www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 15 mar 03:06

As piscinas

As piscinas

Os miúdos são bastante mais maduros do que alguns pais: felicitam-se sempre uns aos outros, prometem que ganharão na próxima, numa rivalidade sã. São amigos no Instagram e até jogam Fortnite juntos. - Opinião , Sábado.

A piscina dele

Pouca gente conhece o pai daquele miúdo, para além dos que têm filhos no mesmo colégio. Ele não aparece de todo em muitas provas, ficando a trabalhar ou a fazer trabalhos de casa com os mais novos. E, quando aparece, pouco tempo está na piscina – apenas o necessário para ver o primogénito nadar. Raramente filma e não usa cronómetro. Quando a prova termina (caso a tenha visto), levanta o braço com o polegar para cima, independentemente do resultado. O filho, por vezes, devolve o cumprimento, mas nem sempre o procura na bancada, porque não conta com ele.

Naqueles dois dias, ele vencera as quatro provas dos 100m, duas por um centésimo e outra por pouco mais. Adeptos indignados, numa delas, teimavam que o rapaz de um determinado clube tinha chegado antes. Era tudo uma questão de braços ou, no limite, de erros de paralaxe, dependendo da diferença de ângulo entre as bancadas e os árbitros. Era irrelevante. O ponto é que a indignação era visível e as piadas sobre favorecimento ou o possível tamanho das unhas eram constantes, como se de uma final olímpica se tratasse. Atrás deles estava um tipo mal vestido, com umas calças de ganga velhas que já decidiu que irão para o lixo no início da primavera. Tinha assistido à prova sem assobiar nem gritar, pelo que pôde assistir a todos aqueles excessos no que deveria ser uma oportunidade de ver os filhos crescer. E pôs-se a pensar que, de facto, nunca se pode falar sem saber quem está à nossa volta: pode ser mesmo o pai da criança.

Os miúdos são bastante mais maduros do que alguns pais: felicitam-se sempre uns aos outros, prometem que ganharão na próxima, numa rivalidade sã. São amigos no Instagram e até jogam Fortnite juntos. Quinze dias depois, o mesmo nadador, em provas mais longas, perdeu para os que tinha vencido antes. Os miúdos mantiveram o mesmo fair play. Espero que os adeptos dos clubes (ou mesmo alguns pais) não os estraguem.

A minha piscina

É dos pouco casos em que sou só eu e ela. Nada mais existe à nossa volta, a não ser essa vontade de estar ali, de me entregar e, ao mesmo tempo, resistir para que não me leve. É a minha fragilidade, mas, ao mesmo tempo, uma atração de que não me consigo afastar.

A minha relação com a água sempre foi assim: esse amor com o qual sei lidar mal, para o qual me atiro depressa, mas que sempre me vai avisando de que preciso de tempo, porque nadar, para mim, é mais difícil do que parece.

Na verdade, até aos 43 anos, só sabia andar à tona de água, dizendo com excessivo otimismo que sabia "nadar crol". Mas a verdade é que, por essa altura, quando já era evidente que não me levariam pela mão a descobrir como fazer-me à piscina, pedi ajuda profissional e, desde então, só posso concluir que nunca soube, nem nunca saberei, nadar como gostaria. Mas queria ver se não era mais um nome a acrescentar ao refrão de uma música que, nos anos 90, os Black Company asseguraram que não nos sairia do ouvido.

"O próximo pode ser sobre piscinas" – foi a sugestão que levou a esta crónica. Não espero que me facilitem a vida…

(Nota sobre a crónica anterior: "roubei" inadvertidamente cinco anos à minha maturidade ao indicar o ano da conversa vocacional como sendo 1995 – foi 1990)

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