expresso.ptexpresso.pt - 13 fev 19:43

A história do leopardo negro que está a espantar o mundo: “Não há animal mais misterioso, evasivo e bonito que este”

A história do leopardo negro que está a espantar o mundo: “Não há animal mais misterioso, evasivo e bonito que este”

Há mais de cem anos que um animal assim não era fotografado. Mas há um perigo: “O de algum caçador furtivo olhar para ele como um lindo tapete negro para o quarto”

Se para Will Burrard-Lucas foi um sonho realizado, para o mundo as imagens do leopardo negro captadas pelo fotógrafo no Quénia têm o encanto das (boas) coisas raras. Afinal, há já mais de cem anos que não se conseguia uma fotografia com um exemplar desta variedade. E como nisto da vida selvagem também se aplica o provérbio ‘ver para crer’, os cientistas do Jardim Zoológico norte-americano de San Diego, responsáveis pelo trabalho de campo, não podiam estar mais satisfeitos: é a prova que estes animais não estão extintos.

Nick Pilfold, um dos biólogos envolvidos, explicou que foram precisos aguns meses de observação e de espera até conseguir gravar imagens do leopardo negro nas câmaras remotas instaladas na região de Laikipia.

A zona não foi escolhida por acaso. Os meios foram colocados exatamente na zona onde no ano passado surgiram relatos dando conta do avistamento de um exemplar e os cientistas alimentavam a esperança de os poder comprovar.

À “CNN”, Will Burrard-Lucas partilhou a sua alegria muito particular: “Para mim, nenhum animal está envolto em maior mistério, nenhum é mais evasivo ou mais bonito. Durante anos, os leopardos negros permaneceram como matéria para os sonhos e para as histórias improvisadas, contadas ao redor da fogueira, à noite. Ninguém que eu conheça viu um em plena natureza e eu também pensei que nunca teria essa oportunidade”.

O artigo publicado no African Journal of Ecology, que revelou as imagens, explica que as câmaras usadas foram colocadas perto de trilhos de animais e fontes de água. Eram deixadas 24 horas por dia na maioria desses lugares, mas só à noite eram ligadas.

Evento “para celebrar”

José Matos, bastonário da Ordem dos Biólogos, concorda com o lado “inesperado” das fotografias divulgadas. “É um evento raro”, diz ao Expresso, concordando que estas variedades de animais selvagens, “sejam os negros ou os brancos”, são “sempre difíceis de registar”, a ponto de a passagem dos anos permitir fazer duvidar de que existem ainda. “A relevância da notícia explica-se também pelo facto de nos últimos 30 anos se terem perdido percentagens significativas de espécies selvagens. É sempre de celebrar.”

De resto, acrescenta José Matos, “nada muda”. As condições de sobreviv��ncia são as que existem, e “estando em causa a perda de habitat, com o que isso significa de falta de espaço e de presas que garantam a alimentação, o desafio da adaptação persiste” - sobretudo estando em causa um animal “individualista, mais sensível, que caça sozinho”, não se apoiando num grupo.

Para a equipa do Zoológico de San Diego, o objetivo é agora continuarem na região, para tentar contabilizar quantos exemplares da subespécie aí se concentram. Outra preocupação é desenvolver um programa de conservação que efetivamente proteja os animais na área.

Já do ponto de vista científico, a observação feita no ambiente árido de Laikipia levanta novas questões sobre o significado adaptativo do melanismo - mutação genética responsável pela pelagem completamente preta (ainda que nas imagens infravermelhas seja possível detetar os icónicos padrões do leopardo).

Tradicionalmente a teoria é a de que o melanismo é mais provável entre os leopardos que vivem em habitats densamente florestados, áreas em que a floresta espessa e a sombra adicional proporcionam um fundo mais escuro para a camuflagem dos animais.

O maior perigo para a estrela das fotos publicadas esta quarta-feira? “O de algum caçador furtivo olhar para ela como um lindo tapete negro para o quarto”, responde José Matos. “Sabemos que há sempre o risco de alguém sem escrúpulos querer caçar um animal destes, pelo capricho de uma coleção própria ou para vender.” É por isso, adianta, que muitas vezes os investigadores nem sequer revelam o lugar exato das observações. Por precaução.

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