www.publico.ptpublico.pt - 13 fev 18:39

Como uma T-shirt, em 48 horas, ajuda por um mês 32 mulheres

Como uma T-shirt, em 48 horas, ajuda por um mês 32 mulheres

A marca de sapatos Josefinas lançou, em parceria com a APAV, uma colecção de três T-shirts, cuja venda destina-se às casas de abrigo da associação. Nas primeira 48 horas foi possível assegurar ajuda para 32 mulheres.

Sobre um traço delicado de um rosto de mulher desenhado a caneta de tinta preta surgem as manchas coloridas que representam as nódoas negras. “Bati contra uma porta”, “caí das escadas abaixo”, “fui contra qualquer coisa”, desculpas usadas para encobrir actos de violência, acompanham as ilustrações, estampadas em T-shirts lançadas recentemente pela marca de sapatos Josefinas, em parceria com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Nas primeiras 48 horas já foi possível assegurar ajuda para 32 mulheres, avança uma representante da marca.

A colecção surge dias depois de serem conhecidos números pouco animadores em relação à violência de género: só em Janeiro morreram oito mulheres em contexto de violência doméstica — número que entretanto subiu​. Para termo de comparação, entre 1 de Janeiro e 20 de Novembro de 2018, esse número foi de 24.

A iniciativa chama-se “Collections” e conta com três modelos (79 euros cada), assinados pela artista britânica Jacqueline Bissett — conhecida pelo seu trabalho gráfico com marcas como a Givenchy e Louis Vuitton​. O valor angariado destina-se às casas de abrigo da APAV, que acolhem mulheres e crianças vítimas de violência doméstica, dando-lhes acesso a necessidades básicas, como tecto e alimentação, e a apoios jurídicos, sociais e psicológicos. Por cada T-shirt vendida, a Josefinas compromete-se a apoiar durante o período de um mês uma dessas mulheres. 

PÚBLICO - Foto

A “Collections” insere-se na colecção “You Can Leave” (em português, podes sair de casa), que contava já com três modelos de ténis (298 euros), lançados no Verão do ano passado. Por cada par vendido, comprometiam-se a ajudar cinco mulheres vítimas de violência doméstica, durante um mês. Desde o lançamento, em Julho de 2018, foi possível ajudar em média 24 mulheres por mês, de acordo com a mesma representante. 

A colaboração com a Josefinas é, segundo Tânia Antunes, representante da APAV, “uma das parcerias que tem um carácter mais regular”. A organização tem em simultâneo uma série de outras iniciativas, por exemplo: há dois anos que estão ligados à produtora SP Televisão (que vende de guarda roupa de personagens de telenovela); há anos que trabalham com a Jean Louis David, nas Hair Fashion Weeks e, durante alguns anos, tiveram a Mary Kay como "um grande parceiro".

“Muitas das parcerias acabam por ter um foco muito específico”, como é o caso daquela que a APAV tem com a Josefinas, “dirigida para a violência doméstica”, explica Tânia Antunes. “As marcas e empresas que se associam à APAV acabam sempre por acompanhar o destino dado aos seus donativos. Esse é um princípio de actuação da associação havendo aqui uma lógica de rigor e transparência”, acrescenta.

PÚBLICO - Foto A artista responsável pelas ilustrações, Jacqueline Bissett

Com ‘Collections’ pretendemos provocar uma discussão e sensibilizar para a ocorrência deste crime silencioso”, comenta a CEO da Josefinas, Maria Cunha, em comunicado. “Cada T-shirt conta a história de uma mulher vítima de violência doméstica e são um espelho das histórias de milhares de mulheres. A violência doméstica pode acontecer a qualquer uma de nós e é importante, fundamental diria, falarmos sobre este flagelo”, continua.

Marcelo Lourenço e Pedro Bexiga — a dupla criativa fundadora da agência Fuel, que deixaram no ano passado para começar um novo projecto — estiveram também envolvidos no desenvolvimento da colecção. “Quisemos retratar a violência doméstica através da linguagem e iconografia do mundo da moda. Sendo um crime que continua a acontecer dentro de quatro paredes, com milhares de mulheres a sofrerem em silêncio, decidimos ilustrar as desculpas mais usadas pelas vítimas para explicarem às suas famílias e amigos os ferimentos e as nódoas negras que surgem”, explica Marcelo Lourenço. Com Mariana Silva Pereira

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