www.dinheirovivo.ptAlberto Castro - 16 mar 10:02

Dar o exemplo

Dar o exemplo

Há uma medida, muitas vezes anunciada, e outras tantas não cumprida, que o Estado deve tomar: saldar rapidamente as dívidas das entidades públicas

O que tem de ser tem muita força. Aquando da discussão do orçamento para 2019, os sinais eram já evidentes. Ou assim pareciam, ao comum dos economistas. Agora, não obstante a euforia dos mercados bolsistas, as nuvens adensaram-se ao ponto de até Mário Centeno ter reconhecido que o crescimento ficará bastante abaixo do previsto. E não só previsões: na indústria têxtil e do vestuário, por razões que vão da dependência excessiva de um único cliente (o grupo Inditex/Zara), à concorrência de países como Marrocos, Argélia ou a Turquia, há empresas a despedir ou, até, a fechar. Como de costume, já se ouvem clamores a pedir apoios do Estado. A realidade, contudo, não é linear: ao mesmo tempo que isto acontece, há empresários de Baião, por exemplo, que desesperam pela falta de mão-de-obra e clamam maior celeridade nos vistos para trabalhadores estrangeiros.

Este contexto pede, mais uma vez, políticas menos ortodoxas. Mais do que o apoio a empresários incapazes de evoluir, que só se lembram de Santa Bárbara quando troveja, valerá a pena desenhar incentivos à mobilidade interna dos trabalhadores: os problemas de desemprego que possa haver são, para já, localizados, havendo oportunidades de emprego, na mesma Região, que não requerem uma formação adicional complexa.

Para além do aumento do investimento público há uma outra medida, muitas vezes anunciada, e outras tantas não cumprida, que o Estado deve tomar: saldar o mais rapidamente possível as dívidas de empresas e organismos públicos. Os atrasos nos pagamentos, nomeadamente na área da saúde, são inaceitáveis. As despesas já estarão contabilizadas. Falta a regularização. Como demonstrado num estudo da Associação Cristã de Empresários e Gestores, esse simples facto teria um impacto quantitativo no PIB significativo e, tão ou mais importante, daria, pelo exemplo, uma legitimidade ao setor público que, assim, não tem. Talvez seja necessário criar um instrumento financeiro apropriado. Nada que não tenha sido já feito, no caso, na vizinha Espanha. Assim haja vontade!

Alberto Castro, economista, professor universitário

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