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Sophia de Mello Breyner: O centenário da poetisa situada para lá do tempo

Sophia de Mello Breyner: O centenário da poetisa situada para lá do tempo

No início das celebrações dos 100 anos de Sophia de Mello Breyner, amigos, familiares e admiradores evocam a figura única e especial de uma "autêntica princesa da literatura".

Tantos anos depois, Maria Teresa Horta ainda se lembra do impacto que Sophia de Mello Breyner teve em si no momento em que a conheceu. "Quando cheguei à escrita, ela abriu-me os braços de uma forma espantosa", relembra a poetisa, ainda hoje impressionada com "a finura da escrita e a sensibilidade espantosa de uma autêntica princesa da literatura".

A amizade entre ambas foi instantânea, apesar dos 20 anos de diferença, e seria reforçada com um convívio que passou pelas intermináveis conversas nas praias algarvias, com a poesia a dominar as atenções. "Havia sempre algo de encantatório nela, que dava uma dimensão diferente ao que dizia", relembra Maria Teresa Horta, que acrescenta, todavia, que embora Sophia transmitisse a sensação de que "pairava acima dos demais", não deixava também de "ser uma mulher como todos nós". "Lembro-me de ouvi-la dizer que, no início, até escrevia poemas enquanto fazia bacalhau com batatas. Não poderíamos ouvir o mesmo de Torga ou Mourão-Ferreira, certamente", ironiza.

Nesse início dos anos 60, Sophia já era "a" Sophia, a autora acolhida com entusiasmo pelos leitores e pela crítica desde a sua estreia, em 1944, com "Poesia".

Biografia a caminho

Nas seis décadas seguintes - a autora de "Coral" faleceu em 2004, a poucos meses de completar 85 anos -, Sophia publicou mais de meia centena de títulos, somou leitores e admiradores e arrecadou distinções de todos os géneros. Só não alterou mesmo o tom cristalino e depurado que atravessa os seus livros.

É esse "extremo sentido de unidade", que mais impressiona Carlos Mendes de Sousa, professor universitário da Universidade do Minho especializado na obra de Sophia de Mello Breyner: "Não há palavras excrescentes na sua obra. A palavra não é um ornamento extrínseco ao viver da poesia. Sophia procurou, como diz num verso, "dar voz à veemência das coisas". E atingiu esse dizer através de uma esplendorosa concisão".

Ao "mergulhar de olhos abertos" na vida e obra de Sophia de Mello Breyner com o objetivo de escrever uma biografia - a primeira que lhe é dedicada -, a jornalista Isabel Nery confrontou-se com a mesma ilusão da simplicidade. "A sua escrita simples, de rutura face aos floreados dominantes, nunca invalidou a profundidade", reforça a autora, que destaca também o apelo de uma obra capaz de chegar "a leitores diferentes, graças "à forma simples como falava de coisas complexas".

Com publicação prevista para o primeiro semestre deste ano, a biografia é o resultado de dois anos de aturada investigação, que passou pela consulta de documentos na Torre do Tombo, e por 70 entrevistas a pessoas próximas da autora, mas também académicos e outros poetas. Ao aproximar-se do prazo de entrega do livro, Isabel Nery admite que "há uma continuidade a atravessar as diferentes etapas da sua vida que converge na base ética e na preocupação com o bem comum".

Menos consensual será a sua influência sobre os criadores poéticos das últimas décadas. Excetuando talvez Daniel Faria (1971-1999), escasseiam exemplos de outros autores contemporâneos que assumiram a ascendência de Sophia. Para o poeta Luís Quintais, a "densidade cultural" da obra da poetisa está distante "da circunstância e do efémero" atual. "Não sei se a minha geração, marcada por um ceticismo feroz, acredita na capacidade transfiguradora da poesia, como a de Sophia acreditava", diz o autor de "A noite imóvel", ciente, todavia, de que "as águas profundas" da autora a tornam "menos vulnerável ao tempo".

"Empurrada" no ensino

Dezena e meia de anos decorridos sobre a sua morte, o espetro do esquecimento parece distante, ao contrário do que acontece com outros poetas da sua geração. Da entrada no Panteão Nacional à reedição da sua obra pela Assírio & Alvim (no próximo mês vai sair o volume "O nu na Antiguidade clássico", esgotado há 20 anos"), são vários os indícios positivos. Ainda assim, a filha Maria Andresen, responsável pela gestão da sua obra, critica o fraco protagonismo no ensino. "Faz-me imensa confusão ver a forma como tem sido empurrada para o lado. Como poeta, não tem chegado a tanta gente. Só tem um livro para leitura no 10.o ano e no 12.o não faz parte da lista de 15 poetas a ler", critica.

Dos livros aos colóquios, do teatro à música, são várias as artes convocadas para celebrar o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner.

Até 6 de novembro, dia em que a poetisa contemplaria 100 anos, são mais de dezena e meia as iniciativas previstas, com a particularidade de não se limitarem ao território português (Lisboa sobretudo, mas também Porto e Lagos, por exemplo), chegando ainda a Roma ou ao Rio de Janeiro.

A abertura simbólica far-se-á já hoje, às 16 horas, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, através da representação de um dos mais marcantes textos da autora, "O cavaleiro da Dinamarca". Os alunos da Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional vão recriar a peça com elementos de literatura, dança, música e meio audiovisual.

Artes em debate no Porto

Vertente fundamental no programa, os colóquios vão ser desdobrados em vários momentos. Um dos pontos altos acontece na Fundação Gulbenkian, a 16 e 17 de maio, com a participação de especialistas portugueses e estrangeiros.

Já a reconhecida ligação da autora às artes vai ser o enfoque do colóquio que irá prolongar-se por cinco dias (16, 23 e 30 de novembro e a 7 e 14 de dezembro) na Fundação de Serralves.

O dia central das comemorações, 6 de novembro, vai ser marcado por um concerto no Teatro Nacional de São Carlos, de que irá constar um programa inspirado na obra de Sophia.

Os festejos vão chegar também a outras localidades (Braga, Guimarães, Penafiel, Ovar, Coimbra, Aveiro, Lagos, Loulé e Bragança) graças ao conto musical "A menina do mar", ainda sem datas conhecidas.

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