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Tiquetaque... o relógio não para...

Tiquetaque... o relógio não para...

Tal como um relógio que não para, as necessidades das pessoas que cuidam, a sua saúde e bem-estar, precisam diariamente de ser atendidas.

Todos os dias, milhares de cuidadores informais prestam cuidados 365 dias por ano, 24h por dia.

Muitos estão cansados, nos limites das suas forças. Estão em risco.

Cuidar é dos atos mais nobres, mas também dos mais exigentes. Se o cuidador não tiver apoios e não cuidar de si, tudo pode ficar comprometido, a sua saúde, a sua felicidade, a sua vida, bem como da pessoa que cuida.

Facilmente percebemos a necessidade de envolver esta dinâmica dos cuidadores numa perspetiva multidimensional, para que de forma integrada se consiga ser mais eficiente. Outras vezes, conseguimos fazer mais e melhor com o investimento numa governação inovadora e inteligente.

É importante por isto um estatuto para todos os cuidadores informais, que majore os benefícios para quem, em particular, está em mais risco de pobreza, pior saúde física e/ou mental e em risco de exclusão social. O sofrimento psicológico e as dificuldades dos cuidadores devem ser rapidamente atendidos.

Portugal está a construir o seu caminho. É de valorizar o nosso Serviço Nacional de Saúde e os profissionais de saúde que nele trabalham – que, enquanto parceiros, são os principais aliados dos cuidadores informais.

Um dos desafios que se coloca a todas as regiões do país é de disporem destes recursos e todos os cuidadores disporem dessas opções. Contudo, as assimetrias são significativas…

Os apoios públicos em países como o Reino Unido e nos países escandinavos integram apoios financeiros para a aquisição de bens e serviços; apoios financeiros aos cuidadores desempregados; uma carreira contributiva reconhecida; subsídio do cuidador; apoios e medidas de intervenção para os jovens cuidadores; licenças de urgência; licenças de curta e média duração; descanso do cuidador em 24h; apoios na capacitação e em serviços de formação, aconselhamento, informação e apoio psicossocial, e reforço das respostas domiciliárias.

É bastante relevante e de destacar que muito do apoio aos cuidadores informais em Portugal tem sido igualmente realizado por associações de doentes e de cuidadores, bem como através de projetos liderados pelas Santas Casas da Misericórdia de todo o país, com especial relevância para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com trabalho no apoio à capacitação, aconselhamento e informação dos cuidadores e investimento de equipas no terreno que diariamente apoiam a pessoa que estes cuidam, bem como no desenvolvimento de programas de rádio para assim chegar aos cuidadores que não dominam as ferramentas digitais.

“Não se pode fazer a melhor Lei do mundo de repente”, como disse em tempos uma deputada aquando da discussão das medidas a implementar de apoio aos cuidadores, mas o Estado tem o dever de promover o bem-estar da sua população e criar condições que menorizem o sofrimento de todos os que estão especialmente em risco. Existem cuidadores neste momento em risco, no limite. É “preciso ponderação”, pois não somos de facto um país rico, mas a ausência de respostas essenciais não é tolerável.

Uma equipa de trabalho de saúde mental da região do Norte, em reunião clínica onde participamos, discutia recentemente o caso de um cuidador com 85 anos que se auto agrediu com arma branca e tentou o suicídio. O alegado motivo da tentativa de por fim à sua vida foi, precisamente, o não ter condições psicológicas nem físicas para continuar a cuidar do seu filho com deficiência física severa – fazendo-o há mais de dez anos de forma ininterrupta, sem apoio de ninguém. O cuidador é internado. O filho é institucionalizado e três meses depois o cuidador retoma o seu papel na sua casa. Que respostas e sensibilidade existem para esta e muitas outras situações? Tiquetaque... o relógio não para...

Numa escola, um jovem cuida da mãe com doença oncológica. Que impacto tem a doença na vida e no futuro deste jovem? Afinal, os jovens cuidadores também existem...  E tiquetaque... o relógio não para...

A nível Europeu existe, contudo, uma corrente que nem sequer quer ouvir falar do estatuto. Cuidar deve ser função do Estado, defendem. A magnitude da participação e envolvimento nos cuidados deve depender apenas do cuidador.

Mais de 800 mil cuidadores e os seus respetivos familiares e amigos estão atentos e, no momento oportuno que se aproxima, podem ser também eles decisivos para a construção de uma sociedade que valoriza os seus cuidadores.

Em novembro de 2018 apresentamos no Parlamento Europeu uma estratégia com eurodeputados e a rede europeia de cuidadores para melhor apoiar os cuidadores informais, pois a discussão, os fundos e as diretivas europeias são também construídas e definidas em Bruxelas.

Recentemente, o Governo Regional da Madeira apresentou uma proposta legislativa para a criação do estatuto do cuidador informal, com especial empenho da secretária Regional de Inclusão e Assuntos Sociais, a Dra. Rita Andrade.

A nível nacional, o Bloco de Esquerda e o CDS apresentam igualmente propostas. Já o Conselho de Ministros aprovou, na semana passada, uma proposta de lei, que será conhecida brevemente. A sociedade portuguesa e os partidos estão mobilizados. O Presidente da República pede consensos.

Tiquetaque... é tempo de agir... é tempo de concretizar...

Tiquetaque... é tempo de votar... 

Coordenadores Cuidadores Portugal

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico​

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