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António Peças, o chico-esperto que não dá hipótese

António Peças, o chico-esperto que não dá hipótese

O médico recusou-se a transportar doentes urgentes no helicóptero do INEM por considerar “não valer a pena”.

António Peças, o médico-cirurgião no Hospital de Évora, afastado do INEM e agora sob investigação pela Ordem dos Médicos e pela ​Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, é um excelente exemplo do chico-espertismo que ainda se observa na sociedade portuguesa. Escalas sobrepostas, esquemas e mentiras e, sobretudo, uma tremenda cara de pau, seriam ingredientes para fazer rir, mas, neste caso, o assunto pia fino.

Gente boa e má há em todas as profissões, obviamente. Não é sério estranharmos um caso em que alguém tira uma baixa sem estar doente, ainda que seja confrangedor aquele telefonema patético que António Peças fez ao colega do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) dizendo que estava mal disposto e indisponível para trabalhar quando, na verdade, estaria numa praça de touros e pronto a acudir às mazelas de forcados.

Esquemas destes acontecem todos os dias e em todo o lado, a coberto da condescendência que só muito raramente denuncia — tornando-se, por isso, cúmplice. Acontece que António Peças não é um profissional qualquer, ele é médico-cirurgião num hospital distrital e o clínico responsável pelo transporte aéreo de doentes urgentes.

O desplante e a pose que assumiu na entrevista à SIC, em que procurou justificar o injustificável, são exemplos da arrogância que ainda se vê na classe médica e noutras profissões ditas “de elite” — sei do que falo, trabalhei 20 anos em hospitais. Felizmente, vão sendo exemplos cada vez mais raros, mas os poucos que ainda por aí andam (e nem sempre são os “velhos”, como muitas vezes se pensa) têm um poder e influência que deixam marcas, algumas impossíveis de apagar.

Foi aqui que a chico-espertice de António Peças ultrapassou o limite: o médico recusou-se a transportar doentes urgentes no helicóptero do INEM por considerar “não valer a pena”. As gravações reveladas nos últimos dias são esclarecedoras — não é preciso ser médico para as compreender, na substância e muito menos no tom — e há uma que se destaca. 

António Peças (escrever várias vezes o nome serve, mais do que dar um rosto ao personagem, para não se confundir o homem com o ofício), médico, tentou argumentar, perante a aflição dos colegas de profissão, que não valia a pena transportar uma doente de 37 anos com um aneurisma da aorta do hospital de Faro para o de Santa Cruz, em Carnaxide.

A mulher acabou por morrer. É sabido que a condição clínica era muito grave, e por isso provável que o transporte de helicóptero que António Peças estava a recusar fazer de nada adiantasse. Mas o que é difícil aceitar é que não lhe tenha sido dada a hipótese.

Sabemos que ser médico implica ter de tomar decisões muito difíceis, mas o argumento de António Peças não foi ter outro caso mais urgente para atender, ou outra situação com maior probabilidade de sucesso. António Peças, simplesmente, tentou fugir àquilo que é o seu “trabalho”, a sua obrigação: tentar salvar uma vida.

Há decisões difíceis de entender e de justificar. Ponho-me no lugar da doente, da família, dos amigos. E também no dos profissionais de saúde, porque já fui um deles, e com responsabilidades de urgência. O laxismo e irresponsabilidade de António Peças (sim, volto a repetir) é uma vergonha para muita gente, para a classe médica e para todos os que lidaram ou lidam com ele em serviço e foram deixando que o “esquema” se arrastasse até este limite — sabemos agora que este comportamento vem de trás, pelo menos desde 2017, quando fez turnos de 72 horas seguidas e escalas de 400 horas por mês. E uma vergonha para uma sociedade onde ainda há quem se ache uma espécie de Deus.

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