me influenciou. Também ouço música nesses meios. Nesse sentido, o “Nosso” é quase uma playlist e penso que o que junta todas as músicas é o facto de assentarem num padrão que, de alguma forma, encaixa nesta ideia de lusofonia, de música em português, com o epicentro em Lisboa, mas que depois vai à procura de outras coordenadas do hemisfério norte e do hemisfério sul para se completar, continuar a viajar e tentar, de alguma forma, criar alguma coisa nova.

Foi essa maior intimidade que deu origem ao título?
O “Nosso” bate certo com duas ideias diferentes. A colaboração está no centro do disco, daí é “nosso”… Sinto que passa tanto por outras pessoas como por mim e quase me sentia mal a dizer que é o “meu” disco. O nome foi um bocadinho um subterfúgio para o coletivizar de alguma forma. E, ao mesmo tempo, também é o nosso som, em que já andamos a trabalhar há algum tempo. Esta perspetiva musical, do que se vive em Lisboa e do que se passa em Lisboa, socialmente, aplicada a música… É o nosso som. Há 12 anos, 13 anos, que andamos a batalhar com ele.

E como surgiram todas estas colaborações? Foi uma questão de oportunidade, como aconteceu no disco anterior, ou já havia uma vontade construída ao longo do tempo de trabalhar com Mallu Magalhães, Dino D’Santiago ou Sango?
As colaborações surgem de todas e quaisquer formas. Muito através de pesquisa mas também pessoas com quem já queria trabalhar… Não necessariamente porque fizeram algo que também quero fazer, mas por ter ouvido uma voz ou um instrumento, o que quer que seja, e querer captar isso de alguma forma numa música minha. Muitas vezes, acabo por retirar as pessoas dos seus meios, dos seus elementos, da sua praia, por assim dizer, e isso é interessante. Acho que existe um certo “geek-ismo” de ir em busca de vozes ou personagens que chamem à atenção, pessoas que tenham cenas fortes e com uma narrativa interessante em termos de história, de percurso, de tudo, e tentar colar todas essas vozes num disco. Tenho muito mais colaborações com produtores neste disco, o que é interessante porque é uma relativa novidade para mim. O disco foi muito feito em conjunto com o PEDRO, outro artista da Enchufada, que, principalmente na fase final do disco, quando já tinha todo o material, esteve muito comigo a fechar os temas. Foi um disco que disparou para uma coletividade de pessoas enorme.

Penso que essa questão de puxar os artistas para fora do seu ambiente natural se sente aqui, principalmente, com Mallu… A recetividade dos artistas é, no geral, boa quando tenta puxá-los para fora de pé?
Pegando no caso específico da Mallu… Inevitavelmente, os encontros têm várias fases e no primeiro encontro quis ouvir o que ela tinha para dizer, para cantar, o que fazia sentido, na cabeça dela, para uma colaboração comigo. Depois, tento ir um bocadinho atrás disso. Mas, também tento que o meu “eu” não seja o “eu” previsível de há dois anos, mas um “eu” do futuro. E isso, às vezes, pode não ser a coisa mais óbvia para a pessoa que colabora comigo, que se calhar achou que era boa ideia fazer alguma coisa comigo porque ouviu algo meu de há três anos. Acho que, acima de tudo, é um desafio porque as pessoas vão sempre ter de gostar. Nada disto não é aprovado pelos artistas, por todas as pessoas em todas as fases do processo, portanto orgulho-me desse desvio que, às vezes, faço pelas pessoas. Sinto que sou aquele amigo que te leva por uma estrada nacional, apesar de teres de percorrer mais 50 km do que se fosses pela autoestrada, porque sabe que vai passar por um pôr-do-sol espetacular às seis da tarde. É um bocadinho por aí a ideia, acho eu.

Pegando um pouco nessa ideia, ‘Reserva Pra Dois’, com Mayra Andrade, que acabou por ser incluído apenas na expansão de “Atlas”, parece-me um interlúdio entre os dois álbuns…
Sem dúvida. O resultado atingido aí, com aquele cruzamento musical, é, sem dúvida, algo que fui muito à procura neste “Nosso”. Aquele formato, ou seja, a equação, a quantidade de canç��o com a quantidade do quão tocável numa pista de dança pode ser… ou quanto é que se relaciona com a forma como vejo a pista de dança hoje em dia, esse equilíbrio, para mim, estava muito bem conseguido e é, sem dúvida, uma coisa de que eu fui atrás no “Nosso”.

E esta colaboração com Dino D’Santiago foi algo que foram maturando ao longo do tempo ou surgiu naturalmente?
Nós já nos conhecíamos. Nunca tínhamos estado propriamente em estúdio e foi quando ele estava a fechar o disco dele, “Mundu Nôbu”, que acabámos por nos cruzar, por culpa do Kalaf. Quando nos sentámos em estúdio, ao fim de cinco minutos ele já tinha o refrão do ‘Nova Lisboa’ e eu já tinha selecionado o instrumental… Portanto, em 15 minutos ele ficou super resolvido e tínhamos de continuar a trabalhar. A música não ficou necessariamente fechada, mas foi um processo muito rápido. Quando há esse tipo de clique, não o podes ignorar. E, a meu ver, o Dino representa uma voz muito relevante na música e no ambiente social que se vive em Portugal. É uma relação que prezo muito, que quero sempre manter, e quero continuar a trabalhar com ele porque funcionamos muito bem. Ao mesmo tempo, sinto que há uma evolução na forma como vejo a música eletrónica e a pista de dança e o Dino também encaixa aí de forma muito interessante. A música eletrónica tem de evoluir, e evoluiu nestes últimos tempos, para fora do universo entre as duas e as seis da manhã, com um copo de vodka laranja na mão. Neste momento, é tanto um meio cultural quanto outra coisa qualquer. É tão acessível para qualquer pessoa criar que a história de muitas cidades está a ser contada através da música eletrónica. Interessou-me muito explorar esse borbulhar no “Nosso” e fez todo o sentido ir buscar o que o Dino representa pondo-o numa canção de dança, de música eletrónica, que não é necessariamente para ser tocada às quatro da manhã num clube, mas que também pode ser tocada às seis e meia da tarde noutro sítio qualquer ou até num concerto num teatro. Reequacionar completamente a música de dança é, sem dúvida, uma das coisas que tentei fazer com o “Nosso”.

Ao longo de todos estes anos, nunca sentiu a tentação de colocar a sua voz na sua música?
Obviamente, há alturas em que estamos neste processo de trabalho de colaboração e dá vontade de começar a gravar ideias. Pensamos “e por que não?”. Mas, ao mesmo tempo, sinto que se a música não tivesse avançado para o ponto em que está hoje dificilmente seria músico ou artista. Seria muito mais facilmente apenas produtor a trabalhar com outras pessoas. Para mim, só faz sentido ser artista e, ao mesmo tempo, ter a editora e todas estas coisas se o encarar como um grande bolo… O eu artista não tem de ganhar em todos os momentos. O eu que produz para a M.I.A. é tão importante na minha equação de criação e universo musical como o eu artista. O que aconteceu foi que, de repente, pessoas que não era suposto serem artistas viraram artistas e agora têm de levar connosco. Nesse sentido, sinto-me tão pouco artista que nunca tive muito essa ideia de agarrar num microfone e cantar. Houve algumas experiências num projeto muito antigo que tive com o Kalaf, 1-UIK Project. Cheguei a brincar com uns falsetes e a gravar uns refrões, mas era fruto da inocência, do início de tudo. Hoje, sinto que há tanta gente com tão mais para dizer que o melhor é criar uma plataforma para isso acontecer e não ocupar espaço.

Voltando ao disco e ao facto de gostar de explorar outras coordenadas geográficas na música… Como encara o fenómeno Conan Osiris?
Os artistas que conseguem fazer aquilo que ele faz mudam coisas, sem dúvida. Mudam o curso da história, de alguma forma. Eu, acima de tudo, acho o Conan Osiris um produtor de música excelente. Desde os primeiros trabalhos dele, em que nem sequer cantava ainda, que senti uma sensibilidade para a produção que me fez ficar a tentar perceber quais os plug-ins que ele utilizava e coisas assim mais de um lado técnico. A quantidade de ambientes que ele mistura na mesma música e aquilo continua a fazer sentido… Só aí, a minha cabeça já tinha explodido. Quando ele começa a cantar e a explorar a voz, acho que tive, como todas as pessoas, de passar por um processo de digestão, mas é inevitável dizer que o trabalho dele é incrível. É um trabalho não só incrível como importante. Tem de ser falado e discutido. Portanto, bem-vindo Conan Osiris.

Como vê o modo como a indústria musical se foi alterando nos últimos anos? Quais são, quanto a si, os problemas mais difíceis de solucionar?
Eu acho que a música está cada vez mais democrática e isso gera uma série de diferenças relativamente ao passado. Focando-me mais, se calhar, nas partes positivas do que nas negativas, porque na minha opinião o progresso tem sido mais positivo, esta democratização criou uma série de novos centros musicais. Quando se lança música de cidades como a Cidade do México ou São Paulo, ou o que seja, de repente ela chega ao mundo todo e faz parte de tabelas globais. De repente, deixou de ser possível as editoras controlarem o que tem realmente impacto no mundo porque as pessoas fazem plays no YouTube, no Spotify, em todas essas plataformas... Isso é mesmo uma mudança grande em termos de paradigma. Pensando noutros lados positivos da coisa, relacionados com aquilo que é a minha música, enquanto artista acabamos por ficar com uma panóplia maior de músicas por fazer e de ideias por criar. Por exemplo, no “Nosso”, acabo por ter quatro línguas misturadas num só disco, o que, também, obviamente, é reflexo desta evolução, desta democratização e, quase, do fim do domínio anglo-saxónico da música.

E as saudades de saltar para os palcos com os Buraka Som Sistema já começam a fazer-se sentir?
Sim, completamente. A experiência de palco de Buraka era super bonita, mas acho que aqueles dez anos de banda foram super intensos e, então, soube muito bem ter mais tempo, ter fins de semana, outra disponibilidade para uma série de coisas… Claro que, obviamente, fica um bocadinho aquela saudade de chegar ao palco e ouvir o Andro [Conductor] mandar um grito e toda a gente responder. Desse tipo de pormenores, uma pessoa sente falta. Aquilo que é importante, neste momento, aquilo em que estamos todos focados em termos de Buraka, é organizar o espólio, trazer os discos para a Enchufada, centralizar as coisas para garantirmos que os discos, os vídeos, os documentários, tudo aquilo, se mantenha disponível para as pessoas ouvirem daqui a 20, 30, 40 anos. E que continue a ser controlado por nós, porque, no fundo, sempre foi uma aventura super independente, que teve outras aventuras pelo meio mas que agora faz mesmo sentido ficar tudo aqui em casa.

Quando falámos sobre “Atlas”, o fim dos Buraka estava ainda muito presente, mas disse uma coisa interessante, que depois de anunciarem o fim surgiram pessoas com “opiniões honestas” sobre a banda. Qual é a sua opinião honesta agora, olhando à distância, sobre o percurso dos Buraka?
É sempre complicado ter uma opinião estando dentro do percurso e os Buraka Som Sistema sempre foram um bocadinho uma força da natureza que não veio com manual de instruções nem plano de negócio, então não havia propriamente uma ideia muito concreta de onde queríamos chegar. Sabíamos a música que estávamos a fazer, o que representávamos e qual era o nosso statement, isso estava tudo certo, mas foi interessante criar esta objetividade e um certo distanciamento para perceber que, naqueles dez anos de atividade, havia muitos outros planos a serem postos em marcha por outras pessoas que se conectavam com aquilo que nós tocámos e uma realidade que podemos ter apresentado a uma série de gente em Portugal e noutros países. Obviamente, neste caso, o que me interessa está mais focado nos países que falam a língua portuguesa. Éramos um grupo com várias nacionalidades, várias posturas e formas de estar na vida e na música, e essa diversidade e valorização é muito forte, algo que acredito que vai ficar para o futuro. Neste momento, um produtor de afro-house se calhar está sentado no quarto e acha que consegue chegar longe devido a coisas como o trajeto que os Buraka Som Sistema conseguiram traçar. Ter criado essa ambição por parte das novas gerações musicais é, sem dúvida, um legado importante e uma coisa bonita.

O que quer da música hoje?
Acho que o que quero da música hoje é construir e fazer parte de uma espécie de contingente de música de Portugal e de todo este espaço lusófono porque, a meu ver, existe um futuro muito grande em termos de evolução e partilha de cultura até chegarmos ao ponto em que conseguimos estar todos a criar da mesma forma e uns para os outros. E, assim, existir um diálogo muito mais interessante, com um mercado muito maior do que o que existe neste momento em Portugal e nos outros países, também. Essa aglutinação, para mim, é super interessante e é o que tento fazer com os discos, com as bases das músicas, os instrumentais, com tudo aquilo que faço. Acho que daqui a dez anos, talvez, esta cena da música dos países que falam a língua portuguesa pode ser tão forte como, por exemplo, a cena musical latina na qual hoje em dia tens artistas a chegarem muito longe… Há toda uma organização de indústria e de capacidade de penetração no mundo que é super interessante e, portanto, tenho esse sonho e é isso que estou a tentar construir. No fundo, o objetivo sempre foi fazer parte de uma cena que é mais do que eu, mais do que os artistas que estão à minha volta, uma cena muito maior. Acho muito bonita a ideia de tanto estar em São Paulo como na Cidade da Praia e conseguir falar dos mesmos artistas da mesma forma. Isso é das experiências mais fortes que tenho, em termos de troca de cultura, e acho que foi sempre esse o objetivo: estar nesses sítios, existir nesses sítios e conseguir ser relevante nesses sítios todos, de forma a escrever uma página conjunta, mais interessante, e ter uma voz no mundo um bocadinho mais forte.

5
1