www.publico.ptopiniao@publico.pt - 15 mar 06:00

Óptimo mas NEP

Óptimo mas NEP

O preço desta perícia é um castigo permanente: havemos de morrer sem ter comido um único bacalhau perfeito. Esta frustração está-nos garantida.

O que define um português é ter comido bacalhau tantas vezes que é sempre capaz de se lembrar dum bacalhau melhor. E, mesmo quando não se lembra dum bacalhau melhor, porque nunca comeu melhor, é capaz de achar que aquele bacalhau é excelente - mas podia ser melhor ainda. Sim, é muito bom, mas não é perfeito: Sim mas NEP.

Comemos tanto bacalhau que tornámo-nos capazes de imaginar o que seria a perfeição numa posta de bacalhau. Essa perfeição decerto reúne qualidades contraditórias, impossíveis de conjugar, mas não é por uma coisa ser impossível que a nossa imaginação deixa de funcionar.

Isto já não acontece com as sardinhas, por exemplo. As sardinhas não têm NEP. Com um bocado de sorte comemos uma sardinha perfeita (as outras nunca estão tão boas) todos os anos.

O bacalhau é uma comida rebuscada. Quanto era comida de pobre escondia a perversidade - podíamos fingir que só a necessidade nos levava a comer aquilo. Agora que é caro temos de admitir que não, que é por amor.

Também a pessoa que nos serve o bacalhau sabe que NEP, por muito bom e raro que seja. Já perguntei aos melhores: reconhecem que NEP. Esta cumplicidade sabe-nos bem.

Já as coisas que fazemos com bacalhau, desde os pastéis e as pataniscas ao bacalhau com natas, podem atingir a perfeição. É a posta grelhada - e até a cozida, se formos sinceros - que consegue ser imensamente deliciosa...mas NEP.

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