rr.sapo.ptOpinião de Cristina Sá Carvalho - 12 fev 00:00

​Aquilo que desejamos

​Aquilo que desejamos

O remédio não são melhores líderes mas melhores cidadãos. Porque as democracias fortes se centram na cidadania e na competência cívica e não nos desejos de messias salvadores.

Benjamin Barber, um cientista da política interessado na democracia participativa, escreveu um artigo deveras estimulante sobre a liderança dos povos. Ou melhor, sobre essa coisa terrível e dominadora que é o desejo e, no caso da tese de Barber, o desejo de um bom líder, algo entre a vontade de viver uma vida livre, organizada e produtiva e a busca incessante pelo pai.

Vem isto a propósito da participação do Presidente da República – agora que tantos comentadores políticos de excelso currículo coincidem em achar que ele é uma encarnação consentida (isto digo eu) do poeta fingidor de Pessoa – naquele trasladado programa de nome impronunciável que a TVI emitiu há poucos dias. Foi uma bela aula de introdução à política real (real de realidade, claro, mas também um pouco monárquica, amando o povo), com um entrevistador a tentar interromper Marcelo, um Jorge Coelho histrionicamente comovido (esta não estava no programa), um Lobo Xavier a competir embaraçadamente com o humanismo um bocadinho espalhafatoso de Marcelo e um Dr. Pacheco Pereira do mais manso e cordato, a querer lançar a coisa para o depois: não já o depois que será a nova eleição – coitado do César, mais um sacrificado da fantasia política dos partidos de centro a tentarem parecer cool com aquele eleitorado oscilante que ninguém sabe o que é nem o que quer e que muitos preferem considerar como a faixa populacional dos zangados (e os zangados votam?) – mas o after Marcelo: “Ai coitadinho do que vier a seguir…”. Ora, até nisso MRS tem graça e flair: não é que não se importe com o que acontece depois mas, porque se importa imenso, ainda pretende fazer escola. A escola que referiu na pseudo-entrevista, isto é, a escola das escolhas constitucionais feitas aquando da consolidação do regime democrático. “Eu estive lá”, recordou. E aquilo que se viveu nesses momentos de design do regime continua válido neste momento de crise, a requerer algum combate.

E recordo Barber também a propósito da visita do Papa Francisco a Abu Dhabi, uma viagem que muitos viram como um reconhecimento do novo Maquiavel, o surpreendente príncipe das arábias que promove um encontro pela paz mas não parece muito interessado na promoção dos direitos humanos, ocidentalmente entendidos. De qualquer modo, foi impressionante o discurso do Papa, como sempre, rejeitando a violência em nome de qualquer instrumentalização da religião, e defendendo os tais direitos, tudo num ambiente humano à altura da diáfana arquitetura do lugar. Não tanto pelas palavras, mas pela forma como foram ditas, em contraste absoluto com aquele espaço imenso e majestoso, erguido para uma memória centralizada de poder, e que foram proferidas com uma humildade e uma verdade absolutamente comovedoras.

No seu belo texto, Barber recorda-nos que os líderes que desejamos – fortes e perfeitos – são líderes que facilmente transformam a sua autoridade representativa numa desautorização dos representados. E porque quereríamos ser despojados da nossa quota parte de poder? Provavelmente porque as nossas democracias são fracas. Ora, invoca Barber, o remédio não são melhores líderes mas melhores cidadãos. Porque as democracias fortes se centram na cidadania e na competência cívica e não nos desejos de messias salvadores.

Aprecio a posição do Presidente da República quanto à sua relação com o povo português. Não me interessam nem me movem as selfies ou outros exageros, mas noto que age com equidade, com uma motivação generosa, com um sentido de procura da verdade de si, dos outros e das coisas que nos ligam e nos separam. Do mesmo modo penso que o Papa Francisco atua e convida a agir e a pensar a nossa vida em comum com esse sentido de verdade, de autenticidade, de generosidade. Por isso, quando um e outro falam as pessoas escutam. E quando um e outro se deslocam, as pessoas acompanham. Naturalmente, esta capacidade de comunicar com os sentimentos e as ideias das pessoas é uma das características – difícil de fabricar – dos líderes com carisma e exige um pouco mais do que a venda de sabonetes. Exige carácter e exige uma atitude moral perante o poder que não pretende promover nos outros a admiração e a submissão, mas o desejo de participação e de autorresponsabilidade. Barber diz que isso se demonstra com a capacidade de escuta do moderador sensível e humilde. A história prova que ambas as qualidades, até certo ponto, podem ser aprendidas. As histórias de Jorge Mário e de Marcelo são a prova disso.

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