expresso.ptexpresso.pt - 13 fev 18:31

“Gerações roubadas”. O sofrimento que o perdão pedido há 11 anos pela Austrália não curou

“Gerações roubadas”. O sofrimento que o perdão pedido há 11 anos pela Austrália não curou

Eram crianças e foram retirados à família por terem origem aborígene. Durante anos o país quis torná-los “brancos à força”, insistindo numa política que culminou em trauma coletivo. Sobram de depressões, alcoolismo, relatos de suício. Quem sobreviveu diz-se orgulhoso das suas raízes e sublinha que a um país não chega pedir desculpa

Há 11 anos, o então primeiro-ministro do país, Kevin Rudd, apresentou um pedido de desculpas formal, em nome da Austrália, dirigido às vítimas da chamada “Gerações Roubadas”. O simbolismo de um ato não chega, contudo, para apagar os traumas profundos ou o sofrimento de quem, ainda criança, foi afastado da família, para crescer à força integrado em famílias brancas, sem outra justificação para além de a nação querer ‘aculturar’ a comunidade aborígene.

É um período negro na história da Austrália, do qual o país “deveria seriamente envergonhar-se”, conforme escreveu Vanessa Turnbull-Roberts, uma ativista de 22 anos, orgulhosa da sua origem aborígene e alguém cujo percurso pessoal ficou também marcado por uma separação forçada, numa época em que esta já não suposto ter acontecido.

Não se pode dizer que os dados falem por si. É certo que é expressivo referir que entre 1900 e 1970, foram pelo menos cem mil as crianças aboríneses obrigadas a sair de casa para acabarem adotadas por outras famílias ou institucionalizadas, mas a grandeza dos números não chega para que se adivinhem as consequências terríveis desta política.

Para isso é preciso olhar para outras estatísticas e ouvir os testemunhos dos sobreviventes. Como Brian Morley, atualmente com 61 anos, quase todos somados em clima de revolta e sofrimento interior.

Morley tinha 2 anos quando, em 1960, foi retirado à mãe - considerada uma mulher de “baixo intelecto”. Mary, aborígene, mantinha um emprego a tempo inteiro, para garantir o sustento dos três filhos, mas o Estado não a considerou uma mãe apta e levou-lhe o filho mais novo.

O rapaz acabou por permanecer seis meses numa instituição de acolhimento, experiência cuja memória haveria de transformar-se numa sensação de vazio emocional permanente, que ainda hoje o acompanha. “Sempre me senti, a um nível mais estrutural, como estando sozinho no mundo. Mesmo quando estou rodeado de pessoas, sinto-me só - acho que isto nunca vai pensar”, disse Brian Morley à “Al Jazeera”.

Orgulho das raízes

Um pedido de perdão não remedeia o que foi uma vida de enganos, sublinha. Adotado por uma família não-aborígene, Morley cresceu sem saber a verdade sobre as suas origens, ainda que a pele escura o fizesse desconfiar que algo não batia certo. Descobriria a sua identidade já em adulto, através da frieza de uns documento oficiais que o Governo lhe entregou, numa altura qm que sofria já de depressão e lutava contra o alcoolismo.

Ainda assim, garante, a descoberta foi algo de positivo. “Fiquei orgulhoso por pertencer a uma das mais antigas culturas do planeta”, recorda. Deu-lhe uma motivação para a vida. Sendo um cantor ‘folk’, atualmente Morley visita regularmente as escolas, para contar a sua experiência e também, através da música, para tentar que as comunidades conheçam a verdadeira história do país.

A história de Eva Jo Edwards, também contada pela “Al Jazeera”, tem aspetos semelhantes. Retirada à família quando tinha 10 anos, foi colocada num centro Luterano para crianças, e o afastamento forçado deixou-lhe marcas para a vida. Maiores ainda para o irmão, também levado de casa, e que aos 25 anos se suicidou.

Jo Edwards conheceu a mãe - tinha 15 anos quando ficaram as duas frente-a-frente - mas por essa altura já a ligação estava quebrada. Olhou-a como “uma estranha”, soube epiois que esta se tornou alcoólica e morreu pouco depois.

Não são apenas dramas pessoais, insistem as vítimas. É o sofrimento coletivo de uma parte significativa da população australiana, confirmado por números oficiais. No ano passado, um relatório do Instituto australiano de Saúde e Bem-estar concluiu que cerca de 17 mil pessoas de origem aborígene se debatiam com problemas sérios, consequência das políticas para os “tornar brancos”.

O relatório afirma que mais de metade sofre de doenças crónicas ou tem alguma deficiência, 70% depende dos apoios do Estado para viver e a probabilidade de terem estado presos nos últimos 5 anos é três vezes superior à dos outros cidadãos aborígenes.

Um trauma que ameaça “não ter fim”

Jo Edwards não duvida que faz sentido falar (e exigir) uma compensação financeira, para ajudar as próximas gerações - alguns estados australianos já tomaram essa iniciativa, refere.

Vanessa Turnbull-Roberts é mais nova, mas tem a noção deste trauma coletivo, que ameaça “não ter fim”, porque - afirma - a comunidade a que pertence continua a ser perseguida e a não ter acesso às mesmas oportunidades dos demais cidadãos.

“Quando se é indígena neste país, nascer é quanto basta para o Estado nos colocar na categoria de ‘vulnerável’. No entanto, como mulher indígena, sinto que o nosso povo não é vulnerável - na verdade, somos um alvo”, escreveu a ativista no “Junke”.

Em 2008, quando o primeiro-ministro pedia desculpa, também Roberts foi retirada “ao meu pai, mãe, família e comunidade”, graças a “conceitos ambíguos de negligência e a testemunhos falsificados”. Pedir desculpa e estar arrependido, deve implicar não repetir o mesmo erro, conclui.

Ela tinha 11 anos. Lembra-se de ouvir o barulho de sirenes a aproximar-se, ao mesmo tempo que opai lhe pedia desculpa: “Vêm buscar-te”. “Fechei os ohos até ouvir bater a porta”, recorda Vanessa Turnbull-Roberts. A partir desse momento, a minha vida mudou para sempre”.

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