www.publico.ptpublico@publico.pt - 8 dez 06:05

A esquerda ou é ecologista ou não é esquerda

A esquerda ou é ecologista ou não é esquerda

Esperava-se que a actual governação de esquerda em Portugal assumisse uma política ambiental e ecologista mais condigna.

A grande inovação ideológica surgida sobretudo a partir do último quarto do seculo XX foi a das preocupações ambientais resultantes dos avanços da ciência da Ecologia.

Desde sempre o ecologismo e o Ambiente, mais ou menos extremados conforme quem os assume, foram adoptados pelas forças políticas progressistas; mas ainda hoje há quem defenda que as alterações climáticas são apenas fruto dos ciclos do planeta – são os mesmos que dizem terem acabado as ideologias de esquerda e direita, só existe a ideologia dominante que é a “realidade”, ou seja, o mercado.

Na Europa depois da 2.ª Guerra Mundial acentuaram-se as ideologias democráticas de esquerda – seja o socialismo democrático ou social-democracia, seja a “esquerda” da direita que é (era...) a democracia-cristã. Ambas nasceram como reacção quer ao marxismo quer ao liberalismo que nos finais do século XIX se confrontavam e impunham ditaduras, fosse a do proletariado fosse a do deus dinheiro do laissez faire, laissez passer.

Os ideólogos da social-democracia, desde os do socialismo utópico até aos das diversas variantes que se desenvolveram e a democracia-cristã saída da Igreja depois da Encíclica Rerum Novarum, procuravam sistemas de maior protecção social e de mais justiça democrática, sem pôr em causa os pilares essenciais da liberdade e da democracia. Mesmo países de maioria religiosa protestante acataram as propostas da democracia-cristã, coisa que hoje nem os mais fervorosos católicos (pelo menos no discurso) já acatam, rendidos como estão aos cantos de sereia do liberalismo.

As preocupações ambientais passaram a fazer cada vez mais parte das propostas que se orientavam por aquelas ideologias; mas sobretudo a esquerda socialista e social-democrata assumia-as com maior empenho.

A erosão que se verifica na esquerda democrática de alguns anos a esta parte, e a cedência da direita democrática cada vez mais aos ditames do liberalismo financeiro, têm tido como consequência o crescimento de franjas ideológicas: por um lado, a extrema-direita que ganha terreno, por outro lado, o realce cada vez mais notório de partidos ecologistas ou “verdes”, que se podem dizer de extrema-esquerda.

A perda de importância própria nos partidos social-democratas europeus (com maior gravidade na Alemanha mas um pouco noutros países) resulta a meu ver de não terem sabido actualizar a sua ideologia e, entre outras causas, aos problemas ambientais e ecológicos contemporâneos.

A experiência governativa de esquerda ensaiada em Portugal, para além de ser uma espécie de alerta para a Europa de que é possível governar à esquerda, tem tido, entre outros, como grave deslize a perda da sua sensibilidade ambiental e ecologista. A Política de Ambiente, aceites como foram, sem pestanejar, as alterações institucionais concretizadas pelo último governo de direita, perdeu toda a sua capacidade de intervenção global e transversal nos sectores da economia. É inevitável ter de voltar a falar no descalabro da política florestal, mas também a defesa que o Ministério do Ambiente chegou a fazer da continuidade da exploração petrolífera no Algarve, a condescendência face à poluição provocada pela indústria da celulose no rio Tejo e, como denunciou o Prof. Jorge Paiva, no mar da zona da Leirosa, o ajoelhar face à continuidade da central nuclear de Almaraz, o caos nos Parques Naturais com uma organização ineficaz, a junção do ICN com as florestas ao encontro dos desejos especulativos da floresta industrial e da actividade urbano-turística, etc., etc. – é só um pedaço da longa lista de ineficácias.

Esperava-se que a actual governação de esquerda assumisse uma política ambiental e ecologista condigna com as ideias mais progressistas, não tanto pelo PS, que nunca foi ambientalista, mas pelos partidos de esquerda que o apoiam – afinal nem se fala dessas matérias, todos ficam indiferentes à falta de políticas que garantam a perenidade, isto é, sustentabilidade do território.

E uma esquerda do séc. XXI que não seja ecologista não é esquerda.

1
1