expresso.ptexpresso.pt - 13 fev 22:44

Brexit. A estranha história da empresa de 'ferries' que não tem qualquer 'ferry' no inventário

Brexit. A estranha história da empresa de 'ferries' que não tem qualquer 'ferry' no inventário

Esta quarta-feira, o departamento de Grayling finalmente admitiu que “já não há tempo” para garantir mais 'ferries' que transportem as mercadorias para o Reino Unido, caso o país saia da União Europeia sem acordo. “Não haverá qualquer reforço de meios, nem por terra, nem por mar, antes do fim de março”

As diligências do governo britânico para conseguir mais 'ferries' que aliviem o antecipado caos no porto de Dover depois do Brexit parecem capítulos escritos para uma sátira sobre o próprio Brexit - um género literário que de certo virá a conhecer retumbante sucesso nos anos e décadas que se seguirão à saída do Reino Unido da União Europeia.

A bizarra história começa no fim do ano passado, quando uma breve consulta aos bens da companhia contratada para operar mais ligações de 'ferry' entre Ramsgate, no sudeste do Reino Unido, e Ostend, no noroeste da Bélgica, revelou que a Seaborne Freight não possui 'ferries'. E não só a empresa não tem os equipamentos que foi contratada para operar como também não há registo de algum dos seus barcos algum dia ter feito uma travessia no Canal da Mancha, a língua de água que separa a Grã-Bretanha do continente e por onde se efetua a grande maioria do enorme volume das trocas comerciais entre ambos.

Presumivelmente sem conhecimento deste facto, o governo concordou em pagar à Seaborne Freight 13,8 milhões de libras (cerca de 15,3 milhões de euros) para a realização dessas viagens “extra”: mais dois 'ferries' a funcionar até ao fim de março e um total de quatro até ao verão. O plano era este mas o Departamento de Transportes cancelou entretanto o contrato, quando os jornais começaram a escrever a história inaudita da operadora de 'ferries' sem 'ferries'. A juntar-se a esta insignificante didascália sobre a inexistência dos barcos, o governo ficou também a saber que a empresa irlandesa que supostamente iria oferecer apoio financeiro e logístico à Seaborne Freight tinha-se retirado do negócio.

Um porta-voz do Ministério dos Transportes disse na altura aos jornalistas que o contrato tinha sido anulado “após conhecida a decisão de empresa Arklow Shipping em abandonar o acordo” porque “tornou-se claro que, sem este apoio, a Seaborne Freight não conseguiria cumprir as suas obrigações contratuais”. Obrigações essas, e a trama adensa-se, que nunca estiveram escritas em qualquer documento porque o governo tinha apenas “um acordo verbal” com a empresa de transporte marítimo.

O departamento de Chris Grayling, ministro dos Transportes, admitiu isso mesmo. Na comissão parlamentar de inquérito às contas públicas, Bernadette Kelly, representante do Departamento de Transportes, disse que, em vez de um contrato escrito, tinham sido aceites garantias verbais da Seaborne Freight sobre a sua sustentabilidade financeira porque a empresa era “bem conhecida no setor".

Mas a história não acaba aqui. Recentemente, alguns deputados começaram a levantar questões sobre que tipo de empresa, de facto, é a Seaborne Freight, uma vez que os “termos e condições” de utilização dos seus serviços, entretanto modificados no site da empresa, pareciam ter sido copiadas de uma empresa de entrega de comida já que não só essa mesma expressão - “entrega de refeições” - aparecia escrita nas condições de utilização do serviço como também se chamava a atenção dos clientes para o facto de ser proibido “fazer pedidos falsos através do website”.

“Custos com a entrega são calculados conforme o pedido e distância de entrega”, estava escrito na página. Também ficamos a saber que a Seaborne Freight “se reserva o direito de procurar obter, por meio de ações legais, compensação devida por qualquer prejuízo no qual incorra por ter dado seguimento a pedidos falsos ou se ter dirigido a moradas falsas para a sua entrega”. A imprensa britânica chegou a estes detalhes antes do próprio Grayling ter dito que essa informação tinha sido publicada por erro e que seria retificada imediatamente. Retificada foi, mas esquecer é difícil.

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