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Um arranha-céus em chamas e outros programas de Natal

Um arranha-céus em chamas e outros programas de Natal

Ficar sozinho em casa a lidar com ladrões, viajar por uma América idealizada, pelos Alpes dos Von Trapp, pela metade mágica do mundo, ou deixarmo-nos contagiar pelo amor (que acontece mais no Natal), algumas pistas cinematográficas para o que fazer

Música no Coração

O Natal em família — e previsível

Quando se fala de filmes de Natal, este filme que nem uma cena tem passada no Natal é dos primeiros, senão o primeiro, a vir à cabeça. E não só no Portugal dos dois canais, e depois dos muitos mais, mas também no Reino Unido, onde foi transmitido pela primeira vez em 1978, ou nos EUA, onde o filme é tradicionalmente transmitido na televisão na altura do Natal (ou da Páscoa) desde 1976. A história verídica da família Von Trapp tornou-se num melodrama protagonizado pela irresistível Julie Andrews e com sete crianças canoras em escadinha, que sobrevivem primeiro à morte da mãe, depois à disciplina do pai e por fim à ocupação nazi. É um filme de família que até se pode discutir se é um filme de guerra mas que só é de Natal pelo ambiente familiar e pela coincidência televisiva. O destino dos Von Trapp é a Suíça e a sua viagem é pelas colinas vivas com o som da música, polvilhadas de edelweiss, bucólica Áustria fora. Música no Coração empresta-nos o sonho da neve e do Natal branco vendido pela Coca-Cola e traficado por Hollywood, e dá-lhe um toque de reunião familiar em harmonia Do-Re-Mi sobre as dores de crescimento da adolescência, as nossas coisas favoritas e a melancolia de ter de ir para a cama enquanto a vida continua para os adultos. Tudo isso ressoa na época das festas graças à realização de Robert Wise e a uma banda-sonora original icónica. O Natal e as festas de família fazem-se de um ingrediente essencial – para além da comida – que é a repetição. E Música no Coração repete-se em muitos países como o pano de fundo ou o rescaldo das festas, mas também como o prato principal. Sempre com aquele sabor a Norte da Europa a aproximar à Lapónia e ao cheiro a Natal, ou rimando, como na canção, a um Natal recheado de “crisp apple strudels” e “schnitzel with noodles”. Este ano, podemos estar descansados, Música no Coração vai estar a dar na RTP1, outra vez, a acompanhar a Consoada. J.A.C.

Harry Potter

O Natal mágico – e à inglesa

Há comboios que sonhamos sempre apanhar, mas que são como bater contra uma parede. Por mais amor que os britânicos tenham aos comboios e ao cumprimento de horários, na estação de King’s Cross, em Londres, há corações que batem mais forte – os dos fãs de Harry Potter, que fazem fila para se fotografar na Plataforma 9 e ¾ lá reproduzida e onde a viagem dos estudantes e fãs de Hogwarts começa. Talvez tenha sido a estreia do primeiro filme nos cinemas, em Novembro, a arrastar-se como filme de Natal para os leitores e espectadores; depois os canais de TV começaram a pôr os filmes Potter à disposição de todos os muggles por altura do Natal; mas provavelmente é mesmo o ambiente juvenil, de magia, amizade, frio britânico e o imaginário recheado de castelos e aldeias pitorescas que associa os filmes de Harry Potter ao Natal. E eles levam-nos a Londres, um destino natalício para luzes e compras só por si, da estação ao Leadenhall Market (que faz as vezes de parte do Diagon Alley) à Millennium Bridge, mas também ao Glenfinnan Viaduct (Escócia) e à Universidade de Oxford. Harry Potter é quase um produto de Natal completo: é destino, é prenda em livros e filmes e merchandising (nada diz “Natal” como um rebuçado Jelly Bean de sabor a cera de ouvido) e é até um parque temático onde o Baile de Natal de Harry Potter e o Cálice de Fogo é recriado nos Harry Potter Studios em Londres. Mas nem só de Jelly Beans a saber a terra ou banana se fazem as ceias criadas por J.K. Rowling: há pudins de Natal em chamas, bolos com um pinguim a patinar na cobertura branca ou vinho infinito, e também um acessível peru sem efeitos especiais. J.A.C.

Sozinho em Casa

O Natal americano – sem família

Ah, as maravilhas da família. Esta é “uma comédia de família sem a família”, como avisa o poster, e oficial e irredutivelmente um filme de Natal. Eis uma família numerosa que se junta e depois perde uma peça essencial – Kevin. Ah, os McAllister. O tio forreta, o primo choninhas que faz chichi na cama, o irmão brutamontes, 11 miúdos e quatro pais que só querem ir passar um Natal de postal a Paris. E vão, todos menos Kevin, que fica para trás na casa nos arredores de Chicago para nos prendar com o cenário americano do Natal da neve e das casas luminosamente enfeitadas. É escrito por John Hughes e realizado por Chris Columbus, que sabem tocar todas as notas da comédia familiar ou adolescente, e criar estes hábitos que são os filmes de Natal. Repetido à exaustão, nem por isso amado pela crítica e por todos, Sozinho em Casa oferece o cenário: a missa do galo, as baladas e os cânticos tradicionais americanos que nos enchem até hoje as lojas da globalização (incluindo um playback de White Christmas) e uma pizza só de queijo – porque o Natal também é o sonho das refeições que um miúdo quiser no meio de tantos bacalhaus e legumes cozidos. A música de John Williams põe o laço na prenda que é Sozinho em Casa, filme que desde que se estreou, em 1990, começou a levar públicos das gerações contemporâneas e das que se lhe seguiram para uma aventura de Natal 100% americana, com pais Natal de centro comercial, filmes a preto e branco e a celebração da montagem da árvore de Natal perante uns inesquecíveis ladrões de brincar. E estes últimos são talvez a verdadeira viagem de Sozinho em Casa, porque este é um filme de empoderamento infantil. Kevin ganha aos ladrões, à pizza e faz o Natal quando uma criança quiser. Também ganha o Natal quando finalmente tem a família de volta. J.A.C.

Os Ricos e os Pobres

O Natal da empresa – a pedra no sapatinho

Os Ricos e os Pobres é uma pedra no sapatinho. No filme de John Landis, Eddie Murphy e Dan Aykroyd são os peões de um jogo de troca de lugares entre o rico corretor (branco) e o fura-vidas (negro) operado por dois irmãos que fazem dos mercados financeiros o cenário para uma história de Natal invulgar e tão deliciosa quanto um lombo de salmão fumado escondido na barba falsa de um Pai Natal. A festa de Natal da empresa é o cenário onde o rico tornado pobre surripia, vestido de vermelho e branco e com o álcool a dar-lhe coragem líquida não só salmão, mas também pãezinhos e um naco de carne. É também onde o pobre tornado rico percebe que o tentam incriminar com um saco de drogas no meio de copos de champanhe e um ar frio bem yuppie. Natal nos anos 1980, Natal moral com dois lados bem distinguíveis: a prostituta interpretada por Jamie Lee Curtis a fazer a festa com pouco apesar da neve impiedosa de Filadélfia e os idosos milionários Randolph e Mortimer Duke a serem o retrato da abundância e arrogância. Este Natal é o dos espertalhões, passado no terreiro da bolsa e do tráfico de influências, no frio, sempre no frio, urbano e com as cores e o sujo das metrópoles americanas. A viagem também é da literatura e da música clássica, com ecos de O Príncipe e o Mendigo de Mark Twain e de As Bodas de Fígaro, e de um tipo de humor que (quase) já não se faz, com brancos a caricaturar negros com a cara pintada de castanho e homofobia casual, e uma visita à loja de penhores em vésperas de Natal para serem mesmo boas as festas. J.A.C.

Assalto ao Arranha-Céus

Natal de pé descalço – e uma metralhadora, Ho! Ho! Ho!

O melhor conselho de viagem de sempre? Figas com os pés. Quem nunca viu Assalto ao Arranha-Céus, seminal filme de acção dos anos 1980, nunca tentou esta técnica de relaxamento pós-viagem longa. Claro que é preciso tirar os sapatos e disso se arrepende quase imediatamente John McClane (Bruce Willis) quando chega de limusina ao Nakatomi Plaza, em Los Angeles, e antes de uma conversa que irá (ou não) salvar um casamento no fio da navalha. Será descalço que este polícia nova-iorquino irá enfrentar no dito arranha-céus em construção os terroristas que afinal eram ladrões, e vai acabar com os pés em sangue, porque nenhum dos ladrões tinha sapatos que lhe servissem. Mas, pelo caminho, arranjou uma metralhadora, Ho! Ho! Ho! (é procurar por camisolas de Natal com isto, elas existem). Como é que um dos melhores filmes de acção de todos os tempos também é um dos melhores filmes de Natal de todos os tempos, mesmo tendo estreado no meio do Verão? Tem música de Natal (Run DMC e Let it snow), festas de Natal no escritório com “neve” (cocaína), fita-cola com motivos de Natal com várias aplicações (incluindo colar armas nas costas) e toda uma história de fundo que fala de uma família à beira da separação porque John e Holly (McClane, não Genaro) se dedicam demasiado ao trabalho. Tudo acaba bem, com a família reunida, a caminho de casa na mesma limusina em que tinha chegado – e viagens de limusina serão sempre um standard em Los Angeles. Claro que dois anos depois, o Natal dos McClane muda-se para um aeroporto em Washington, no não tão bom mas também bom Assalto ao Aeroporto. “Outra cave, outro elevador. Como é que a mesma merda acontece ao mesmo gajo duas vezes?” E que dizemos n��s? “Yippee ki-yay!” M.V.

Do Céu Caiu uma Estrela

O Natal está dentro de nós

Frank Capra sempre disse que Do Céu Caiu uma Estrela (“It’s a Wonderful Life”) era o seu melhor filme e que o próprio realizador transformou em visionamento obrigatório para a sua própria família no Natal, “um grito de esperança para os desencantados e os desiludidos, os perseguidos e os espezinhados, os pobres e os deserdados”, como escreveu na autobiografia. É um filme que cristaliza a imagem de uma determinada América, uma cidade pequena onde toda a gente se conhece, com o seu diner, as ruas com casas baixas e jardins bem tratados, e o seu herói all-american, o homem sem defeitos corporizado no George Bailey de Jimmy Stewart, honesto e altruísta homem de família. Acabará como o homem mais rico da cidade, a fictícia Bedford Falls (que muitas cidades dos EUA já reclamaram ter sido a inspiração para Capra), mas haverá uma altura em que alguém lhe diz (um banqueiro) que vale mais morto que vivo. O altruísmo irá levar George Bailey a contemplar o suicídio por considerar que a vida de toda a gente ficará melhor sem ele. E é aqui que aparece o anjo, para lhe mostrar que a vida, afinal, é bela (“wonderful”, como diz o título original), qual Scrooge no Conto de Natal de Dickens. Impossível ser cínico em relação a este filme que só inspira bons sentimentos e que deixa um conselho bastante prático que continua a ser válido: não confiar demasiado nos bancos. M.V.

“O Amor Acontece” 2003

O Natal acontece – por todo o lado

Vamos já tirar duas coisas do caminho. O Amor Acontece (Love Actually) é aquele filme de Natal em que Lúcia Moniz é a portuguesa que não fala inglês e o alvo de todos os afectos de um Colin Firth que não fala portugu��s. E é aquele filme de Natal em que um futuro matador de zombies chamado Andrew Lincoln (ainda sem barba) vive uma paixão secreta e não correspondida pela mulher do seu melhor amigo – e de certeza que muita gente fez a sua declaração de amor a passar cartões à porta da coisa amada. Basicamente, é uma sequela natalícia em vinhetas de Quatro Casamentos e um Funeral, o filme em que Richard Curtis passou de argumentista a realizador e que é, por enquanto, a maior contribuição do século XXI para essa categoria chamada “filmes de Natal”. É o filme que nos garantiu que o amor triunfa sempre, mesmo para o rapaz que enche a mala de preservativos e vai para a América para cumprir o seu sonho de seduzir uma rapariga americana (mas, claro, encontra o amor). Ou para os que ganham a vida como duplos de corpo em filmes eróticos. Ou para um primeiro-ministro que gosta de dançar sozinho na sua residência oficial e que se enamora pela rapariga que lhe serve o chá. Ou para a criança que se apaixona por uma coleguinha que vai partir no dia seguinte. Também ficamos a saber que, no Natal, haverá sempre um taxista que sabe um atalho para chegar mais depressa ao aeroporto, que será de evitar o balcão de loja onde Mr. Bean é o responsável pelos embrulhos, que há álbuns de Natal feitos só para ganhar dinheiro e que será sempre melhor oferecer um colar com um coração em vez de um disco de Joan Baez. Demasiado amor para um só filme? Está no título, ninguém vai ao engano. M.V.

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