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Hospitais querem fazer cirurgias sem enfermeiros

Hospitais querem fazer cirurgias sem enfermeiros

Os administradores hospitalares querem saber se os médicos estão disponíveis para operar sem enfermeiros nos blocos.

O ponto a que chegou a "greve cirúrgica" dos enfermeiros, que está a decorrer há mais de duas semanas em cinco hospitais do país e já adiou quase cinco mil operações, está a pôr médicos, gestores e Ministério da Saúde a equacionar várias soluções para minimizar as consequências para os doentes.

O protesto pode durar até ao final do ano e há doentes graves, a quem estão a ser adiadas cirurgias, em risco de ficarem com sequelas por falta de intervenção atempada, como alertou ontem a Ordem dos Médicos (OM). No Centro Hospitalar Lisboa Norte, que integra o Hospital de Santa Maria, já foram adiadas 456 cirurgias e não foi possível operar uma única criança, segundo o presidente Carlos Martins. Em Coimbra, pelas contas da OM do Centro, já terão sido adiadas quase mil cirurgias. No Porto, da parte do S. João e Santo António não houve informação.

O presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) quer respostas imediatas para estes casos concretos. "Os dados têm de ser centralizados e encontradas soluções dentro do Serviço Nacional de Saúde [SNS] ou no privado, se necessário", referiu Alexandre Lourenço. Além disso, acrescentou, "o Ministério da Saúde tem de perguntar à OM se os médicos estão disponíveis para operar sem enfermeiros".

Questionado pelo JN, o bastonário Miguel Guimarães não rejeitou a possibilidade, mas manifestou muitas reservas. "Se o Ministério colocasse essa questão, teríamos de discutir internamente. Mas não me parece que a atitude fosse a melhor. Não queremos uma guerra, temos de manter a coesão entre médicos e enfermeiros que trabalham todos os dias juntos."

Hospitais a divulgar

A ministra da Saúde também recusou "alimentar climas de guerra" entre profissões e pediu às ordens para assegurarem que nenhum doente é prejudicado. Marta Temido reuniu ontem com as administrações dos hospitais afetados pelo protesto para articular a remarcação das cirurgias, preferencialmente no SNS.

Tal como sugerido pela Ordem dos Médicos e pela APAH, Marta Temido entende que os hospitais devem divulgar "o prejuízo desta greve" "para que os portugueses compreendam o que se está a passar, que é uma greve extraordinariamente agressiva, precedida por uma proposta que respondia à maioria das reivindicações dos enfermeiros".

O bastonário da OM concorda porque "os portugueses têm o direito de saber o que se está a passar nos hospitais" e, na segunda-feira, vai reunir com os diretores clínicos dos cinco hospitais.

"Calamidade", diz OE

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros (OE) enviou ontem uma carta ao primeiro-ministro, classificando a situação atual com "cinco mil cirurgias adiadas" como "uma calamidade e uma catástrofe sem precedentes". E "ainda não chegamos a meio da greve", avisa Ana Rita Cavaco, pedindo a intervenção de António Costa para encontrar uma solução para a carreira e para a contratação de mais enfermeiros.

Também o ex-ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, fez um apelo ao entendimento "em nome dos doentes", que "estão a sofrer e a ser penalizados".

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