www.publico.ptmanuel.carvalho@publico.pt - 13 fev 06:56

Na guerra da Saúde quem mais perde somos nós

Na guerra da Saúde quem mais perde somos nós

No cada vez mais complexo e oneroso sistema de Saúde há lugar para todos e para todos os acordos. Se as partes forem por aí, todos ganharão.

O conflito entre os hospitais privados e a ADSE não interessa a ninguém e só existe porque nos últimos meses assistimos a uma escalada de tensão entre o Governo e as empresas do sector da Saúde que só podia acabar como acabou: num braço-de-ferro em que todos têm razão parcial e ninguém tem razão de todo.

Caso não se vislumbre a curto prazo uma negociação entre as partes, os privados perderão uma fatia do seu negócio que a prazo os vai obrigar a repensar os seus planos de negócio; os beneficiários da ADSE perderão o acesso a um serviço de saúde de qualidade prestado pelos privados; e, como se sabe que as unidades do sector social são incapazes de acolher as necessidades de centenas de milhares de utentes da ADSE, o próprio Serviço Nacional de Saúde acabará por ser afectado com um reforço de procura não programado.

Para os sonhadores de um SNS imaculadamente puro, ou seja, um serviço público capaz de por si só prover na íntegra as necessidades de saúde do país, a ameaça dos grupos privados poderá tornar-se assim um exemplo claro do seu lirismo.

Para o Governo, que, com a nova ministra, fez subir o poder público sobre o sector a uma relação parecida entre o senhor feudal e o vassalo, a experiência poderá redundar num amargo de boca. Porque, simplesmente, a prestação de serviços de Saúde em Portugal avançou, mal ao bem, através de uma relação entre o público e o privado. Quebrar essa relação pode dar origem a gloriosas declarações ideológicas, mas vai causar problemas graves aos portugueses.

Era por isso bom que o Governo e a ADSE deixassem de tratar os privados como personagens de méritos duvidosos e os motivassem para negociar. Como era bom que os privados dessem conta que não vivem num mundo desenhado pelas suas regras e pelos seus desejos e aceitassem pagar os 38 milhões, que, apoiada num parecer da procuradoria, a ADSE reclama sob a protecção da lei, e não rejeitassem liminarmente as tabelas de preços que lhes são propostas – ou seja, que moderassem a sua legítima gula pelo lucro. Manter em aberto este braço-de-ferro é que não faz sentido.

Se mantiverem esta posição radical todos acabarão por perder.

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