www.publico.ptpublico@publico.pt - 13 fev 06:23

Oráculos voltados para o passado

Oráculos voltados para o passado

Marques Mendes, Santana Lopes e Paulo Portas: uma vez derrotados aparecem pimpões nas várias televisões a botarem sentenças, com ares sérios, como se a vida deles não tivesse sido o que foi.

Uma das características da vida atual é empanturrar os cidadãos com notícias e acontecimentos desde que acordam até que adormecem. Não se trata de informar, mas antes de os fazer saltar de um acontecimentos para outro, numa progressão rápida, que possa levar a que o que passou, passou, e o que vem a seguir é o que conta. Tudo sem que entre a cadeia dos acontecimentos possa haver tempo para pensar. A cada um é dado o poder de se enfartar com notícias até à paralisia de ser capaz de ligar as coisas e aos seus porquês.

Nesta ordem de ideias, compare-se o papel do dono de um oráculo da SIC, o inenarrável Marques Mendes, com o tempo em que foi literalmente corrido da liderança do PSD por total incapacidade de fazer frente ao governo de José Sócrates. Não deixou no PSD qualquer resquício da sua passagem, e na hora da partida ninguém chorou por aquela espécie de líder que nem ao partido conseguiu agradar. Pois bem, desde que se foi, até a SIC o descobrir, faz de conta que é um analista, uma espécie erudita de Cristina Ferreira.

Tirésias, famoso arúspice tebano, tinha o condão de adivinhar, diziam os gregos, apesar de ser cego. No oráculo da SIC, a pobreza das previsões de Marques Mendes mais parecem próprias de um cartomante que de um homem com dois olhos, ao contrário de Tirésias de Tebas.

É esta necessidade que a pós modernidade tem de ir debaixo de água, ao lodo, buscar o que antes rejeitara.

A estrondosa incapacidade de Santana Lopes como primeiro-ministro levou-o de São Bento para “andar por aí” até à Santa Casa da Misericórdia com o acordo de Passos e posteriormente confirmado por António Costa.

Santana derrotado por Rio não admite outro posto que não seja o de chefe, e prometeu colaborar com Rio, criando um novo partido, com militantes do PSD. Não alargou nenhum espaço e criou condições para que o PSD seja mais frágil para abrir caminho aos passistas para ressurgirem com Montenegro de espada na mão, ou, dizem os mais destemidos, deixar Costa ganhar à vontade... Como Santana vai andar por aí na Aliança, pode ser que voltem os passistas.

Santana nem no Sporting ganhou. Cultiva de si uma ideia que não tem nada a ver com a realidade. Ao que consta, terá fechado numa gaveta o pensamento de Sá Carneiro, que fugiria a sete pés do espetáculo de Évora, onde a vice-presidente apresentou como currículo ser advogada da Madonna, madonna mia...

Portas abandonou o palco quando o Parlamento o não deixou governar de mão dada com Passos e Maria Luís e Cristas, após as últimas eleições legislativas.

Entretanto, era preciso que o show continuasse para que tudo ficasse como está e a TVI, por mero acaso, foi buscá-lo para aparecer com ares presidenciais depois de uma vida a saltar por entre cargos ministeriais.

Uma vez derrotados aparecem pimpões nas várias televisões a botarem sentenças, com ares sérios, como se a vida deles não tivesse sido o que foi.

Cristas toda lampeira a apoiar a greve cirúrgica dos enfermeiros sem o mínimo de decoro, pois apoiou o congelamento de salários dos enfermeiros, o aumento da carga horária e pavoneou-se pelas feiras de agricultura quando Passos mandou os enfermeiros saírem da zona de conforto para irem para o Golfo, o Reino Unido e a Escandinávia. Outra que tal, a senhora enfermeira Cavaco, nem tugiu, nem mugiu. Apoiou o empobrecimento dos enfermeiros e dos portugueses.

Impante, a cristianíssima Cristas, encostando-se a Trump, que não ao Papa, com palavras cheias de veneno, defendeu a intervenção militar dos EUA a que chamou humanitária...

A velocidade das notícias e dos acontecimentos esconde o encadeamento dos fenómenos, a sua dialética, cujo resultado é uma espécie de amnesia que se abate sobre a sociedade fazendo com que o passado esteja em permanente reinvenção graças a esse esfregão que coloca o passado em cima do presente, para impor a austeridade e a pobreza e entoando ladainhas aos multibilionários intocáveis.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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