eco.sapo.pteco.sapo.pt - 12 fev 12:33

S&P: Angola deverá crescer 2% este ano

S&P: Angola deverá crescer 2% este ano

A agência de notação financeira Standard & Poor's considera que a economia de Angola vai crescer 2% este ano, acelerando depois para uma média de 3%, ultrapassando a recessão de 1% em 2018.

A agência de notação financeira Standard & Poor’s considera que a economia de Angola vai crescer 2% este ano, acelerando depois para uma média de 3%, ultrapassando a recessão de 1% em 2018, que durava desde 2016.

“Estimamos que a atividade económica se tenha contraído 1% em 2018, motivada pelo declínio da produção de petróleo, depois de contrações de 2,6% em 2016 e de 0,1% em 2017”, lê-se no relatório que acompanha a divulgação da decisão da S&P de piorar a Perspetiva de Evolução da economia de Estável para Negativa, mantendo o rating abaixo do nível de recomendação de investimento.

A decisão é justificada principalmente pela significativa subida dos níveis de dívida pública de Angola nos últimos anos, não só pelo endividamento propriamente dito, que só em 2018 chegou a 12 mil milhões de dólares, mas também pela desvalorização do kwanza, o que teve um impacto direto no nível de dívida pública em função do PIB.

“O kwanza caiu 46% em 2018 no seguimento da liberalização de janeiro desse ano da taxa de câmbio e consequente depreciação, e incorporámos nas nossas previsões uma queda adicional de 7% este ano, o que deverá provavelmente manter a inflação relativamente alta”, nos 15% este ano, lê-se no documento.

Na análise, a S&P estima que as reformas lançadas pelo Presidente João Lourenço continuem, principalmente depois do acordo com o Fundo Monetário Internacional, o que deverá “sustentar uma aceleração do crescimento económico para 3% a médio prazo”.

Sobre o petróleo, que “continua a ter um papel muito dominante na economia de Angola”, os analistas da S&P liderados por Ravi Bathia assumem que o preço médio por barril descerá para 55 dólares neste e no próximo ano, o que compara com um valor à volta dos 72 dólares no ano passado, o que prejudica as finanças de Angola, que dependem do crude para 25% do PIB, 95% das exportações e 65% da receita fiscal no ano passado.

“A produção petrolífera caiu cerca de 8% para 1,5 milhões de baris por dia, no ano passado, comparado com os 1,6 milhões de 2017, devido a alguns problemas técnicos e à maturação dos poços petrolíferos, e o setor não petrolífero também cresceu menos do que o esperado”, nota a S&P.

No relatório, a agência de rating anuncia ter revisto em baixa a Perspetiva de Evolução da economia de Angola, de Estável para Negativa, devido ao “significativo aumento” da dívida pública, e manteve o ‘rating’ em ‘lixo’.

“A dívida pública de Angola em percentagem do PIB aumentou significativamente em 2018, em parte devido ao impacto da forte depreciação do kwanza no volume de dívida pública em moeda estrangeira”, lê-se na nota que acompanha a divulgação da decisão, que mostra uma subida da dívida pública para os 87% em 2018, descendo ligeiramente para 85,7% este ano.

“Estamos a rever a Previsão de Evolução da economia de Estável para Negativa e mantemos o ‘rating’ da dívida soberana de longo e curto prazo em B- e B; a Previsão de Evolução negativa reflete a possibilidade de uma descida [do ‘rating’] se o alto peso da dívida pública tornar as necessidades de financiamento insustentáveis, ou se as pressões orçamentais ou externas levarem a défices gémeos mais prolongados que o previsto”, dizem os analistas da S&P.

Reformas e FMI só vão ajudar Angola a médio prazo

O analista da Standard & Poor’s que segue Angola disse que o impacto do programa com o FMI só vai ter efeito a médio prazo, explicando que agora a economia enfrenta dificuldades que justificam uma Previsão de Evolução Negativa.

“Angola tem problemas sistemáticos e que tiveram um forte impacto no ano passado, como o preço baixo do petróleo, as dificuldades de produção dos blocos petrolíferos, tudo desaguou nesta grande recessão, mas é verdade que, ao mesmo tempo, há uma mudança positiva que equilibra estes fatores negativos, mas cujos efeitos só vão sentir-se mais à frente, dentro de alguns anos”, explicou Ravi Bathia.

Em declarações à Lusa no dia seguinte a esta agência de rating ter piorado a Perspetiva de Evolução da economia, de Estável para Negativa, Ravi Bathia sublinhou que a acumulação de dívida pública é um dos maiores problemas do país.

“Neste momento os fatores negativos tiveram um impacto muito forte, e com a liberalização da taxa de câmbio, já vimos um grande aumento da dívida pública em percentagem do PIB, e como muita dessa dívida é em moeda externa, os rácios dispararam, e o nível é muito alto”, disse o analista responsável por Angola, que é também um dos diretores do departamento de análise de crédito soberano.

Na segunda-feira, a S&P anunciou que tinha baixado o ‘Outlook’ de Angola, mantendo o país abaixo do nível de recomendação de investimento, ou junk, como é geralmente conhecido.

Questionado sobre a razão de esperar um desenvolvimento positivo na economia nos próximos anos e, ao mesmo tempo, descer a Perspetiva de Evolução da economia, Bathia explicou que é uma questão de tempo e acrescentou que as medidas negociadas com o Fundo Monetário Internacional ao abrigo do programa de ajuda financeira no valor de 3,7 mil milhões de dólares vão demorar tempo a surtir efeito.

“Há um ímpeto muito positivo de reformas, como na área da concorrência, separar a Sonangol das concessões petrolíferas, o que é um desenvolvimento positivo, e o FMI deverá ajudar nas reformas positivas, ajudando a médio prazo, mas infelizmente Angola foi muito atingida pela descida dos preços do petróleo e pela falta de aposta e investimento nos blocos petrolíferos”, disse o analista na entrevista telefónica à Lusa.

“Em resumo, volume de dívida disparou”, concluiu o analista, sublinhando que só as dívidas atrasadas representam 4% do PIB, e alertando para a existência de uma dívida de 2,1 mil milhões de dólares que Angola deve a um banco comercial, mas sobre a qual não existe informação disponível, “talvez por haver um acordo de confidencialidade”.

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