www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 14 jan 11:52

A Mentira – a amante que (quase) ninguém dispensa

A Mentira – a amante que (quase) ninguém dispensa

Todos os dias pintavam aquela parede. Pai e irmão construíam uma mentira diária. Há mentiras que são boas, que são provas de amor. - Opinião , Sábado.

Todos os dias pintavam aquela parede. Pai e irmão construíam uma mentira diária. Há mentiras que são boas, que são provas de amor. Por isso, quando tenho saudades de uma certa candura, lá vou recarregar baterias nesse doce filme "A minha namorada tem amnésia" (no título original, de forma mais consistente com o tema desta crónica, "50 First Dates").

E a verdade é que adoramos mentiras. Elas são muito convenientes. Evitam o choque e permitem-nos habituar alguém devagarinho a uma ideia; permitem-nos viver duas vidas perante as opiniões que os outros (espelho de nós próprios) não dispensam sobre a vida alheia; tornam-nos aceitáveis nessa normalização do que, num certo tempo e num certo meio, se vai impondo. Por isso, eu não deixo que alguns clientes fujam, considerando-me desleixado, pouco aprumado, mas, sobretudo, pouco profissional por não usar fato e gravata. Não desgosto de ostentar a vestimenta, que, no meu caso, à falta de outros atributos, até me favorece, mas, quando os meus poros se abrem numa torrente que me inunda a roupa no agosto português, sinto-me só estúpido. Porém, é o mundo em que vivo e gosto demasiado do que faço para não encharcar umas quantas camisas.

Yann Moix, escritor francês, tem 50 anos e gosta de mulheres mais novas. Uma enorme surpresa, evidentemente. Ele vai mais longe e diz que não se sente atraído por mulheres da idade dele. Há sempre a Monica Belluci, pelo que eu sou mais abrangente quanto a faixas etárias. Mas o ponto não é esse. O ponto está na onda de indignação. O que ele disse é simpático? Não é. O que ele disse merece o acordo de todos? Repito: Monica Belluci. Ele pode não se sentir atraído por mulheres com determinadas características? Bom… se eu ficasse ofendido por cada mulher que não se sente atraída por mim, por esta ou aquela razão – ou mesmo por razão nenhuma –, chamava-me "Pedro, o Ofendido"…

A indignação resulta de nos dizermos avessos a uma normalização e, sobretudo, de proclamarmos que só interessa a beleza interior. Isso é treta (mentira, portanto). A maior parte das indignadas foram ao cabeleireiro nas últimas semanas. Não apenas para cortar o cabelo ou lavá-lo, mas para mais qualquer coisa. Tal como eu não deixo que, aos 44 anos, me brotem pelos dos ouvidos ou do nariz essencialmente por razões higiénicas – já que tomo o meu banhinho diário –, mas porque não é o mais agradável à vista. Por isso, as pessoas menos impactantes fisicamente acabam por conquistar os outros após algum convívio e diálogo que se encontra em estradas comuns. Já as apelativas têm um cartão de visita que lhes permite todos os diálogos. Por isso, também, a maior parte dos anúncios, os rostos que vendem produtos, assumem um certo padrão de beleza, com diferentes faixas etárias no masculino e no feminino. É simpático para quem não está nesses padrões? Não. Mas eu aceito que não sou o George Clooney ou o Idris Elba e não me indigno por outros(as) considerarem que não vale a pena sequer comparar.

Não me parece que o escritor tenha sido delicado. Escusávamos de saber a sua opinião (a sua verdade) nesse aspeto. Mas a onda de indignação é excessiva.

Muitos de nós nunca diríamos o que ele disse, seja porque não concordamos (não me canso de repetir que há um mundo de "Monicas Belluci" para quem quiser ver a beleza interior, mas também exterior, de qualquer idade…), seja porque, quando é preciso, vamos encharcando as nossas camisas com o protesto do corpo nesse agosto português.

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