www.publico.ptpublico@publico.pt - 10 jan 07:49

Não há MACHADO que corte

Não há MACHADO que corte

O que não podemos aceitar é que as formas da vulgarização do que é violentamente contra as liberdades se mova com as benesses de circulação e gestos que estas criam — claramente para acabar com elas.

Não há MACHADO que corte

A besta colhe no medo. Sabe esconder a faca e sabe metê-la nos dentes, pela calada faz os seus raids. Tem uma cara para cada caso, pode escondê-la e ser simpático, sedutor, vestir uma marca famosa, sentar-se como uma pessoa, de modo decente, numa cadeira que ali está — que mal tem? Só em Pirandello os rabos que nelas se sentam continuam uma fala.

Não é instintual o seu modo de matar, não se vem à luz com arma no lugar dos dedos, não se nasce com os caninos de um felino, a couraça do crocodilo, o olhar sempre vigilante do leopardo, a força do hipopótamo, a raiva organizada das hienas, nem se nasce alcateia, sem ofensa ao lobo. É (de)formação, construído sobre uma teia de preconceitos desde cedo, cultural — a cultura, neste sentido, são todos os aspectos, os comportamentos que cada fechamento de grupo engendra ao lado de cosmopolitismos sem chão e de universalismos politizados, de vários tipos de nonchalance e de diletantismo, muitas vezes bem parecidos.

O turismo global — a turistificação — é um modo de circulação do dinheiro, retrato fiel da inexistência de virtudes do mercado, uma formatação das formas dos “prazeres”, uma pavlovização do uso do tempo. O mercado não gera pensamento, a democracia “protegida” legalmente dele gera, pode gerar. O mercado é força cega que impõe pela avalancha do espectáculo — ideológico, a publicidade é a ideologia — imperante da mercadoria o seu critério de lucro, o único que regra um modo, no fundo, de terrorismo aparentemente light, de ocupação — o turismo massivo é uma força de ocupação no sentido militar do termo, impõe corpos em todo o espaço e em todo o tempo, é uma hora de ponta permanente no seio de uma babel total. É um meio, um habitat, um ambiente propício aos nacionalismos tacanhos. A besta é nacionalista tacanha e tem de facto um atrás que faz dela um seguidor, seja o que isso for e depois reage, é reactiva, não existe por si, nenhuma originalidade a ungiu. Não se nasce rancoroso, complexado, necessitado de sangue, violento contra tudo o que mexe e é diferente, já o dizia o bom selvagem do outro, mesmo que isso seja uma utopia — aos bons selvagens lobos a voz foi sendo uivo e aos felinos as unhas garras.

A besta foi também amamentada. E pode ser amamentada depois do leite por condições de abastardamento tais da democracia que façam crescer os lodos — a banalização do mal — onde vai buscar de que se fortalecer - só em meio corrupto de ideias cresce. À besta não basta ser gorila e marginal, ambiciona ser SS, dominar as ruas, impor a lei do progrom, do anti-emigrante, contra o negro, a mulher, a sua bandeira são a homofobia e o racismo, o seu credo o capitalismo selvagem, o ultraliberalismo, a força bruta do mais forte. A sua via é a da demarcação de um modo de besta-ser que não suporta o que não seja a sua própria “supremacia”, cultivada secretamente num altar de mafiosos, em circuitos obscuros e clandestinos. Pois que poderia ser mais que gang, o primado da violência pela violência? Pela violência contra: contra todas as formas do outro, contra todos os modos da alteridade. Mesmo contra aquilo que é apenas fruto da natureza mas que esta não “desenhou” como suposta forma perfeita. Um animal imperfeito, uma forma não convencional, uma cor fora do baralho, um modo de aparecer, saudar, uma forma de ser pacífico, gentil, sincero, autêntico, a besta despreza, sabe cuspir contra. Só cultiva os seus sósias, as armas, a musculatura, as botas mortíferas, a alta cilindrada, a provocação gratuita, a javardice de grupo, a acção directa fascizante, a propriedade murada, a milícia assassina, o homicídio, o genocídio. A besta não conhece lei, nem nenhuma forma de lei, a sua é a da selva das cidades, imposição pela força da barbárie, a banalização da morte, o seu credo de espalhar o medo como mundo — é um negócio seguro, sobre ele todos os tráficos rendem, com ele o obscuro pode vangloriar-se na luz, exibir o seu novo-riquismo. Vender o estado policial absoluto. A militarização total do quotidiano, um mundo fardado, um mundo aramado, farpado, vídeo-vigiado, dronizado, eis os seus mandamentos.

E não se pode exterminá-los? Pode, pode… para isso serve a lei e uma prática radical pela paz, a força organizada da tolerância — esta age dentro dos seus limites desde que estes não sejam esmagados, o direito a formas de resposta que imponham a paz como critério é um direito elementar. E há muitas formas de a fazer cumprir.

Em nome da vida, da diversidade, em nome do outro, em nome dos frágeis, do direito a uma intimidade em sujeito perante o anti-ecológico, direito à distância diante da ocupação neocolonial turística — o turismo é um neocolonialismo global —, direito às formas de existir não compendiadas sem que isso signifique estar na reserva, ou fazer da reserva um zoo, direito ao amor da dança, ao prazer de construir um mundo que, à semelhança da própria inteligência humana, a possa, por assim dizer, fazer cumprir, por oposição à outra comprovada vocação, a desumanidade, a carnificina industrial.

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