sol.sapo.ptFernando Matos Rodrigues (Antropólogo. Investigador no CICS.NovaUM/ Director do Lahb) e Anabela Magalhães (Licenciada História FLUP, Professora de História) - 13 fev 18:42

Amarante, pelo direito à memória! (crítica ao projeto de Eduardo Souto Moura)

Amarante, pelo direito à memória! (crítica ao projeto de Eduardo Souto Moura)

«Amarante corporiza-se-me, ganha forma e conteúdo. Multimoda, carregada de anos e feições, com artérias novas, pulsa ao ritmo da lenda, da história, dos costumes, das paisagens e dos homens». in António Cardoso, 1979:12

A zona da Alameda de Pascoaes, com a ponte antiga de Amarante, o largo do mosteiro, o lugar do mercado e a sua envolvente ao Tâmega, com os seus altos, fortes e robustos muros de um velho granito em redor do antigo mosteiro, são o traço pictórico que dá a esta antiga cidade um sentido cenográfico de profunda e rara beleza. Um lugar de memórias, de marcas fundas e sentidas, de momentos coletivos fundacionais, de heroísmos pátrios, de geografias físicas onde se inscrevem as marcas daqueles que construíram esta paisagem. 

Cada um dos seus habitantes, naturais daqui ou dali, com as suas origens nesta terra ou noutra qualquer, com descendência amarantina ou não, encontra neste topos urbano um sentido de identidade comum, que lhe assegura reconhecer-se nele e ser reconhecido por todos. O lugar fundado e construído abandona a fantasia da criação e transforma-se em território que liga, que protege, que dá sentido temporal e histórico a toda uma comunidade que nele procura a sua matriz identitária de referência cultural e simbólica. Estamos a falar de um lugar histórico, com dimensão espacial e temporal de longa duração, conjugando identidade e relação. Um lugar onde a magia e a história se cruzam e se ligam pelos braços de uma ponte sobre um rio, o Tâmega. 

São os lugares de memória, no dizer de Pierre Nora, que se caracterizam por uma grande estabilidade socio-espacial e paisagística -- garante fundacional da memória coletiva, a imagem do que já fomos e daquilo que queremos ser. Estamos na presença de lugares que nos ensinam a apreender a nossa diferença, a nossa individualidade, que projetam a imagem do que somos desde os tempos da infância ao tempo do indivíduo que muda. A Cidade Histórica é consequência deste amplo e complexo processo, configurando os seus valores arquitetónicos e tipológicos numa rica diversidade de caráter cultural, económico, social e ambiental. Desta diversidade de caráter nasce um compromisso ético com as gerações futuras, porque entendemos o património como um recurso fundamental para a qualidade de vida.

O projeto de Eduardo Souto Moura para o centro da cidade de Amarante coloca-nos algumas dúvidas e levanta muitas contradições perante a possibilidade de uma radical transformação da paisagem e do ambiente urbano numa das zonas históricas do casco antigo. 

A primeira dúvida relaciona-se com a natureza e a função deste tipo de projetos e a sua validação na ‘renovação das cidades antigas’. Esta proposta insere-se no modelo de ‘renovação/regeneração’ de zonas degradadas e sem infraestruturação pública. Zonas que se encontram degradadas do ponto de vista arquitetónico e urbanístico, desvalorizadas social e economicamente. Ora, o sítio da proposta de intervenção (Alameda de Pascoaes) não obedece a esta classificação, nem se encontra desinfraestruturado nem abandonado. Aliás, é um dos lugares da cidade com mais consolidação urbana e arquitetónica, com mais vitalidade social e económica, portador de arquitetura classificada como histórica e monumental. Onde se situa o mercado da autoria do arquiteto Januário Godinho (1910-1990) classificado como monumento nacional.

Deste modo, qualquer ‘renovação/regeneração’ urbana nunca pode fazer deste belo e monumental sítio da cidade uma tábua rasa, como se o arquiteto fosse uma espécie de mão de Deus a intervir num sítio aex novo. Lembramos a Carta Europeia do Património de 1975, na qual se estabeleceu como princípio a conservação integrada da cidade. Estamos num dos locais mais espetaculares de Amarante, porque aqui se conjugam a paisagem, o rio, a arquitetura antiga e moderna, canónica e vernacular, o tempo e o espaço, a vontade e o coração dos amarantinos, que durante séculos fabricaram este palimpsesto de grande complexidade e beleza cenográfica.

Nesta proposta de intervenção, Souto Moura não valoriza o sítio como património, nem dá sentido de monumento ao território da identidade e da diferença que aí foi construído, o muro. A intervenção vem simplificar, vem destruir património, vem limpar memórias, higienizar o espaço urbano para o devolver ao mosteiro na sua dimensão de ícone arquitetónico, o que não deixa de ser paradoxal e anacrónico. A destruição do muro, da sua monumentalidade, termina com a relação complexa que existe entre o alto e o baixo, a Alameda e o rio. O lugar perde a sua dramaticidade construtiva – e, domesticado e servil, desce para o rio sem glória nem chama.

Este projeto cria um novo espaço, uma nova identidade, uma nova morfologia, uma nova relação com as cotas altas e baixas, uma relação mais geométrica e linear com o rio e com a outra cidade. Perdemos complexidade e poética, perdemos monumentalidade e drama, ganhamos uniformidade e funcionalidade, perspetiva e linearidade espacial. Com esta proposta, o arquiteto uniformiza, banaliza e torna o lugar num não-lugar. Um não-lugar arquitetónico, porque repete a imagem e a cenografia de outros tantos lugares de matriz e conceção modernas, bem ao gosto da tradição do open space.

A destruição do lugar em benefício de outras cotas, de outros patamares, de outras ideologias de plano urbano, não acrescenta mais-valias arquitetónicas à zona antiga de Amarante, a não ser a ‘marca internacional’ Souto Moura. O centro histórico de Amarante é muito mais do que a simples marca de um arquiteto, por muito qualificado que seja. Estamos perante uma proposta que destrói património, arrasa as marcas antropológicas e paisagísticas do lugar, desfigura a cenografia monumental da cidade baixa, introduz uma espécie de neurose contemporânea, que só conduz a uma prática política de perda, de simplificação e repetição de não-lugares. Construir de novo não pode implicar a eliminação das cidades antigas. Se assim for, estaremos a construir cidades vazias, sem referência e sem identidade, sem genealogia ambiental e sem uma arqueologia do habitat.

Mas o que está em causa não é só a proposta do arquiteto -- mas a decisão política através da qual, em nome de uma legitimidade legitimada, um presidente de câmara decide alterar de forma radical a imagem e a arquitetura de um lugar classificado como património. Uma decisão unipessoal, porque não soube escutar todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estabelecem uma relação de uso e de apropriação com este sítio. O problema é essencialmente político, porque nasce de uma decisão política arbitrária que não soube ouvir e envolver a comunidade amarantina na discussão antes de passar para a decisão. O projeto aparece como facto consumado. A discussão pública surge depois do projeto consumado, levando-nos a concluir que é inapropriada e de mera cosmética. 

Fernando Matos Rodrigues (Antropólogo. Investigador no CICS.NovaUM/ Director do Lahb)  e Anabela Magalhães (Licenciada História FLUP, Professora de História)

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