visao.sapo.ptAntónio Lobo Antunes - 15 mar 08:10

Mãe

Mãe

Só havia duas cadeiras de braços, a dele e a da mãe, e enfrentei uma das coisas mais difíceis da minha vida, ocupar a cadeira que agora me cabia por direito: o mundo tornava-se tão diferente visto dali, custou-me tanto. Acho que me tornei parecido com ele nesse lugar, eu que pensava quase nada termos em comum. Mas nasci do meu pai, sou fruto do seu sémen

Ilustração: Susa Monteiro

A minha mãe foi-se embora aos oitenta e nove anos. O corpo vinha-a atraiçoando cada vez mais, era difícil mover-se, só tinha visão periférica ou seja éramos vultos vagos mas que ela distinguia logo, estava muito pequenina e frágil fisicamente porém a sua cabeça mantinha-se intacta e a sua lucidez absoluta. Conservava também o sorriso de sempre e os tristes restos do seu rosto outrora lindo. E continuava dura como o ferro, sem uma queixa, na admirável dignidade que desde o meu início lhe conheci, feita de coragem, bom senso, sentido de humor, modéstia e uma paixão total pela família. Engravidou oito vezes, seis das barrigas chegaram ao fim. Às vezes dizia

– Desafio qualquer mulher a ter filhos tão inteligentes e bonitos como os meus

e o que de bom podemos ter devemo-lo, em grande parte, a ela, à sua vigilância intransigente, ao seu cuidado constante. A relação com o marido era modelar. Quando o pai morreu vi-lhe uma única lágrima, que não caía, aumentando-lhe os olhos verdes. Pediu a um dos filhos que a levasse à igreja onde o pai estava, inclinou-se para o caixão, beijou-o de leve na boca

(foi a única vez que vi os meus pais beijarem-se na boca)

e voltou para casa. Acho que o caixão ficou cheio e o pai partiu com ele. Nunca lhe escutei um lamento, uma queixa. Continuou na casa grande sozinha, continuámos os jantares das quintas feiras com ela, difíceis para mim porque da primeira vez que jantámos depois da partida do pai cheguei mais tarde, já estavam todos à mesa e o lugar do pai, vazio, à minha espera. . Uma ocasião cheguei mais cedo, a mãe ainda estava sozinha na sua sala, sentei-me à sua frente, disse-lhe

– Esta casa parece vazia sem o pai

e depois de um silêncio ela respondeu

– É que ele tinha uma presença muito forte

e era verdade, tinha uma presença muito forte. Depois alguns anos passaram. A mãe estava agora com oitenta e nove anos. Era Natal e íamos comer a sua casa, como sempre. Faltava o Pedro, que se sentiu mal desde a manhã e que levaram ao hospital. Eu esperava que ele aparecesse para jantar mais logo. A mãe decidiu que principiássemos a comer porque se tornava tarde para os seus netos, e tínhamos começado quando o telefone do João tocou. Não liguei muito porque o João recebia às vezes chamadas de doentes e, se era importante, levantava-se e ia falar para o jardim. Dessa vez, no jantar de Natal, levantou-se também mas ficou quieto a ouvir. Não reparei muito mas pareceu-me que a sua cara mudou. Ele costumava dizer-me

– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar

e era verdade. O João desligou o telefone e continuou de pé. Em silêncio. A pouco e pouco, quase um a um, os manos deixaram de comer. O João estava muito direito e as mãos tremiam-lhe. Voltou-se para mim e disse baixinho

– O Pedro morreu

e decidimos continuar a comer, distribuímos os presentes e dizer à mãe apenas no dia seguinte. Assim fizemos, num sofrimento muito grande

(o meu grande amigo José Cardoso Pires, uma ocasião depois de nos ver juntos disse-me
– Vocês têm uma relação muito forte)

e é verdade, Zé, temos uma relação muito forte. Foi um jantar terrível, a disfarçarmos o melhor que podíamos, a entrega dos presentes dolorosa e depois saímos para o hospital ao encontro do Pedro. Vim de lá porque o Nuno me trouxe abraçado

– Anda meu Bébé, anda meu Bébé

e, de manhã, juntámo-nos à entrada da casa, cá fora, para ir falar com a mãe. Lembro-me do sol frio, das nossas caras fechadas. Fomos chegando em silêncio. Quando estávamos todos tocámos à campainha. A mãe achava-se sentada na sua sala, na sua cadeira, e mostrou-se naturalmente espantada de nos ver a todos entrar assim e agruparmo-nos à sua frente. Um de nós, não me recordo qual, tanto faz, disse

– Mãe o Pedro morreu

e a sua cara permaneceu igual. Murmurou apenas duas frases: a primeira

– Tenham piedade de mim

que continua a ecoar-me cá dentro, terrível. Depois veio a segunda

– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto

sem lágrimas, sem mudar de expressão, numa voz quebrada pela dor, com a infinita dignidade com que viveu. Corrido muito pouco tempo telefonaram-me para dizer que a mãe estava muito mal. Depois uma nova chamada a anunciar-me que a mãe tinha morrido. E eu já sabia porque ela tinha dito. Nós, os seus filhos, levámos o caixão aos ombros. Claro que me passou, nos passou a todos, muita coisa pela cabeça mas a mãe cumpriu a sua vontade. Nada disto foi fácil: de repente estávamos todos sós. Então eu disse que não queria nada dos meus pais. Casas, dinheiro, objectos, fosse o que fosse, porque já tinha tudo, e até ao fim, apesar dos defeitos que pudessem ter, e das características que eram as suas

(e algumas irritavam-me imenso)

deram-me mais uma lição de dignidade e pudor, e ensinaram-me, uma vez mais com o seu exemplo, a ser um homem. Acho do coração que os não mereço. Acho que Deus foi muito generoso para mim com os pais e irmãos que me ofereceu. Mãe, não imagina a vontade que tenho

(eu tantas vezes arredio, tantas vezes estupidamente rebelde, tantas vezes parvo)

de estar consigo outra vez a dizer-lhe os versos que gostava, algumas vezes sentada ao meu colo. Resta-me a esperança de, qualquer dia, estarmos todos juntos de novo, com o Pedro a distribuir os presentes e o pai a fumar cachimbo a sorrir e a chamar-lhe

– Margot

que mais ninguém lhe chamava nem chamou nunca e era a única forma de ternura que o pudor deles lhes permitia ter à nossa frente.

– A tua mãe é uma mulher extraordinária

dizia-me ele. Tem razão, pai: é.

(Peço desculpa mas não tive coragem para corrigir este textinho. É que às vezes sou cobarde.)

(Crónica publicada na VISÃO 1357 de 7 de março)

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