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A história do que não fomos

A história do que não fomos

Todos sentimos que a vida não é uma estrada em linha recta. A história do que não fomos é tão importante como o relato do que o que acabámos por ser. É preciso que alguém a conte - Opinião , Sábado.

Demasiados livros de História, filmes ou romances prestam atenção ao novelo cronológico das nossas vidas. E os fios quebrados das estórias que não vivemos? Todos sentimos que a vida não é uma estrada em linha recta. A vida é um mapa precário e aleatório de caminhos íngremes, estradas secundárias, troços de asfalto rodeado de belas copas de árvores, degraus cobertos por heras, trilhos de ervas daninhas, vias de um só sentido, becos sem saída. O mapa desenha-se, a tinta-da-china ou lápis de cera colorido, a partir dos troços que não tomámos, dos percursos onde não parámos, das bifurcações onde não virámos, dos cruzamentos em que hesitámos, das ruas que não percorremos.

A dúvida face a uma encruzilhada ditou os passos dos anos seguintes, por vezes décadas. Decisões instintivas de segundos ou semanas de recusa ponderada traçaram uma vida inteira. E o que não somos capazes de controlar, ou o que decidimos atribuir ao livre-arbítrio para não enlouquecermos, gizaram outras tantas biografias. O que teria acontecido se não tivéssemos rompido com a nossa paixão de adolescência? Caso mantivéssemos a amizade com alguém que nos suscitou dúvidas, e que não mais vimos? Se não tivéssemos decidido ter um filho? Se recusássemos o emprego que nos determinou a vida inteira para escolher um outro? Se travássemos um segundo mais tarde e o carro que seguia no sentido contrário nos batesse de frente?

A história do que não fomos é tão importante como o relato do que o que acabámos por ser. É preciso que alguém a conte.

Santos e ...

À data do fecho desta edição, o impasse na Venezuela continua: Nicolás Maduro, o carniceiro de Caracas, que destruiu o país com o beneplácito das Forças Armadas e tem todos os defeitos do antecessor Hugo Chávez, mas nenhuma das (raríssimas) qualidades, recusa-se a organizar eleições presidenciais livres. Juan Guaidó, agora "Presidente interino", viu a sua casa visitada pela polícia, enquanto a maioria da comunidade internacional lhe vai reconhecendo legitimidade para promover a ida às urnas. Num país onde a polícia é responsável por 27% dos homicídios e a Força de Acção Especial causou mais de 100 mortes em bairros pobres só no último meio ano, a chave do problema - à boa maneira da América Latina - são os militares. O início dos contactos da China com a oposição é uma esperança. Mas cuidado com a santidade de Guaidó: quantos movimentos de líderes populares autoproclamados acabaram longe da tirania que pretendiam derrubar?

... Pecadores

O caso do falso poema de Sophia de Mello Breyner é deliciosamente pecaminoso, e exemplar dos novos tempos digitais. De uma incontida foleirice pleonástica - "Há mulheres que trazem o mar nos olhos/pela grandeza da imensidão da alma" -, O Mar dos Meus Olhos, de que todos desconhecem a autoria mas que o Portal da Literatura cita como sendo de Sophia, já foi traduzido para outras línguas após assassinar a nossa, emocionando jornalistas culturais. Surge em publicidade ao nudismo, vídeos de surfistas no YouTube, sites dedicados ao paranormal, jornais de reformados da EDP, peças de teatro, teses de doutoramento sobre a estrutura genética de certos crustáceos e artigos de revistas académicas, assinados por doutores em Literatura Comparada, onde constitui prova da "qualidade inquestionável" de Sophia. Se há mar e mar, há muitos que deviam ir e não voltar.

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico

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