expresso.ptexpresso.pt - 12 jan 14:00

China vai ultrapassar os Estados Unidos na ciência e na tecnologia?

China vai ultrapassar os Estados Unidos na ciência e na tecnologia?

Uma das grandes vantagens da China é a sua gigantesca população, porque os dados pessoais são o novo petróleo

A pergunta é cada vez mais pertinente, mas não é fácil dar uma resposta global, apesar de a História nos ensinar que a China foi sempre a maior potência mundial desde a Antiguidade, exceto nos últimos 300 anos. Mas vamos a áreas concretas. Na Inteligência Artificial (IA), por exemplo, que tem um grande potencial para mudar radicalmente muitas indústrias e o mercado de trabalho, a consultora britânica PricewaterhouseCoopers (PwC) antecipa que nos próximos dez anos o PIB mundial vai crescer 14% por causa da IA, isto é, 13,6 biliões de euros, com a China a ser responsável por seis biliões e os EUA por três biliões.

Uma das extraordinárias vantagens competitivas da China é a sua população: 1,4 mil milhões de habitantes, quatro vezes maior do que a população norte-americana (327 milhões). Porquê? Por causa dos dados. “A China tem feito um trabalho fantástico na mudança para uma economia sem pagamentos em dinheiro, onde se pode pagar tudo através do telemóvel. E quando isto acontece há uma acumulação de enormes quantidades de dados da sua população”, explicou recentemente ao canal de televisão CNCB o especialista Thomas Friedman.

“Os dados são o novo petróleo e por isso a China é a nova Arábia Saudita”, afirmou Kai-Fu Lee num outro programa do CNCB. O autor chinês do livro “Superpotências da IA: China, Silicon Valley e a Nova Ordem Mundial”, considerado um dos maiores especialistas mundiais em IA, esclareceu que se fizermos uma comparação entre Estados Unidos e China na investigação em IA — número de artigos científicos publicados, excelência dos resultados e outros indicadores —, “os EUA estão e continuarão a estar à frente durante a próxima década”. Até porque têm uma grande rede de universidades que consegue atrair os melhores talentos do mundo, incluindo chineses.

Mas se medirmos “o valor criado, a capitalização do mercado, o número de utilizadores ou os rendimentos, a China já está provavelmente à frente”, tendo evoluído “a um ritmo incrivelmente rápido”. As vantagens competitivas do país mais populoso do mundo devem-se também ao facto de não ter as mesmas leis restritivas sobre privacidade que existem nos Estados Unidos ou na Europa. Assim, é mais fácil para as empresas recolherem dados pessoais na China. Além disso, o Governo de Pequim anunciou há três meses um plano ambicioso para criar “a nova geração da Inteligência Artificial”.

Ambições sem limites

A revista científica britânica “Nature” prevê que em 2019 “a China pode emergir como o maior investidor do mundo em investigação e desenvolvimento [I&D]”. Na exploração espacial, que tem sempre um grande impacto mediático e estratégico global, as ambições do país não têm limites e, por ser uma ditadura, não estão condicionadas às balizas orçamentais decididas por instituições democráticas como o Congresso ou o Senado nos EUA — em relação à NASA ou à Defesa.

O ano de 2019 não podia ter começado da melhor forma, com a nave espacial não tripulada chinesa “Chang’e 4” a pousar no dia 3 de janeiro no lado oculto da Lua, um feito inédito a nível mundial. Como disse então à BBC o astrónomo chinês Ye Quanhzi, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), foi a primeira vez que a China “tentou uma coisa que as outras potências espaciais não tentaram”. A “Chang’e 4” é a quarta nave do programa lunar chinês e as duas próximas irão recolher amostras do solo. Mas o país quer pôr astronautas na Lua, construir uma estação espacial concorrente da Estação Espacial Internacional — que deve o seu sucesso à cooperação entre EUA, Rússia, Europa, Japão e Canadá — e colocar uma nave na superfície de Marte. Será que o primeiro ser humano a pisar o solo do Planeta Vermelho falará chinês?

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