observador.ptPaulo Rodrigues Ferreira - 13 jan 00:02

Os novos bárbaros – uma cultura de destruição

Os novos bárbaros – uma cultura de destruição

Que desejam estes novos bárbaros? Espalhar rancor, ressentimento, divulgar mentiras. Que todos sofram o mesmo que eles sofrem. Combater a globalização ou o cosmopolitismo, a que chamam "globalismo".

Os novos bárbaros que atacam este decadente império romano ocidental não são propriamente novos ou originais, alimentam-se de múltiplas fontes e estratégias caducas, e foram já identificados por autores de relevo, que sofreram na pele as consequências da barbárie. Estes novos bárbaros foram, por exemplo, descritos em Origens do Totalitarismo (1951), de Hannah Arendt, como desenraizados, fracassados, desajustados, pouco consistentes em termos intelectuais, propensos �� disparate e à desinformação. Falamos, no fundo, da ralé, de gente que não encontrou um lugar na sociedade, que aspirou a uma fama ou relevância que não chegou. Ódio é o elemento mais saliente que a ralé tem para oferecer.

Já nos tempos de Arendt, estas pessoas provinham do nada, existiam nas sobras do mundo, e encontravam na figura de um ditador uma missão de vida, um sentido para o futuro. Ainda que não possuísse substância ou valor intelectual que lhe permitisse ascender a posições políticas ou comandar os destinos de uma nação, esta maralha ou vórtice de mediania impôs à Europa e ao mundo uma carga de destruição sem limites. Os desajustados do século XXI continuam a ser irrelevantes do ponto de vista do pensamento, nascem na crise, cultivam a crise. Donald Trump, esse fenómeno tão estranho para um europeu, que cada vez menos sentido faz para quem deseja uma realidade estável, abundante, tolerante, é suportado por estes novos bárbaros. Que desejam estes novos bárbaros? Espalhar rancor, ressentimento, divulgar mentiras. Que todos sofram o mesmo que eles sofrem. Dissertam sobre os males do “globalismo” — batendo-se contra a globalização ou o cosmopolitismo, a “direita alternativa” (alternativa é eufemismo orwelliano para mentira) americana, que vive destituída de maneiras e moral, já para não falar de senso comum, ridiculariza toda a nossa história contemporânea, como se guardasse uma solução para o futuro que mais ninguém conhece. Terminando com o terror do globalismo, perseguindo imigrantes, roubando direitos a minorias, professando o primado do macho alfa, a nova direita americana, liderada por personalidades intelectualmente inúteis, promete o regresso à grandeza, aos tempos do carvão, dos comboios a vapor, da produção metalúrgica. Promete o regresso ao sonho americano por via da expulsão do imigrante, dos cortes na educação e nos serviços de saúde, no fundo, da disseminação do ódio.

Também quando olhamos para o Brasil, ficamos perplexos com a existência de uma nova direita que jura a pés juntos que a escola retornará ao rigor se os marxistas forem expurgados da academia. E ao condenarem o marxismo académico, ao demonizarem as universidades públicas e os jornais — todos rotulados de marxistas — , estes novos agentes políticos e culturais baseiam-se em mentiras que não lhes custa repetir, porque para a turba a verdade não importa. A mentira é que as escolas sejam um bebedouro marxista, que a crise moral e de valores instaurada pelo PT esteja ligada às universidades e ao ensino. Então, propõe-se que as aulas comecem a ser filmadas para perceber se o professor dissemina ou não a mensagem comunista. Outra causa desta nova direita é o famoso “kit gay”. Através de uma inexistência — o suposto kit gay que teria como propósito a missionação da homossexualidade nas escolas —, aprofundou-se ainda mais um ódio irracional contra o academismo, contra a universidade.

Interessa a estes novos intelectuais, a estes novos actores políticos, mesmo aos mais irrelevantes, como Alex Jones, nos Estados Unidos, ou Alexandre Frota, no Brasil, que a confusão seja permanente. Que a população se sinta ressentida e revoltada, que viva em permanente desassossego, como eles próprios viveram. Qualquer posição contrária é descrita como “marxista”. Um artigo contra um Olavo de Carvalho, outro messias da destruição, só existe porque o autor que o escreveu é marxista, académico ou, golpe supremo, homossexual — a homossexualidade é para a ralé razão para que a pessoa esteja errada logo à partida. É, pois, caso para perguntar se há solução para esta crueldade crescente, esta profanação de valores tidos por certos no ocidente, esta tentativa de lavagem cerebral, de atirar ao mar qualquer nome consagrado que não sirva os propósitos do ressentimento.

Doutorado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa; Escritor e Professor de Literatura na Universidade da Carolina do Norte-Chapel Hill

10
1