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O mapa e o território no livro “Cinco Meninos, Cinco Ratos”, de Gonçalo M. Tavares

O mapa e o território no livro “Cinco Meninos, Cinco Ratos”, de Gonçalo M. Tavares

Em Cinco Meninos, Cinco Ratos, segundo volume da série Mitologias, Gonçalo M. Tavares propõe um mundo sem explicações ou lógicas físicas e morais. Um universo de espanto
"Cinco Meninos, Cinco Ratos" (Bertrand, 224 págs., €16,60) tem 20 partes e 64 capítulos. É um mosaico literário (romance de contos ou mesmo de microcosmos) para percorrer demoradamente

"Cinco Meninos, Cinco Ratos" (Bertrand, 224 págs., €16,60) tem 20 partes e 64 capítulos. É um mosaico literário (romance de contos ou mesmo de microcosmos) para percorrer demoradamente

Se há escritores que definem, desde os primeiros romances, um universo que depois escavam com a intensidade de um mineiro, outros há que se armam da ousadia de um navegador. É o caso de Gonçalo M. Tavares, cuja obra assenta, em parte, na ideia de experimentação. Com ele já fomos até à Índia, numa reinvenção da epopeia clássica, viajámos à velocidade do pensamento (em Canções Mexicanas) e investigámos temas de dança, ciência ou música.

Também assim se pode ler Cinco Meninos, Cinco Ratos, segundo volume da série Mitologias (inaugurada, em 2017, com A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado). É a “extensão do domínio de luta literária” ou, para usar outra expressão do escritor Michel Houellebecq, um novo território de um mapa em constante ampliação. Este continente define-se pela citação de Walter Benjamin que encerra o livro anterior: “Todas as manhãs somos informados sobre o que de novo acontece à superfície da Terra. E, no entanto, somos cada vez mais pobres de histórias de espanto.” Cinco Meninos, Cinco Ratos recusa a torrente de explicações que envolve qualquer acontecimento na sociedade da informação. As personagens conhecem-se pelos seus principais atributos (Nómada, Velocidade, Povo-Já-Amaldiçoado) e nem todas as leis da física e, sobretudo, da moral são respeitadas.

Como os grandes criadores de mitos da Antiguidade, Gonçalo M. Tavares dispõe-se a compreender o mundo como se sobre ele lançasse o primeiríssimo olhar. Embora seja possível fazer ligações com a História do século XX, não há referências externas nem comentários ao destino (tantas vezes cruel) dos protagonistas. É uma alegoria tão forte quanto aquela que Gonçalo M. Tavares apresentava em Breves Notas sobre Literatura-Bloom: um mapa que “não nos faz andar menos até ao destino” mas “andar mais, ou melhor”.

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