www.jornaldenegocios.ptAntónio Moita - 10 fev 18:00

RIR até dizer CHEGA

RIR até dizer CHEGA

Enquanto por toda a Europa foram surgindo novos movimentos políticos ao longo dos últimos anos, em Portugal, como habitualmente, tudo levou mais tempo a chegar. Tardou, mas não falhou.

Depois do surgimento de um antigo projeto pessoal de Santana Lopes, eis que mais duas forças políticas estão a nascer. O CHEGA do polémico comentador desportivo/criminal da CMTV e o RIR de Vitorino Silva, antigo candidato presidencial e participante em programas de entretenimento, mais conhecido por Tino de Rans. Ao que parece, no caso destes últimos, não houve dificuldade em recolher as assinaturas necessárias à formalização da sua constituição.

As redes sociais, um ou outro "outdoor" e algumas frases de combate parecem ser suficientes para fazer chegar a mensagem. Enquanto Ventura quer "castrar os pedófilos quimicamente, prender para sempre homicidas de primeiro grau e violadores, reduzir os deputados para 100", já Tino de Rans pretende "reagir, incluir e reciclar". O primeiro afirma-se pela direita ou, como diz o próprio, "se isto é extrema-direita, então talvez sejamos de extrema-direita". O segundo, mais cândido, diz querer um "partido 360" feito de proximidade com os cidadãos.

Vivemos um ambiente político crispado, partidos pouco representativos, líderes desacreditados, instituições em crise. À exceção do Presidente da República, e nem este está isento de crítica, a generalidade dos atores políticos não passa com nota positiva na apreciação dos cidadãos. A abstenção é cada vez mais elevada e nem mesmo entre aqueles que votam se percebe especial entusiasmo com o cumprimento deste dever cívico. O sentimento de revolta e a vontade de protestar é claramente mais vincada do que a adesão aos projetos e aos candidatos que têm vindo a ser submetidos a sufrágio.

Há assim um espaço eleitoral composto por eleitores ativos descontentes e de abstencionistas mais ou menos refratários. É aqui que os novos atores vão tentar a sua sorte. Não é impossível que venham a ser bem-sucedidos. Se tal acontecer passarão a estar representados no Parlamento Europeu e na Assembleia da República onde serão uma voz crítica permanente não apenas ao governo que esteja em funções, mas também ao sistema político e às instituições em geral.

Se o sistema não se reformar a tempo e os partidos não encontrarem inspiração para propor novos e mais motivantes caminhos, é certo que estes movimentos vão crescer. Talvez isso faça parte de um inevitável processo de regeneração. Mas será mais avisado perceber, enquanto é tempo, que os perigos para a democracia não são negligenciáveis e que a resposta não está na desvalorização do fenómeno. Chega de rir com este assunto.

Jurista

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