www.jn.ptjn.pt - 12 jan 09:38

Bebés no crisma da bola e do amor ao clube

Bebés no crisma da bola e do amor ao clube

Em dia de clássico Sporting-F. C. Porto, aqui ficam dois exemplos de leões e dragões sócios logo à nascença.

Os papás revistos e projetados nas descendências e convencidos que as protegem de qualquer tentação desviante, na defesa das comunidades da bola e da paixão clubística, que se quer etnicamente pura e livre de qualquer contágio. Na prevenção do pecado original, na indispensável defesa dos dogmas, eis estes batismos futebolísticos de recém-nascidos, que ingressam, sem escolha própria, por superior determinação familiar, nas mais diversas tribos dos estádios. Na preservação das células e dos tecidos, processa-se, afinal, a enxurrada renovadora destes grupos restritos, nas quais se nutrem os sentimentos identitários da bola, a mesma cola social que há de perpetuar, de geração em geração, a rivalidade que alimenta o mais popular de todos os desportos, com todos os antagonismos e iguais doses de cumplicidades que lhe estão associadas. Em dia de clássico Sporting-F. C. Porto, aqui ficam dois exemplos dessa dicotomia vital: um, Rodrigo, um mês de vida e tudo pela frente para dar sucessão à gesta leonina; outra, Inês, tripeira de oito dias, para dar continuidade à narrativa dragoniana. Logo mais, já se vê quem sorri. Faites vos jeux!

"Rodrigo nasceu um dia, sob o signo do leão, e os pais dele aprenderam a amá-lo e a trazê-lo no coração". Esta é uma adaptação da letra original da "Marcha do Sporting", de Maria José Valério, e que conta a curta vida deste bebé, sócio sportinguista, que vai passar pelo primeiro clássico, frente ao F. C. Porto, com pouco mais de um mês de vida, junto da família. O pequeno Rodrigo ainda mal tinha aberto os olhos e já o pai, Bruno Lages, o estava a inscrever como sócio do Sporting. As novas tecnologias ao serviço do leão. "O Sporting tem a aplicação Sócio num Minuto. Inscrevi-o logo no dia em que nasceu", disse ao nosso jornal Bruno Lages, consultor informático de 30 anos. A mãe, Ana Rita, tem 28 anos e é educadora de infância. Sportinguista também, como se exige.

No caso de Rodrigo, foi uma aplicação para telemóvel que evitou o incómodo da deslocação à Loja Verde - a família vive no concelho do Seixal, mas longe do centro de estágios do rival Benfica - e garantiu ao progenitor uma coisa muito simples: o filho já tinha o carimbo verde e branco. Tudo na ponta dos dedos. E o clube de Alvalade passava a contar, a partir do dia 4 de dezembro do ano passado, com o associado 178 167-0, nascido mais cedo que previsto, com 2,85 kg e 48 cm de vigor leonino.

E nem havia outra hipótese. É que todos os Lages são sportinguistas. Menos a avó paterna, uma espécie de "ovelha encarnada" da família. "Só a minha mãe é que... Não sabe bem. Não percebe nada! É do Benfica", contou ao JN, entre risos, Bruno Lages, também ele sócio desde o primeiro momento de vida. "Fui também sócio desde que nasci. Depois deixei de ser, mas recuperei o número há nove ou dez anos", acrescentou.

Em relação ao jogo, Bruno Lages lamentou ainda não conseguir levar o rebento para o estádio, mas assegurou que nem isso o demove de ir para o topo sul, assistir ao jogo, junto às claques. Até vai levar um amigo portista, que já tem a lição estudada - contenção nas comemorações! "Eu vou ao estádio ver o jogo. Não falho um jogo em casa. E o Rodrigo vai ver com a mãe, avós e tios. É tudo do Sporting", disse, orgulhoso, o consultor informático, que acredita que irá ver "o Sporting acabar com a série de vitórias do F. C. Porto". Confiança não falta. Luís Mota

"Ora diz lá, menina: de que clube és? És do Porto ou do... Porto?!". Inês faz hoje oito dias e ainda ficará confusa, mas não há de demorar muito a perceber que não tem escapatória. Nem escolha, porque nesta família do Porto, tripeira de gema, ser portista é uma presunção dogmática indispensável. Tanto assim que, à primeira hora de existência, esta filha de dragões foi logo registada no F. C. Porto.

Inês ainda não tinha saído da maternidade do Hospital de Santo António, onde viu a luz do dia, na sexta-feira da semana passada, e já estava a dar seguimento a este fenómeno de tropismo social. Ministraram-lhe os santíssimos sacramentos do Dragão e foi registada com o cartão 132 653. Fica isenta de cotas até aos dez anos, mas já penhorada à paixão clubística.

"A minha filha não tem escolha. Toda a família é portista e ela também será. Não tem alternativa a esta paixão e há de ser muito feliz por isso", declara o papá, Hugo Durães, de 36 anos, nado e criado nas Antas, no irresistível chamamento do extinto Estádio das Antas, e também ele portista praticante há 27 anos, encartado com o número 17 193.

A mamã, psicóloga, nem cuida de buscar racionalidade numa coisa que tem explicação muito simples: "É assim, é natural que assim seja. Toda a família é portista, a Inês também será", afirma Mafalda Alves.

À intransigência dos papás por este património identitário, junta-se toda a família, sobretudo a tia Joana, Joana Durães, sócia 38 155, e o namorado, que, como não?, também milita pelo Dragão. Foram os tios que trataram da papelada. "Antes do cartão de cidadã, a Inês já tinha o do F. C. Porto", felicita-se Joana, como se o chip biográfico daquela fatia de plástico fosse a própria essência da sobrinha.

Pois é assim, lá em Águas Santas, onde reside o casal e o mais recente rebento dragoniano da família, que tudo transpira fêquêpê, num ambiente bacterologicamente puro. Ali, tudo é imaculadamente azul. O cachecol é a exceção rosa da iconografia portista que rodeia Inês.

E se a doutrina falha? "Não falhará", garante o pai de Inês. "Credo! Nem pensar nisso", alarma-se a tia Joana. "O importante é que seja feliz. E portista. Uma portista feliz, a começar já por este jogo com o Sporting", coincide a família toda, a adivinhar e a desejar a Inês um afortunado batismo de adepta. Almiro Ferreira

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