www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 10 jan 07:44

PSD: O fantasma da bancarrota eleitoral

PSD: O fantasma da bancarrota eleitoral

O que tem destruido o PSD são os compromissos de centrão, opacos, pantanosos, em que os interesses de uns poucos são metidos à frente dos interesses colectivos. - Opinião , Sábado.

Era inevitável. Com as sondagens que circulam nos bastidores, o PSD nunca se aquietaría a um líder que não dá mostras de descolar e que acumula erros em cima de erros. Por muito germánica que seja a agenda de Rio, procurando descolar do imediatismo endémico da política caseira, nunca o PSD profundo lhe daría uma paz sincera com o espectro de um desastre eleitoral histórico a pairar sobre o partido. E o espectro anda aí, pelo menos desde Dezembro passado, quando algumas sondagens não oficiais – ou seja, não depositadas na ERC -  começaram a circular nos meandros políticos, apontando para valores muito abaixo dos piores patamares atingidos pelo PSD em eleições legislativas e que andaram á volta dos 25 por cento.

Esse fantasma de uma anunciada bancarrota eleitoral colocou o dilema aos desafiadores de Rio, como Luís Montenegro, que é o mais forte e mais organizado: avançar agora, já com o ciclo eleitoral a correr depressa e correr o risco de perder ou avançar depois do desastre de Rio e apanhar os cacos para reerguer o partido. Em circunstancias normais, os adversarios de Rio avançariam apenas depois da sua derrota. Rio teria sido um líder de mera transição e quem ganhasse a seguir estaría preparado para capitalizar com o fim de ciclo de António Costa e com o PS, então, a entrar num processo de sucessão que se adivina complexo.

A questão é que a dimensão dos cacos pode ser muito próxima de um terremoto. Se se confirmarem os valores das sondagens que por aí andam, pode estar mesmo em causa a posição do PSD enquanto partido central do sistema político nacional. Uma derrota nos 25 por cento já seria muito má – e liquidaría a ingénua ilusão de Rio, proclamada no congresso, de que o importante são as autárquicas do ano que vem…  Mas uma derrota abaixo disso transformaría a nova liderança pós-Rio numa verdadeira missão suicida. Uma derrota abaixo dos 25 por cento empurra o PSD e o próprio sistema partidario para uma imprevisível  transformação que, sabendo como começa, é impossível prever como acabará.

A volatilidade eleitoral do PSD promete ser de tal modo, que Montenegro e todos os outros potenciais candidatos têm quase a obrigação histórica de avançar. De resto, é óbvio que, com tudo isto se misturam muitos designios pessoais de poder, que vão dos putativos candidatos a líder aos que calculam todos os movimentos e palavras em função da manutenção ou conquista de lugar nas listas de deputados. Isso é o habitual nestas lutas, em todos os partidos. O que não soa bem aquí, não é isso. São mais as espantosas palavras de um barão como Ângelo Correia, que diz que há "uma sede violenta de poder" e que isso "vai destruir o PSD". A sede de poder no PSD foi sempre violenta e nunca destruiu o partido. Sá Carneiro teve sede de poder. Carlos Mota Pinto soube lutar pelo poder com valores, preservando a sobrevivencia e consolidação do PSD nesses tempos difíceis. Cavaco exibiu sempre uma sede de poder praticamente caníbal. Devorou os seus adversarios um a um. Rio calculou a sua ascensão com evidente sede de poder.

O que o tem destruido o PSD não é essa sede de poder. O que tem destruido o PSD são os compromissos de centrão, opacos, pantanosos, em que os interesses de uns poucos são metidos à frente dos interesses colectivos. E o baronato que protagonizou a construção e manutenção dessas sarjetas comunicantes entre os diferentes níveis de poder do chamado Bloco Central de Interesses é que habitualmente sai vencedora. Os líderes são de circunstancia mas esses barões estão lá sempre. E dividem-se sabiamente por lideranças e candidatos a líderes. Convém não ter ilusões: esses barões são quem ganha sempre.

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