expresso.ptexpresso.pt - 16 mar 23:00

A duas vozes

A duas vozes

Renée Nader Messora e João Salaviza improvisam com uma comunidade de índios krahô uma etnoficção que nunca se deixa hipnotizar pelo exotismo do mundo que retrata

O título contém um termo que lança luz sobre o seu método de composição. “Cantoria” refere uma arte brasileira que assenta no canto improvisado a duas vozes, e é isso — mutatis mutandis — o que aqui descobrimos: um exercício de improvisação que combina organicamente dois modos de olhar (o do documentário e o da ficção, o do ‘primitivo’ e o do ‘civilizado’...), para nos convidar a mergulhar num território que nos é estranho. A saber: o de uma aldeia do norte do Brasil (a de Pedra Branca) que é habitada por uma comunidade de índios krahô. A nossa chegada a esse universo faz-se por via de uma sequência que parece trair o fascínio naïf daqueles que filmam em relação àqueles que são filmados. Nela, o que temos? Uma câmara que se esconde por trás da espessa vegetação de uma floresta, para seguir os passos de um jovem krahô que, de noite, se desloca até uma cascata para comunicar com o espírito do seu defunto pai — manifestado através de uma voz desencarnada que, de além-tumba, lhe pede que conclua os rituais fúnebres relativos à sua morte. Esta sequência inicial (reminiscente do cinema de Apichatpong) deixa-nos de pé atrás, pela forma como cava uma ‘distância embevecida’ entre a câmara e o seu objeto: um universo que se prepara — pensámos nós, então — para ser sacralizado em vinhetas exóticas.

Estamos perante uma primeira sensação que cedo se esfuma. Desde logo, porque as cenas seguintes fazem questão de reduzir esse efeito de estranhamento, infiltrando-se no quotidiano de uma aldeia que se encontra já ‘contaminada’ pela cultura dos brancos (veja-se a cena em que duas mulheres trocam impressões sobre um verniz para as unhas). A ficção folclórica é, assim, neutralizada por um olhar documental — e vice-versa. De facto, não será preciso esperar muito para entender que o filme também não acalenta dúvidas acerca da impossibilidade de captar objetivamente um mundo que, à partida, é alterado pela presença da câmara. Cientes disso, Messora e Salaviza cuidarão de encarar os corpos, não como objetos de documentário, não como sujeitos de ficção, mas como personagens de uma docuficção etnográfica que — como as de Rouch — as projeta como réplicas de si mesmas, isto é: como figuras que se representam e transfiguram a si próprias para a câmara.

É nesse jogo entre o real e o imaginário que se articula a história do filme: a de um jovem krahô (aquele que no início conhecemos) que, ao perceber que está em vias de se tornar num xamã, abandona a aldeia, refugiando-se num centro de apoio aos índios, situado na cidade mais próxima. Trata-se de um espaço que lhe é tão estranho (apesar da sua aparente familiaridade com os jogos de consola) como o de Pedra Branca o é para os habitantes locais, que não compreendem a sua relutância em regressar à aldeia. Os sucessivos desentendimentos entre o rapaz e os brancos permitem que os cineastas abracem plenamente o ponto de vista da cultura que retratam, estendendo o efeito de estranhamento à maneira como o protagonista olha para ‘os seus outros’. Dir-se-á, talvez, que esse gesto de relativização tem uma consequência política indesejada: a de nos fazer perder de vista a relação de forças — bastante dissimétrica — entre os nativos e os colonos (à exceção de uma breve referência ao massacre dos krahôs pelos fazendeiros, o filme nunca alude explicitamente à opressão dos índios). Certo. Mas este filme não veio ao mundo para nos dar lições de história, antes, para preservar a memória viva de uma cultura que — sabemo-lo — se encontra em risco de extinção. Como gesto político não nos parece nada mal.

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