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Dados pessoais na rede: se não autorizou, é intrusão

Dados pessoais na rede: se não autorizou, é intrusão

É mais importante do que nunca que se fale na importância da transparência na utilização de dados e na recuperação da confiança dos utilizadores.

O mais recente escândalo da aplicação do Facebook “Facebook Research App�� gerou novas preocupações relativamente à privacidade de dados.

Alegadamente, o Facebook pagou a consumidores de 13 anos para fazerem o download da aplicação “Facebook Research” de modo a conseguirem aceder aos seus dispositivos e por conseguinte aos seus dados. Ao instalarem esta aplicação, seria também instalada uma VPN (Virtual Private Network) que deu ao Facebook acesso a (quase) tudo o que fosse feito no telemóvel, incluindo mensagens privadas nas aplicações das redes sociais, “chats” de aplicações de mensagens instantâneas (incluindo fotografias e vídeos enviados uns aos outros), e-mails, procuras e atividade nos navegadores web e, até, informação sobre a localização contínua.

O que podemos, então, fazer para que os utilizadores tenham controlo dos seus dados?

  1. A comunicação é o maior problema

A utilização e/ou venda de dados é o que permite às empresas de tecnologia, incluindo aplicações de telemóvel, providenciar serviços gratuitos. Não há nada de novo ou de errado em pagar aos utilizadores pelos seus dados. É também através dos dados que estas empresas tomam decisões em relação aos seus produtos e ganham vantagem competitiva no seu setor. Na verdade, uma vez que os dados são o “novo petróleo” no mundo da tecnologia, podemos até considerar que esta transação (dados em troca de uma compensação, seja ela qual for) seja justa e do interesse do próprio utilizador.

O problema surge quando as empresas falham (redondamente) na comunicação com os seus consumidores e levam-nos a partilhar os seus dados sem realmente compreenderem que dados estão a ser partilhados e para que fins.

A atitude destas empresas tem que mudar. É imperativo que respeitem a privacidade dos dados dos seus utilizadores e que adotem uma atitude de total transparência com eles, incentivando a que a transação de dados seja feita de modo mais justo para todos.

Mas não podemos atribuir total responsabilidade às empresas. Os consumidores também têm uma quota-parte de responsabilidade no aparente “abuso” de que são alvo. Quantos de nós já não autorizámos partilhar a nossa localização numa aplicação, sem saber exatamente para que é utilizada? Ou aceitámos termos e condições de websites que não lemos?

Esta aparente indiferença em relação aos nossos dados tem que mudar. Vivemos numa altura em que (mais ou menos conscientemente) rejeitamos a nossa privacidade em prol da conveniência dos serviços que utilizamos.

É, por isso, imperativa uma mudança de atitude de todos nós em relação a este assunto. Por um lado, as empresas de dados devem comprometer-se a “educar” os consumidores relativamente à importância que os dados deles representam e a informá-los do modo como os seus dados são utilizados. Por outro, os utilizadores devem ter a proatividade de querer saber mais sobre este assunto e poder controlar os seus dados.

É, por isso, consentimento quando não sabemos aquilo que estamos a consentir?

  1. Reconheça as preocupações em relação à privacidade de dados

As pessoas estão cada vez mais ansiosas em relação à informação pessoal que partilham e que é recolhida pelas empresas. Um inquérito feito em 2014 descobriu que 91% dos americanos “concordam” que as pessoas perderam o controlo sobre como a informação pessoal é recolhida e usada pelas diferentes entidades. É responsabilidade das empresas de dados garantir que os utilizadores controlam os seus dados. Não apenas dizendo-lhes que os têm mas, de facto, dando-lhes esse controlo. É obrigação destas empresas mostrar, de modo simples, claro e transparente, que informação está a ser recolhida, como está a ser utilizada e por quem (incluindo terceiros). Vencer os consumidores pelo cansaço não é solução.

Se as empresas rentabilizam os nossos dados, então nós também devemos ser parte do processo, certo?

  1. Libertem os consumidores

Ganhar a confiança dos consumidores deve ser, no meu entender, a prioridade das empresas de dados. O consentimento dos consumidores na partilha dos seus dados é o objetivo número 1 de qualquer empresa que queira rentabilizar dados e, por isso, deve fazê-lo de modo transparente, perguntando sempre ao consumidor se está disposto a dar os seus dados e informando-o, sempre, para que fins serão utilizados.

Do mesmo modo, é importante também que, mesmo tendo o consumidor autorizado uma partilha contínua de dados, este tenha a possibilidade de parar a partilha a qualquer momento, sem que as empresas o tentem dissuadir do contrário. O grande desafio é, portanto, que as empresas consigam oferecer real valor aos seus consumidores, de modo a que estes partilhem os seus dados com total consentimento. Se as empresas falharem este objetivo, a solução não deve passar por impedir que os consumidores deixem de partilhar dados, mas sim alterar a sua proposta de valor.

Acredito que educar os utilizadores a protegerem a sua privacidade online irá impedir que os serviços maliciosos continuem a atuar e que irá incentivar serviços seguros e bem intencionados a ter êxito. A partir de agora, este é o meu compromisso pessoal.

Inês Raimundo é responsável de Estratégia de Dados (data strategy lead) da Habit Analytics

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