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O cante chegou a Portugal, nos Estados Unidos

O cante chegou a Portugal, nos Estados Unidos

Em Manassas, o Rancho dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento mostrou o cante a portugueses que não o conheciam. Esta segunda-feira, o grupo actuará no Kennedy Center, em Washington, à boleia do festival Terras Sem Sombra, que tem os Estados Unid

Os cantadores preparam-se para entrar em cena e mostram-no a quem está no hall da associação. É ali mesmo que acabam de se trajar, um rodopiando enquanto outro segura a cinta que se ajustará à cintura, aquele ajeitando o chapéu na cabeça, aqueloutro apertando o lenço de seda ao pescoço ou vestindo a jaqueta que estava em falta.

São o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, fundado na década de 1980 naquela vila na zona de Serpa. E se cantar lhes é natural e o fazem em qualquer ocasião, basta juntarem-se alguns dos seus, isto dos concertos também já é tudo menos novidade para eles. Ao longo dos anos, correram Portugal de lés-a-lés, viajaram mundo fora. Não tarda estarão em palco, as várias gerações que os compõem tornadas um só corpo que se move nesse movimento tão característico do cante, com os braços enlaçados e os pés simulando a marcha nos campos de outros tempos.

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É oficial. Estamos em Portugal. Num espaço anexo ao edifício principal, há matraquilhos com Sporting de um lado e Benfica do outro, há uma mesa com cartas gastas por muita sueca e há um cinzeiro pousado porque aqui não há lugar para fundamentalismos anti-tabágicos. No bar, servem-se cafés expresso e a televisão passa futebol português.

É oficial, estamos nos Estados Unidos, mais propriamente em Manassas, nos arredores da capital americana, Washington DC. Foi cenário de duas batalhas históricas da Guerra Civil americana e aqui vive hoje uma pequena comunidade de imigrantes portugueses entre uma população de cerca de 40 mil habitantes. Lá fora, a neve cobre de branco as casas, as árvores e os carros. Lá dentro, no hall de entrada do edifício inaugurado em 1994 onde está instalado o Virginia Portuguese Community Center, fundado em 1987, uma galeria fotográfica exibe os presidentes que a associação teve ao longo da sua história, flanqueados, à direita, pelo presidente americano, Donald Trump, que tanto quanto sabemos nunca aqui esteve, e à esquerda, pelo presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, que, sem surpresas, já cá esteve – foi visita em Junho do ano passado, durante a sua visita oficial aos Estados Unidos.

É oficial, reformulemos. Estamos em Portugal (nos Estados Unidos), numa associação que é centro de convívio para a comunidade portuguesa. Celebram-se casamentos, baptizados e os feriados nacionais mais importantes, as pessoas reúnem-se (assim será nas próximas semanas) para uma matança do porco (sem a morte do dito no local) ou para um concerto de Dia dos Namorados, com Toy como estrela. Este domingo, dia de tempestade de neve que acrescenta mais uma preocupação a moradores e a autoridades para além do shutdown que se prolonga sem fim à vista, será especial. O país lá longe sentir-se-á mais perto. Este domingo, a comitiva do festival alentejano Terras sem Sombra passa pelo centro e ouvir-se-á cante alentejano pelas vozes do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento.

O Alentejo à distância

Já na segunda-feira, o grupo assinará um momento histórico, quando se apresentar no Millennium Stage do prestigiado Kennedy Center. Aí, será o cante a mostrar-se aos Estados Unidos, prosseguindo aquilo que José António Falcão, director-geral do Terras Sem Sombra, disse em Manassas ser a sua missão: “internacionalizar o Alentejo”. Domingo, por sua vez, foi dia de o cante se mostrar ao Portugal da América. De se mostrar ao homem de 56 anos que se diz mais americano do que português – e que logo clarifica que regressa a Braga quatro a cinco vezes por ano e que só disse aquilo porque está nos Estados Unidos há mais anos do que aqueles que viveu em Portugal. De se mostrar aos lusodescendentes, estudantes do secundário, que têm por certo que aqui farão a sua vida, e à cozinheira de Algodor, aldeia de Mértola, que emigrou tardiamente, aos 54 anos, e que, dez anos depois, se reencontrou com o seu Alentejo, mantido tão dolorosamente distante – indocumentada, está impossibilitada de visitar a terra onde nasceu, sob pena de não poder regressar àquela onde refez a vida.

A actuação no centro português de Manassas foi a primeira acção pública do grupo nesta viagem. Sob o impulso do festival que, até Julho, unirá música, património e biodiversidade em várias localidades alentejanas (com extensão, nesta sua 15.ª edição, à Extremadura espanhola), vieram até Washington, capital do país convidado do Terras Sem Sombra, os elementos do emblemático grupo da Aldeia Nova de São Bento, bem como vários autarcas e empresários alentejanos ligados à produção vinícola ou de carne, à agricultura, ao turismo ou ao Porto de Sines, que se reunirão com agentes políticos e empresariais americanos. “É uma prova do que é a diplomacia dos nossos tempos”, dirá em Manassas, à imprensa portuguesa, o Embaixador de Portugal em Washington, Domingos Fezas Vital. Ou seja, uma diplomacia espoletada por uma área específica, mas trabalhada em várias vertentes. Neste caso, assinalou, “foi a cultura a abrir a porta” para uma acção “que é também económica, política e institucional”.

PÚBLICO - Foto O cante alentejano no Virginia Portuguese Community Center DR

A cultura a abrir a porta e Domingos Fezas Vital a levantar-se no seu lugar para aplaudir O meu chapéu, moda nova sobre memória e herança, que, em Manassas, foi dedicada ao diplomata. Já ia avançada a actuação quando se ouviram os versos da moda que João Monge ofereceu ao Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento: “Podes pôr o meu chapéu/ A mais valiosa herança/ Já foi de quem está no céu/ E não me sai da lembrança”. Já os cantadores tinham há muito entrado sala dentro no seu fato tradicional, o fato domingueiro, o traje de gala típico no início do século XX. Já se tinham corrido as cortinas e já se tinham cantado as Janeiras, já a viola campaniça tocada por Pedro Mestre, que além de cantador é o ensaiador do grupo, tinha acompanhado a Moda do Entrudo, já a Pomba branca e os amores de Fui colher uma romã se haviam ouvido.

Ouve-se o hino português em versão cante e todo o público se levanta das cadeiras – o momento é solene. Chega Eu ouvi o passarinho, tradicional que não pertence ao repertório do grupo, e perceber-se-á por que o incluem no alinhamento das actuações fora de casa – “nunca tínhamos ouvido cante e gostámos muito”, dizem ao PÚBLICO duas imigrantes minhotas no final da actuação”, parando para acrescentar que conheciam "a do passarinho, toda a gente conhece”. Por essa altura, Carlos Martins, presidente do clube, estava descansado. À chegada da comitiva, encontrámo-lo tão hospitaleiro quanto receoso. Era uma honra para o clube acolher os cantadores e ele, beirão da Anadia, estava entusiasmado por ouvir cante ao vivo pela primeira vez, mas temia que a tempestade de neve afastasse público da casa. Uma hora depois, já os receios tinham desaparecido.

O coração nas mãos

Carlos Martins ouvira descansado aquelas polifonias em que o ponto e o alto ondulam as melodias em melismas expressivos que o coro transforma em corpo sólido e majestoso. Seguira com os restantes na sala aqueles versos em que a dor e a alegria, o lamento e a exaltação, são duas faces da mesma moeda – é a vida, afinal, aquilo que o cante canta. A comunidade do clube não faltara à chamada. E ali, naquele espaço que é refúgio familiar, um encontro com as raízes, a maioria daquela comunidade descobriu algo novo.

PÚBLICO - Foto À actuação para a comunidade portuguesa no clube de Manassas segue-se, esta segunda-feira, um concerto no prestigiado Kennedy Center, em Washington DR

A maior parte dos imigrantes que veio ouvir o cante tem origens no Norte de Portugal. No bar, um flaviense festeja um golo do seu Desportivo de Chaves em partida que segue pela televisão. No anexo exterior, Emily Rodrigues diz ao PÚBLICO: “Estamos mais habituados a viras, concertinas, coisas do Minho.” Nasceu nos Estados Unidos, é estudante na escola secundária e empregada num restaurante português da zona. De Portugal conhece os Verões das férias anuais e o convívio semanal na associação. Em Portugal, os rapazes ao lado de Emily, Miguel Costa e Steven Martin, gostam do convívio com a família e da legislação que lhes permite, elenca Miguel entre risos tímidos, “ir a discotecas e beber com os amigos” – “aqui só aos 21 anos”, lamenta. Agora, os três juntaram o cante às coisas do país que conhecem e apreciam. “É diferente, foi fixe”, resume Emily.

Manuel Costa, que encontrámos antes do concerto – “nunca ouvi cante, mas sendo do clube, claro que vou ver” –, lembrar-se-ia certamente de coisas diferentes acerca do país em que nasceu há 56 anos. Bracarense que desceu até Lisboa aos 14 anos, para trabalhar na construção, chegou aos 20 aos Estados Unidos. O ofício manteve-se o mesmo, já a vida no outro lado do Atlântico acabou por moldá-lo noutra forma.

Charuto no canto da boca, balão de whisky na mão, conta da chegada a Newark e da mudança posterior para Nova Iorque. Mede-nos a curiosidade quando pergunta se conhecemos John Gotti, figura destacada da Máfia nova-iorquina nas décadas de 1970 e 1980 – “trabalhei em construção para ele”, sorri misteriosamente. Chegou a Manassas seguindo a rota do emprego. “No tempo do George Bush pai não havia trabalho. Tive de ir para onde havia.” Aqui chegou. É em Manassas que vive há muito. Continua a trabalhar na área da construção, como quase todos os portugueses na zona. “Casei com uma americana, os filhos são americanos”, diz, antes daquele “e eu já sou mais americano di que português” proferido com o sotaque legado por 36 anos de Estados Unidos, e corrigido logo depois. Visita Portugal quatro a cinco vezes por ano. Não falha a Páscoa. “Para mim, é a festa mais bonita de todas.”

Mas enquanto Manuel Sousa nos falava da sua vida e das suas viagens, uma mulher impacientava-se. Vemo-la durante o almoço a trazer mais comida para as travessas, vemo-la preocupada quando teme que a avidez dos presentes possa levar à escassez de canja de galinha, feijoada de marisco ou frango frito. Mariana Damas é a cozinheira do Virginia Portuguese Community Center. Mariana é alentejana – “normalmente os alentejanos aqui estão em minoria, hoje não”, dirá ao PÚBLICO. A comida não faltou, ela ficou descansada e, enquanto os cantadores interpretavam mais uma moda, seguia-lhes as vozes, filmava com o telemóvel, emocionava-se. Nasceu em Algodor, Mértola, há 64 anos. O concerto foi para ela muito especial. Pôde matar saudades de um país, o seu, a que não pode voltar.

Mariana, tal como a filha de 24 anos – emigraram juntas há dez anos –​, é uma emigrante ilegal. “Não consigo ter os documentos. Vivo sempre com o coração nas mãos, com medo de ser deportada”, suspira. Fala da terrível dor que ficou quando lhe morreu a mãe, lá longe em Portugal, e ela sem poder viajar para se despedir. Fala do pânico que sentiu quando um dia, de madrugada depois do trabalho, foi parada pela polícia – “mas o agente foi impecável, viu-me a tremer e a chorar, percebeu o que se passava e deixou-me seguir”. Fala de como o seu medo aumentou com a postura perante a imigração seguida pela Administração Trump, quando ela confiava que, se fossem seguidos os passos da presidência anterior, a sua situação acabaria por ser resolvida. O seu desejo, diz, é “que o país volte ao normal, como estava antes”.

O PÚBLICO viajou a convite do Festival Terras Sem Sombra

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