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Vodka e champanhe em emanações de Dostoiévski

Vodka e champanhe em emanações de Dostoiévski

Em Confissões de Um Coração Ardente, Carla Maciel atira-se à obra de Dostoiévski pela lente do amor. No CCB, de 14 a 17 de Fevereiro, cinco homens e uma mulher discursam sob o efeito de in vino veritas.

Carla Maciel diz sofrer daquilo a que o crítico literário George Steiner terá chamado “doença dostoievskiana”. O que equivale a dizer que qualquer homem ou mulher que não tenha uma pedra no lugar do coração não poderá deixar de se sentir profundamente afectado com a leitura da obra de Fiódor Dostoiévski. E quando se diz “afectado”, pensa-se no quanto a natureza humana em toda a sua mais putrefacta e desalentada glória se torna tão avassaladora que só pode provocar, sem qualquer clemência, uma enorme desilusão com o mundo. “Foi o que aconteceu comigo”, confessa ao Ípsilon a actriz, agora encenadora do espectáculo Confissões de Um Coração Ardente, em cena no Centro Cultural de Belém de 14 a 17 de Fevereiro, construído a partir dos textos do autor russo.

“Entrei numa fase em que estava desiludida com a natureza humana, porque sou uma pessoa muito positiva e utopista”, diz acerca do período que se sucedeu à leitura, ao longo de ano e meio, de todos os livros de Dostoiévski a que conseguiu deitar a mão – de Os Irmãos Karamázov, Crime e Castigo ou O Jogador, a O Idiota, Cadernos do Subterrâneo, Humilhados e Ofendidos ou Noites Brancas. E mais contos, novelas, qualquer texto que tivesse sido vertido para português. “Tenho um lado infantil e ingénuo que me faz acreditar no ser humano, mas o Dostoiévski puxa-nos para um sítio de realidade e de verdade que nem sempre estamos preparados para atingir.”

PÚBLICO - Foto Carla Maciel diz sofrer daquilo a que o crítico George Steiner terá chamado “doença dostoievskiana” daniel rocha

Mal comparado, Carla Maciel fala de uma qualidade que habitualmente se atribui às montanhas de indistintos livros de auto-ajuda que vergam as prateleiras das livrarias de todo o mundo: a obra de Dostoiévski, defende a encenadora, “permite-nos aprendermos um pouco sobre nós próprios, mas sobre as nossas fragilidades, a nossa maldade, uma data de sentimentos de que às vezes passam e nem nos damos conta, porque estamos tão fechados sobre nós próprios”. Daí que, à semelhança do que lhe aconteceu com Proust – quando participou, enquanto actriz, na adaptação que o seu companheiro, Gonçalo Waddington, fez da descomunal Em Busca do Tempo Perdido, abreviada na peça Albertine, o Continente Celeste – precise agora de um descanso.

Confissões de Um Coração Ardente, uma construção a partir das palavras de Dostoiévski sublinhadas, recolhidas e reordenadas até resultar no texto desta peça, começou a insinuar-se no espírito de Carla Maciel há coisa de três anos. Um par de anos antes, na verdade, ao ler Crime e Castigo, a actriz percebeu que algo em Dostoiévski a inquietava a ponto de a impelir no sentido de o trabalhar em teatro. Só que na altura, admite, sentia ainda que “não tinha maturidade suficiente”. Talvez porque o seu caminho é autodidacta, sem formação no Conservatório ou em qualquer outra escola teatral, sem ter metido mãos e olhos numa bibliografia de referência; talvez porque cresceu num meio familiar desperto sobretudo para a música e muito menos permeável à literatura. “Eu não tinha grandes hábitos de leitura”, confessa. “E quando entrei para o teatro comecei a sentir-me um pouco aquém. A curiosidade e querer estar à altura dos projectos é que fez com que começasse a ler os clássicos e outros livros importantes.”

Foi assim que chegou a Dostoiévski. Há três anos, ao lançar-se para dentro das 800 páginas de Os Irmãos Karamázov, descobriu “um tratado filosófico” mascarado de romance e viu-se arrebatada pela experiência. Enquanto actriz, Carla havia já sido personagem do autor russo em O Jogador, numa encenação de Gonçalo Amorim, em 2011, mas pouco a podia preparar para um mergulho tão total na obra de Dostoiévski. Tanto assim que mesmo depois da leitura dos Karamázov não fazia ideia que ponta puxar para a criação de um espectáculo. Até que, ao passar para Humilhados e Ofendidos, surgiu-lhe como ponto de partida o amor naquelas personagens consumidas por dilemas interiores e entregues a um contínuo sofrimento ditado por questões económicas, sociais e éticas. “O amor é muito importante para mim”, contextualiza Carla Maciel. “O amor entre as pessoas, o amor pela vida, o amor por uma profissão – esse amor é que nos leva e que nos encaminha para estarmos vivos. E sinto que estamos a atravessar uma fase em que as pessoas andam carentes, não partilham emoções.”

Dostoiévski bate à porta

Num salão com ambiente identificável no século XIX, sem grandes luxos, quatro homens bebem e fumam à mesa (há um outro, lá atrás, ausente, que não se mistura com o tom de festa ébria). Às tantas, um deles levanta-se, toma a única mulher nos braços, dança com ela, confessa-se apaixonado, fala de sonhos que são “romances completos” e povoados por rostos femininos, e diz-se um sonhador porque a sua vida real é “tão monótona”. O Homem 5 (Gonçalo Waddington, sendo os outros quatro Albano Jerónimo, Marco Paiva, Miguel Loureiro e Tónan Quito) enlaça a cintura da Mulher (Teresa Coutinho) e embarca numa sedução em que se confessa um tipo “sem história”, alguém que com ninguém fala, “um original, um excêntrico”. Qualquer semelhança com a obra de Dostoiévski não é a mais pura coincidência.

E não é coincidência porque, como antes escrevíamos, Carla Maciel identificou o amor como força propulsora para a sua criação e, de lápis em punho, releu e sublinhou livros, com os óculos do amor colocados e seguindo as pistas que a levavam a essa temática no masculino. “O feminino está lá sempre presente, ouvinte, cúmplice, mas aquela obra é masculina”, afirma sem dúvidas na voz. “Por isso é que tenho aqui uma mulher como representante de todas as mulheres dos romances. Ninguém se lembra da Sónia, ninguém se lembra da Nastássia Filíppovna, todos se lembram do Míchkin e do Raskólnikov [personagens de O Idiota e Crime e Castigo].”

A Mulher de Confissões de Um Coração Ardente é, afinal, uma presença evanescente, quase uma projecção destes cinco homens que a sonham e a projectam, uma corporização do desejo mas também a cúmplice com quem partilham as suas maleitas amorosas, enquanto entre si trocam argumentos sobre a fé, o suicídio, a dor ou a relação conflituosa com Deus. Embora Carla Maciel não queira descodificar demasiado estas personagens – no seu entender, deixa escapar, estes cinco homens são outras tantas emanações do próprio Dostoiévski em diferentes fases da vida, colhendo falas e características de diferentes figuras da sua obra –, admite que, de início, esta mulher “quase nem falava”. “Gostava que andasse a deambular pelo espaço e se sentasse a ouvir.” Não por uma questão de menorização, mas antes porque a entendia como uma evocação.

Aos poucos, no entanto, tanto os actores como o decurso dos ensaios foram exigindo um maior protagonismo para a Mulher. Só que a encenadora não quis inventar uma revolução na obra de Dostoiévski ou sequer focar-se nessas personagens femininas que são descartadas pela memória; quis antes deixar-se levar pelo autor russo e pela sua obra, sem lhe trair a pena. Com um texto naturalmente denso, regado a vodka e champanhe, não só porque a bebida alastra pelos livros sem grande travão, mas também porque a elevação discursiva que está permanentemente em cena, acredita a encenadora, “é tão literária que só em verborreia e em in vino veritas é que faz sentido”.

Os brindes sucedem-se, as diatribes alcoolizadas também, os passos vão falhando mas o pensamento não perde agilidade. Daí que a opção cénica seja pelo despojamento. O cenário e os figurinos não são de extrema importância, e tudo o se possa intrometer entre o público e as palavras é varrido para longe da vista. Até porque a densidade implica uma atenção permanente, estendida por pouco mais de hora e meia, mas que Carla quer ver em palco na esperança de que “as pessoas possam a aprender a partilhar, a serem mais sinceras e verdadeiras, a deixarem de lado a hipocrisia e a capa” que acredita estarem vulgarizadas nas nossas ruas e nas nossas casas.

“Dostoiévski expõe tudo de forma muito crua, penetra-nos na alma”, reafirma. E volta a George Steiner e ao seu ensaio sobre o russo para citar de memória: “Ele entra directamente em casa, entra directamente na alma.” Confissões de Um Coração Ardente é, por isso, Dostoiévski a bater à porta, na esperança de que a entrada lhe seja franqueada.

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