www.publico.ptacorreia@publico.pt - 16 mar 06:39

O “Brexit” e o reino do desacordo

O “Brexit” e o reino do desacordo

Há tanto de comédia neste enredo como num programa da série Yes Minister>/i>.

O Parlamento do Reino Unido nem aprova o acordo de saída negociado entre o Governo e a UE, nem aceita uma saída sem acordo. Theresa May vai submeter o mesmo plano, pela terceira vez consecutiva, na próxima semana, que se agora for aprovado poderá dar lugar a um prolongamento do calendário do “Brexit”, de modo a que os restantes líderes europeus se possam pronunciar em Bruxelas nos dias seguintes.

O calendário complica-se e o cenário de um prolongamento para lá das eleições europeias não é uma possibilidade meramente teórica, num Parlamento tão dividido e num Partido Conservador fortemente desunido. A fragmentação irresolúvel está bem exposta quando até Stephen Barclay, o chamado “ministro do ‘Brexit’”, contraria com o seu voto a estratégia de Theresa May.

Aqui chegados, May deixou de fazer parte da solução, para se tornar o principal problema. A primeira-ministra do Reino Unido tem tanto de tenacidade, certamente uma das suas principais qualidades, como de incapacidade para gerir o seu partido, o seu Governo e o próprio processo de saída.

May emaranhou-se de tal forma num processo complexo e fracturante, impotente para obter avanços significativos, com o desespero de quem tem diante de si uma ampulheta que se esvazia velozmente. Neste rolo compressor, a primeira-ministra acabou por se desacreditar quer no Reino Unido, quer na UE, forçada a um role play inglório que herdou de um David Cameron absolutamente incauto. A pontualidade britânica a propósito do “Brexit” envergonha o Big Ben.

May está cada vez mais fragilizada para conduzir novas negociações e o mais provável é que Bruxelas deseje outro interlocutor que, definitivamente, desbloqueie o imbróglio. Bruxelas não se questiona apenas sobre as razões do adiamento, como também se interroga sobre quem é que afinal poderá conduzir o “Brexit”.

Se não conseguir a unanimidade do partido, e como não está disposta a negociar com os trabalhistas, e muito menos a aceitar um segundo referendo, May não chegará ao desfecho que pretende. Bem vistas as coisas, a primeira-ministra tem tanta legitimidade política para forçar a aprovação do seu plano pela terceira vez, como para convocar um referendo pela segunda. É mais plausível que May entre na história como a primeira-ministra que não conseguiu retirar o Reino Unido da UE do que por uma saída bem sucedida. Há tanto de comédia neste enredo como num programa da série Yes, Minister.

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