visao.sapo.ptMiguel Araújo - 15 mar 08:09

It’s Getting Better All The Time

It’s Getting Better All The Time

Estou convencido de que não vão ser os meus filhos a dar cabo disto tudo. Vão ser eles que vão livrar- -nos do plástico, do açúcar e da farinha geneticamente manipulada

A todas as gerações é passada a ideia de que será essa a geração que vai dar cabo disto tudo. Neste nosso mundo em que as coisas vão melhorando sempre, em que o Bem acaba sempre por furar por entre a entropia que já deveria ter dado cabo disto tudo há muito tempo, nesta nossa caminhada humana de resiliência conjunta em que as coisas vão melhorando sempre, corrigindo-se, ajustando-se, regenerando-se ante a generosidade infinita da Vida, há sempre esse mantra, esse estribilho, esse zunzum implícito de que é tudo uma desgraça e que vai tudo rebentar nas mãos de qualquer que seja a geração que agora herda tamanha calamidade, a geração cuja mão se prepara para segurar tão espinhoso testemunho. Há dados concretos, há artigos a sair naquelas revistas estrangeiras que de tão estrangeiras e tão revistas uma pessoa acredita, a vida melhora sempre. Mas esse refrão teima em não colar ao ouvido. Vive-se melhor hoje do que se vivia ontem, a nossa experiência humana neste carrossel sem rumo aparente vai sendo cada vez mais facilitada, seja para tirar um dente, seja pela água da torneira ou pelas viagens de avião de longo curso. Ainda ontem descemos dum galho, se olharmos rapidamente por trás do ombro ainda ouvimos os nossos grunhidos neandertais e olha para nós aqui prontos para andar num carro que se guia sozinho. Só no Porto, por exemplo: as minhas memórias de infância remetem para um tempo menos inocente, menos telúrico. Há trinta anos, eu era alimentado a Chocapic com leite gordo, douradinhos da Iglo, pizzas Findus, caldos Knorr, comam que aí é que está a vitamina, o peixe do mar sabe-se lá onde andou, pode estar estragado, os ovos podem ter estado ao sol, damos-lhes antes delícias do mar e salsichas, antibióticos por tudo e por nada. O mar de Matosinhos era avermelhado por causa das descargas do matadouro municipal. Não convinha namorar porque podia-se apanhar sida com um beijo na boca, o Reagan e o Gorbachev tinham cada um o seu botão que podia rebentar com isto tudo ao mínimo amuo. Não é de nada disto que os meus filhos se vão lembrar, graças a Deus. Moramos no mesmo sítio onde eu morava com 10 anos e se nos fôssemos fiar na cronologia geracional que se convencionou, as memórias de infância dos meus filhos, com mergulhos num mar de bandeira azul oito meses por ano, seriam impossíveis, teriam de ser as memórias dos meus avós. Em 1826, o meu trisavô abriu uma papelaria no Largo de S. Domingos, na Baixa do Porto (ainda hoje existe). Na altura, onde hoje fica a Rua Mouzinho da Silveira passava um rio, o Rio da Vila, que desaguava na Ribeira. O rio acabou por ser encanado 50 anos mais tarde, com a inauguração dessa rua. Teve de ser tapado tal a pestilência do esgoto a céu aberto, de lixeira vária e cadáveres de animais em putrefação. Eu prefiro passear pela Baixa lamentando a abertura de uma loja gourmet no lugar duma loja antiga de pregos do que ter de me desviar dum abutre. E estou convencido de que não vão ser os meus filhos a dar cabo disto tudo. Vão ser eles que vão livrar-nos do plástico, do açúcar e da farinha geneticamente manipulada em tudo quanto há à venda nos supermercados, do fedor a gasolina queimada e por aí fora, até que o estribilho, o mantra, seja o do Imagine do John Lennon. Eu faço por substituir o mantra em vigor pelo mais maravilhoso dos estribilhos, o do poeta Daniel Faria. Não nos é dado conhecer o rumo deste carrossel desenfreado que é a vida, mas podemos sempre repetir este estribilho até à exaustão: “Seja o que for / Será bom. / É tudo.

(Crónica publicada na VISÃO 1357 de 7 de março)

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