visao.sapo.ptvisao.sapo.pt - 12 fev 13:00

Esquilos no prato abrem debate que mistura questões éticas e práticas

Esquilos no prato abrem debate que mistura questões éticas e práticas

Há restaurantes britânicos a servir carne do roedor peludo, iguaria de que cada vez mais apreciadores gastronómicos não dispensam. Os ativistas dos direitos dos animais argumentam com questões éticas, até pela forma como as pequenas criaturas selvagens são abatidas. Porém, enfrentam uma onda de resistência grande: a proliferação do "estrangeiro" esquilo cinzento que está a ameaçar a espécie nativa

Entrar numa loja de produtos alimentares ou num restaurante e adquirir ou consumir lebre, perdiz, pato ou faisão é uma coisa, mas se for carne de esquilo é outra. No Reino Unido, onde a carne do roedor consta em pratos gourmet, desde ragus a sobremesas, é um assunto que está a gerar polémica por levantar questões éticas. Ou pelo facto de essas questões não estarem a ser levadas a sério.

Vamos por partes: o esquilo cinzento é vendido há mais de uma década em quintas e cooperativas locais e a sua procura não para de aumentar, segundo o jornal The Guardian. Os apreciadores de carne de caça vêem neste ingrediente, com um sabor entre o pato e o cabrito, uma opção alimentar atrativa e sustentável. Os ativistas dos direitos dos animais querem pôr termo à situação e argumentam com questões éticas, até pela forma como as pequenas criaturas selvagens são abatidas. Porém, enfrentam uma onda de resistência grande: a proliferação do esquilo cinzento, espécie da América do Norte, que ameaça a sobrevivência do esquilo vermelho, originário da Europa e Ásia. Atualmente, não falta quem defenda a redução do esquilo cinzento e até considere aceitável a sua erradicação. O príncipe Carlos, por exemplo, que preside o Red Squirrel Survival Trust. Má sorte para os cinzentos, no lugar errado à hora errada, tão diferente da dos seus “irmãos” Tico e Teco, personagens dos filmes de animação da Disney, com fãs no mundo inteiro.

De predador a presa (ou à mesa)

Os “cinzentos” (Sciurus carolinensis), da América do Norte, chegaram ao Reino Unido em finais do século XIX e, segundo o jornal The Telegraph , estima-se que hoje existam mais de dois milhões e meio de exemplares a conquistar cada vez mais terreno aos congéneres “vermelhos” (Sciurus vulgaris). No melhor dos cenários, a espécie nativa não ultrapassa os 15 mil exemplares em Inglaterra, uma sombra do que foi antes da “invasão”, quando chegaram a totalizar três milhões e meio. Mas nem sempre o que parece o é. Os resultados de um estudo feito há cinco anos em 300 bosques do norte do Reino Unido e com a duração de três meses, mostraram que o número de esquilos vermelhos aumentou 7% face ao ano anterior, contrariando décadas de declínio. Outro dado curioso, revelado num artigo do Imperial College London, intitulado “Não culpem os esquilos cinzentos: a invasão britânica tem mais a ver connosco” , os humanos, os principais responsáveis, que nos ultimos anos os convertemos em animais ornamentais e de companhia. Nesse caso, será ético comê-los?

O debate segue dentro de momentos

Chefs como Tim Maddams, que se define como caçador e consumidor ético, diz que sim. Fã do uso da carne de esquilo como ingrediente, ele afirmou que o processo que vai da caça até à preparação e confeção se faz com profundo respeito pelo animal, que pode vir a ser o último grito no consumo ético de carne.

Para os ativistas, a dieta realmente sustentável implica deixar os animais em paz, parar de fazer deles bens ao nosso dispor e que aceitar comê-los pressupõe um caminho não isento de crueldade.

O proverbial humor britânico também compareceu no debate que, não sendo novo, ele ganha outro fôlego agora. Lia-se há dias no The Guardian que entre comer esquilos e comer ratos, a primeira opção é de longe a mais sensata: os “ratos das árvores” sempre comem bolotas, sementes, frutas e insetos e, em circunstâncias Brextremas, comê-los não será um problema, antes uma opção (no limite, apetecível).

19
1