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Como se combate o medo? “Todos juntos ou cada um por si?”, pergunta Costa

Como se combate o medo? “Todos juntos ou cada um por si?”, pergunta Costa

O primeiro-ministro lembrou esta manhã que Portugal não se afastou dos princípios europeus com o Governo que lidera com o apoio do PCP e do BE. Socialistas querem um novo contrato social na Europa.

Se o mundo é global e os problemas que se colocam são cada vez mais transfronteiriços, então a resposta tem de ser de todos em conjunto e não cada um por si. É esta a linha que António Costa defendeu este sábado de manhã, no seu discurso no congresso dos socialistas europeus. Na avaliação do primeiro-ministro, “o grande desafio que temos pela frente é de vencer o medo”. E o medo apresenta-se aos cidadãos sob as mais diferentes formas: através dos receios dos trabalhadores de terem os empregos em risco por causa dos robôs; do terrorismo; das dificuldades cada vez maiores de coesão social que ameaçam o Estado social. A resposta a estes medos é a de que “faremos sempre melhor juntos do que cada um por si”, defendeu.

O discurso de António Costa foi ao encontro do que antes de si tinha dito Pedro Sánchez. O primeiro-ministro espanhol desafiou os socialistas europeus a elaborarem um novo contrato social, que de pronto foi ratificado pelo candidato socialista à comissão Europeia Frans Timmermans. Um contrato que se baseie em cinco pontos: uma aposta na educação, na melhoria do mercado de trabalho, na promoção do bem-estar, num novo olhar para o combate às alterações climáticas, e, por fim, na necessária regeneração democrática.

Cinco eixos que, não coincidindo ipsis verbis com o que disse António Costa, estiveram todos na mensagem principal a passar neste congresso que lança o Partido Socialista Europeu no caminho das eleições europeias de Maio de 2019.

“A verdade é só uma. Alguns dos grandes desafios, factor de medo e ansiedade que minam a confiança dos nossos cidadãos podem ser melhor resolvidos fora da União Europeia? Por maior que seja cada um dos países, juntos faremos sempre melhor do que cada um por si”, defendeu António Costa. Pedindo que se ouçam os cidadãos e o que os assusta, Costa lembrou que “é seguramente a globalização” e o que com ela vem associado.

Os medos e as soluções

Um dos problemas associados é a “ameaça terrorista”. “Podemos defender-nos melhor cada um por si? Ou todos juntos? Juntos na Europa podemos fazer mais para combater o terrorismo”, disse. Mas essa luta não é no combate. É antes nas necessárias “políticas de inclusão” para combater “o fenómeno da radicalização”.

Outro dos medos que assolam os cidadãos europeus é a evolução tecnológica e o que ela pode fazer ao mercado de trabalho. “Muitos dos nossos trabalhadores têm dúvidas e incertezas sobre o que lhes vai acontecer no futuro. Vão ser substituídos pelos robôs?”, questionou. A solução não pode ser travar o futuro. “O progresso não se trava, mas é no quadro da União Europeia que teremos melhores condições para investir na educação, na educação de adultos ao longo da vida, e na inovação tecnológica.”

Todo este quadro mostra que “as pessoas têm medo porque vêem a coesão social a desaparecer. Vêem que o modelo social que a nossa família política construiu está ameaçado”, começou por diagnosticar. A resposta a este receio de deslaçamento social passa também por uma tarefa conjunta dos vários países; a de ter políticas fiscais mais justas, que promovam uma equilibrada redistribuição da riqueza. Mas há tarefas de taxação que não podem ser feitas cada país por si. Por exemplo, “taxar as multinacionais” que encontram “uma qualquer ilha no meio do mar” para pagarem menos impostos. “Não conseguiremos sozinhos.” Este assunto foi um dos pontos do discurso de Frans Timmermans. O holandês vice-presidente da Comissão Europeia com a pasta dos direitos fundamentais agradou aos congressistas ao defender salários iguais para trabalhadores com as mesmas tarefas, estejam em que país estiverem. Falou ainda da necessidade de uma Europa forte, tendo em conta que os Estados Unidos estão a atravessar momentos confusos. E disse que se for eleito presidente da Comissão Europeia porá África no centro da sua acção. “África é uma grande responsabilidade. Estamos nisto juntos”, disse o candidato do PSE à Comissão Europeia.

Depois de ouvir discursos dos responsáveis da família política do PSE em vários países da União Europeia, — como foi o caso do primeiro-ministro de Malta, Joseph Muscat, que desagradou à eurodeputada Ana Gomes —, Costa afirmou que só se pode “combater o medo com resultados”. E que para lá se chegar, cada um pode seguir “caminhos diferentes”, desde que se alcance “um objectivo comum” e que se tenha liberdade de o escolher. “É essencial que as pessoas possam acreditar que nesta Europa unida temos regras comuns, mas que temos também cada um dos nossos povos, a soberania democrática para escolher as alternativas de Governo que desejam”. A “Europa tem de ser uma família onde queremos viver em conjunto, mas cada um com a sua própria identidade”.

Para exemplificar essa liberdade na escolha, António Costa deu como exemplo o seu Governo, que conta com o apoio do PCP e do BE, com visões diferentes da Europa. “Há três anos, quando formámos este Governo, muitos disseram que nos estávamos a isolar da Europa, que queríamos ser uma ilha que se ia separar do continente e navegar Atlântico abaixo em direcção ao Sul. Três anos depois, não só não partimos numa ilha, como hoje estamos mais no centro do continente do que estávamos há três anos”, concluiu.

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