observador.ptRui Ramos - 11 jan 06:48

O nome do vazio

O nome do vazio

Se houver mesmo um desafio a Rio, não é para o poupar a derrotas, mas para mudar uma estratégia que pode comprometer o PSD como grande partido. Rio é hoje apenas o nome do vazio que ele próprio criou.

Imaginem isto: estamos em 2014; António Costa chegou à liderança do PS. Perante a modéstia dos resultados de António José Seguro, muda a política do partido. Reconhece que o ajustamento de 2011-2014 correu bem, que a economia voltou a crescer e o desemprego diminui, e disponibiliza-se para negociar reformas e políticas com o PSD. Mais: dá a entender que a sua estratégia consiste em substituir o CDS junto do PSD. Depois da bancarrota de 2011 e do processo contra Sócrates, seria a única maneira de fazer regressar os socialistas à área do poder. Para legitimar a estratégica, Costa invocaria o papel histórico do partido na resistência à revolução em 1975, nos ajustamentos do FMI, nas revisões constitucionais, e na adesão à CEE e à moeda única: o PS sempre desejou uma democracia liberal e uma economia de mercado, como qualquer partido do centro-direita na Europa. Lembraria a declaração de Mário Soares, o fundador do PS, sobre o “socialismo na gaveta”, e as suas alianças com o CDS e o PSD. Em última instância, até poderia dizer que o PS não é um partido de esquerda, mas de centro-direita.

Bem sei que Costa perdeu as eleições de 2015 com uma estratégia de confronto com a “direita”. Mas acham que o resultado teria sido melhor se tivesse negado a tradição do PS de partido de governo alternativo à direita, e deixado os seus militantes e eleitores completamente confusos sobre o que o PS representava e propunha?

Por razões que têm a ver com a história política portuguesa, a ideia de Costa fazer do PS um partido de “centro-direita” parece impossível, mas a ideia de um líder do PSD tentar fazer passar o PSD como partido de “centro-esquerda” não só é possível, como aconteceu. Rui Rio e os seus invocam, para se justificar, os anos 70. É verdade: o PSD, tentou então passar por “partido de centro-esquerda”, adoptou a expressão “social democracia” e até se propôs aderir à Internacional Socialista. Nada disso, porém, era ideologia, mas estratégia: era perigoso ser de direita em 1974, e, nos anos seguintes, a aliança com o “mexicano” PS parecia a mais seguro caminho para o poder.

Hoje, a questão volta a não ser ideológica, mas apenas estratégica: Rio não está à  “esquerda” de ninguém no PSD, mas simplesmente convencido de que é com o PS que o PSD pode aproximar-se do poder. Era o que acreditavam as Opções Inadiáveis em 1979, contra Sá Carneiro. Acontece que essa estratégia tem agora, contra si, uma história que não tinha nos anos 70. Não faz sentido admitir que continua a ser impossível ser de direita, quando já não há COPCON, ou que a direita não pode ganhar eleições e governar sozinha, quando obteve entretanto seis maiorias absolutas e governou um total de vinte anos. É fácil desenterrar uma citação “esquerdista” de 1975, mas a verdade é que jamais o PSD foi visto ou tratado como um partido de esquerda. Foi sempre, para os eleitores, uma alternativa à esquerda. Sim, é possível, ao contrário do PS, travestir o PSD. Mas nem por isso essa mascarada deixa de ter as mesmas consequências de trapalhada e desordem que teria, para o PS, aparecer de repente como partido de “centro-direita”.

“Sede de poder”, dizem os sábios para explicar a contestação a Rui Rio no PSD. Não faz sentido. Em situação normal, ninguém quereria substituir o líder numa época eleitoral difícil, como as sondagens sugerem que seja. Se houver mesmo um desafio a Rio, não é para o poupar a derrotas, mas para mudar uma estratégia que pode comprometer o PSD como grande partido. Rui Rio é hoje apenas o nome do vazio que ele próprio criou. É esse vazio que o PSD precisa de preencher.

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