www.publico.ptana.sa.lopes@publico.pt - 13 jan 06:45

Rio: um “shot” depois do ano zero

Rio: um “shot” depois do ano zero

A vantagem do desafio de Luís Montenegro foi podermos ter ontem visto Rui Rio a funcionar sob um shot energético que ninguém lhe tinha conseguido encontrar durante um ano inteirinho.

Por muito mau que seja Luís Montenegro, o challenger do momento só encontrou margem para o desafio porque o primeiro ano de Rio foi uma nulidade. Com palavras e actos, Rui Rio deixou que se instalasse dentro do PSD a ideia de que trabalhava, não para ganhar as eleições, mas para ser um número dois de António Costa, qualquer que fosse o acordo pós-eleitoral escolhido. A oposição foi praticamente inexistente, a contradição entre a ideia do "banho de ética" e a prática foi terrível e, do alto da sua arrogância, o líder do PSD escolheu um percurso incompreensível para o comum dos mortais. Os mortais responderam-lhe encostando nas sondagens o PSD aos limites mínimos. Se o partido estava num estado de fragilidade absoluta na liderança de Pedro Passos Coelho (que passou dois anos em estado de choque e sem reagir depois de Costa lhe ter capturado o lugar de primeiro-ministro), as coisas não melhoraram. Num frenesim desnecessário de se distanciar do que tinha sido a liderança de Passos (desnecessário porque inútil), Rio tentou uma alteração radical da linguagem do passismo e tal como o antecessor falhou clamorosamente na oposição ao Governo PS. 

Rio respondeu ontem a Montenegro criticando o timing da candidatura à liderança, por prejudicar o partido em ano eleitoral. A verdade é que a actuação de Rio desde o início do mandato tem prejudicado o partido para as eleições. Em termos de prejuízos, estão bem um para o outro. E é um enorme prejuízo para o regular funcionamento das instituições o facto de o PSD, partido fundador do regime democrático, estar em vias de desaparecimento eleitoral. Como a sociedade tem horror ao vazio, sabe-se lá o que vem substituir o PSD se continuar em curso a marcha para a irrelevância. 

Uma vez Rio disse que era melhor quando se sentia acossado. De facto, na conferência de imprensa de ontem mostrou uma capacidade de ir à luta que nunca tinha mostrado na actividade de oposição ao Governo. A apresentação de uma moção de confiança é uma forma de corresponder ao desafio – não aceitando directas, mas aceitando ir a jogo no terreno do Conselho Nacional, eventualmente mais confortável mas totalmente imprevisível. Se o desafio de Luís Montenegro despoletar a capacidade de oposição de Rui Rio, já foi um serviço prestado ao PSD.

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