expresso.ptVítor Matos - 10 fev 00:44

O Pedro tem um partido. E então?

O Pedro tem um partido. E então?

Santana Lopes fez tantos discursos em congressos, falou tanto na televisão, disse tanta coisa, que a intervenção fundadora do líder foi mais um discurso "do Pedro". No seu primeiro dia, o Aliança não provou ser a novidade que vá mudar a política portuguesa.

Falava-se nisto há mais de vinte anos e chegou o dia. Pedro Santana Lopes tem o partido dele: não é o PSL, mas é Social e Liberal, e é do Pedro. O fundador do Aliança passou o dia da inauguração oficial em Évora a dar o palco a outros, para não parecer que este era o partido de um homem só, embora fosse. O momento era de Santana, mas devia ter servido para percebermos melhor a razão fundamental de surgir um partido novo, com mais profundidade que a necessidade de fazer “política bonita”. A defesa do fim do Estado social é a marca ideológica mais definidora deste começo. De resto, Santana foi Santana de sempre. O Aliança ainda é mais uma manobra no jogo político do que uma novidade estrutural.

Santana Lopes fez tantos discursos em congressos, falou tanto na televisão, disse tanta coisa nos últimos anos, que a sua intervenção fundadora foi mais um discurso “do Pedro”, como tantos os que ouvimos nestes anos todos. Não nos deu aquela coisa nova que se espera de uma novidade. Pelo menos revela coerência: disse coisas que já dizia quando era primeiro-ministro, ou em que foi insistindo ao longo dos anos. Não conseguiu passar a ideia de que o partido é mais do que circunstancial - marcado sobretudo pelas circunstâncias do momento político, em vez de representar uma mudança na política portuguesa ou mesmo na direita.

“A política é a arte de ocupar os espaços”, disse o ex-ministro Martins da Cruz no púlpito. O Aliança está à procura do seu, e vai ocupando os vazios que os outros deixam. Para já, vale pelo facto de existir - já não é pouco - e de ter à cabeça uma figura mediática e com enorme notoriedade. Vale sobretudo porque haverá um novo partido com deputados em São Bento, com quem será preciso contar para governar à direita ou para as contas da esquerda. O sucesso da Aliança será concretizado se somar no bolo da direita em vez de apenas dividir.

Do ponto de vista ideológico, para já, distingue-se do PSD porque Rui Rio encostou à esquerda, mas não é uma cisão com o PSD histórico: o discurso de Santana seria aplaudido de pé no seu antigo partido como foi tantas vezes, e outro líder laranja que cubra esta parada não será defenestrado só por causa do posicionamento ideológico. Depois, distingue-se hoje do CDS porque Assunção Cristas também caminhou para o centro de modo a ter mais mercado eleitoral e camuflou a componente ideológica que Santana assume sem complexos.

Então, o que muda? Nas questões de fundo, a maior novidade é Santana poder arrastar a direita para a direita, com uma ideia raramente assumida: acabar com o Estado social para o substituir pelo Estado solidário, na sua formulação. A clareza é de louvar. Ou seja, liberalizar em setores sensíveis como na saúde ou na segurança social, dar um papel aos privados a par do Estado sem os complexos do PSD e o gradualismo aparente do CDS. Faz uma clivagem. Mas se o eixo do discurso fosse este, teria mercado eleitoral? Seria difícil.

Até o que se ouviu sobre Europa, a quem Santana queria bater o pé, é muito moderado. O penúltimo congresso do ultra-europeísta PS até foi mais crítico para Bruxelas.

Na tática política é onde Santana joga melhor. Na crítica polarizadora com o Governo cobre as falhas de Rio, e no distanciamento do popularíssimo Marcelo, ocupa um espaço que não existe (prepara-se para o enfrentar em 2021?). Nas Europeias fará o tirocínio com um candidato que é uma incógnita - fala às elites, não ao povo -, nas regionais da Madeira pode causar sérias dores de cabeça ao PSD e nas legislativas uma votação que não passe os 4% já causa estragos suficientes à direita.

Olhando para os cabelos brancos da maioria dos delegados ali em baixo, o partido é composto sobretudo por gente mais velha - acima dos 50 anos, alguns na casa dos 40. Com poucas mulheres. E sem uma participação evidente de jovens (não confundir isto com juventudes partidárias). Ainda é um embrião. Mas pelo que se viu no primeiro dia - quem já passou por dezenas de congressos partidários percebe isto -, não há uma marca distintiva que demonstre que o Aliança junta uma energia vital para uma mudança na vida política. O populismo fácil que vemos noutros países seria uma marca diferenciadora que não entrou na Arena de Évora. É um ponto a favor. De resto, é o projeto de um homem que teve pelo menos o mérito de mobilizar centenas de pessoas que nunca tinham feito política.

Mas se o projeto vingar e sobreviver ao fundador, Santana pode dar este dia por bem empregue.

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