www.jn.ptjn.pt - 12 jan 18:17

Bisonte ou como olhar para dentro da pele

Bisonte ou como olhar para dentro da pele

Nova criação de Marco Ferreira da Silva marca arranque da programação no Teatro Municipal do Porto

O bisonte é um animal forte, encorpado, pesado, de juba viçosa e porte exuberante. É veloz e a visão engana - não é um predador. Geralmente, é predado por lobos. "Bisonte" - robusto na aparência, frágil na essência - inspira a metáfora trabalhada por Marco da Silva Ferreira na sua terceira criação, que estreou esta sexta-feira, no Teatro do Campo Alegre, no Porto - e que repete este sábado, às 19 horas. Em março segue para Bruxelas; em abril apresenta-se no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Que lugar íntimo se esconde atrás de uma armadura? A peça, ancorada em dados biográficos do criador e construída para seis bailarinos - "mais de seis é sempre muito", diz - é uma peça "emocional, à flor da pele, que salta entre a histeria e a melancolia" numa reflexão sobre uma sociedade "hipermasculinizada", cujas relações parecem invariavelmente ditadas por estereótipos e pelo poder. "Que comunidades são estas que ainda se medem pelo grande, forte e rápido? Pelo poder, sexo e controlo?", questiona.

Artista associado do Teatro Municipal do Porto nos últimos quase dois anos (de setembro de 2017 até julho próximo), Marco da Silva Ferreira falou com o JN em setembro passado, na Bienal de Dança de Lyon, onde apresentou o espetáculo "Brother". O trabalho resgatava danças tribais, usando o corpo como um "recoletor de memórias", para demonstrar que "ninguém vai neste barco sozinho". Explorava o pulsar comum, a rede de emoções, códigos, linguagens e símbolos que podem nascer de um coletivo.

O coreógrafo volta a usar o coletivo, a linguagem urbana e contemporânea, que traça a identidade do seu percurso, mas difere na construção do espaço cénico. Normalmente, propõe "espaços abstratos, brancos, não literais, espaços potenciadores, que permitem olhar para os corpos e não para o lugar". Para "Bisonte", que enceta uma espécie de rutura com os trabalhos anteriores, até porque nunca cede à tentação do Lado B - foi necessário "criar um espaço íntimo, com lugares de destaque e com tridimensionalidade".

Tudo nesta criação é mais literal. Mas é também aí, no espaço onde tudo sucede, que continua a revelar-se outra marca de água do seu trabalho: a intensidade. "Mesmo quando proponho um movimento fluido, não bruto, ele está carregado de tensão e de intenção. Não é violento, não há perigo nem vertigem da queda. É sempre uma intensidade em que a dor vem misturada com prazer".

Desta vez, a intensidade procura a intimidade, aquilo que só se vê quando se olha para dentro com a pele e não com o ego. Ou o preconceito. Desta vez, num elevador de emoção que vai do samba ao Prince, o desenho surge sobretudo no um-para-um, trilho íntimo em que vai desfazendo a convenção e o género. Em cena há "um corpo muito viril e pujante" que se vai apetrechando com armaduras - físicas, emocionais, psicológicas - para denunciar uma intimidade "carregada de automatismos e estereótipos que levam à sua falência". Dito assim pode não parecer, mas Bisonte é sobre o romantismo que persiste em cada um de nós.

2
1